O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 21 de 62

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O Queijo e os Vermes

20. Mandeville

Naturalmente nada nos leva a supor que Menocchio conhecesse o Ragioni del perdonare . Contudo, existia na Itália do século XVI, nos ambientes mais heterogêneos, uma tendência (captada com perspicácia por Crispoldi) em reduzir a religião a uma realidade puramente mundana — a um vínculo moral ou político. Essa tendência era expressa por diferentes linguagens, partindo de pressupostos diversos. E, apesar disso, nesse caso talvez seja possível perceber uma convergência parcial entre os círculos mais avançados da alta cultura e os grupos populares de tendência radical.

Nesta altura, se retornarmos aos grosseiros versos da Historia del Giudicio citados por Menocchio para justi car sua própria a rmação (“Acho que amar ao próximo é um preceito mais importante do que amar a Deus”), ca claro que, mais uma vez, a rede interpretativa era de longe mais importante do que a “fonte”. Mesmo se a interpretação de Menocchio partira do texto, suas raízes eram profundas.

 

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Entretanto, houve textos que foram de fato importantes para Menocchio, e entre eles, como ele mesmo admitiu, em primeiro lugar estava o Cavallier Zuanne de Mandavilla , isto é, As viagens de sir John Mandeville . Quando o processo foi reaberto em Porto- gruaro, os inquisidores repetiram, ameaçadoramente desta vez, a exortação de sempre, para que desse os nomes “de todos os seus companheiros, caso contrário agiriam com mais rigor contra ele, já que parece impossível a este Santo Ofício que tenha aprendido sozinho tanta coisa e não tenha companheiros”. “Senhor, não sei de ter ensinado jamais alguém”, foi a resposta de Menocchio, “nem jamais tive companheiros nas minhas opiniões; e o que eu disse, disse por causa daquele livro do Mandavilla que eu li”. E ainda, numa carta enviada da prisão aos juízes, como veremos, Menocchio enumerou, em segundo lugar, entre as causas dos seus próprios erros, “ter lido aquele livro do Mandavilla, de tantas raças, e tão diversas leis, que me deixou todo confuso”. Por que “confuso”? Qual o motivo da inquietação? Para responder, é preciso, antes de mais nada, veri car o que o livro continha na realidade.

Escritas em francês, provavelmente em Liège, em meados do século XIV, e atribuídas a um ctício sir John Mandeville, As viagens são substancialmente uma compilação baseada tanto em textos geográ cos como em enciclopédias medievais, como a de Vincente de Beauvais. Após ampla circulação manuscrita, a obra teve um grande número de edições impressas em latim e nas principais línguas europeias.

As viagens estão divididas em duas partes, com conteúdos muito diversos. A primeira é um itinerário para a Terra Santa, uma espécie de guia turístico para peregrinos. A segunda é a descrição de uma viagem para o Oriente que atinge ilhas cada vez mais longínquas, até a Índia e Catai, isto é, a China. O livro termina com a descrição do paraíso terrestre e das ilhas que costeiam o reino do mítico Preste João. Ambas as partes são apresentadas como testemunhos diretos, mas, enquanto a primeira é rica em observações precisas e documentadas, a segunda é repleta de fantasia.

Sem dúvida, o conteúdo da primeira parte teve grande responsabilidade no excepcional sucesso alcançado pela obra. Sabe-se que até o nal do século XVI a difusão das descrições da Terra Santa continuou a superar a das descrições do Novo Mundo. E o leitor de Mandeville podia adquirir uma série de conhecimentos pormenorizados tanto dos lugares sagrados e da localização das principais relíquias ali conservadas como dos usos e costumes dos habitantes. A indiferença de Menocchio em relação às relíquias, como se pode lembrar, era absoluta, mas a minuciosa descrição das particularidades teológicas ou rituais da Igreja grega e dos “diversos hábitos dos cristãos” (samaritanos, jacobitas, sorianos, georgianos) que viviam na Terra Santa e de suas divergências com a Igreja de Roma despertou seu interesse. Sua recusa do valor sacramental da con ssão terá sido con rmada, ou talvez estimulada, pela descrição feita por Mandeville da doutrina dos jacobitas, assim chamados porque foram convertidos por são Tiago (Jacopo): “Dizem que se deve confessar só a Deus e só a ele prometer se corrigir; quando querem se confessar, porém, acendem o fogo e ali jogam incenso e outras espécies odoríferas e entre a fumaça se confessam a Deus, pedem sua misericórdia”. Esse modo de se confessar era de nido por Mandeville como “natural” e “primitivo” (dois adjetivos densos de signi cado para um leitor do século XVI), embora se apressasse em reconhecer que “os santos padres e papas que lhe são posteriores ordenaram que se confessasse ao homem e com razão, porque eles observaram que doença alguma pode ser curada, não se pode dar o remédio certo, se não se conhece a natureza do mal; da mesma forma, não se pode dar a penitência certa se não se sabe a qualidade do pecado, já que os pecados não são iguais, nem no tempo, nem no espaço. Convém saber a natureza do pecado no tempo e no espaço e depois dar a penitência”. Ora, Menocchio — ainda que colocasse no mesmo plano confessar-se ao padre ou a uma árvore — admitiu, como vimos, que o padre poderia dar a quem não sabia o “conhecimento da penitência”: “Se esta árvore conhecesse a penitência, daria no mesmo; alguns homens procuram os padres porque não sabem que penitências devem ser feitas para seus pecados, esperando que os padres as ensinem, mas, se eles soubessem, não teriam necessidade de procurá-los”. Reminiscência de Mandeville?

Fascínio ainda maior deve ter exercido sobre Menocchio a longa exposição de Mandeville acerca da religião de Maomé. No segundo processo é revelada a tentativa do moleiro (todavia, como já comentamos, o testemunho não é seguro) de satisfazer sua curiosidade a respeito, lendo diretamente o Alcorão, que foi traduzido na Itália em meados do século XVI. Porém, com as viagens de Mandeville, Menocchio já pudera aprender certas convicções sustentadas pelos maometanos, em parte conformes com algumas a rmações suas. Segundo o Alcorão, relatava Mandeville, “entre todos os profetas, Jesus foi o mais excelente e o mais próximo de Deus”. Menocchio, quase repetindo suas palavras: “Minha dúvida é [...] que não tivesse sido Deus, mas um profeta qualquer, um homem de bem, que Deus mandou pregar neste mundo”. Ainda em Mandeville, Menocchio pudera encontrar uma clara recusa da cruci cação de Cristo, tida como impossível porque contraditória com a justiça de Deus: “Mas não foi jamais cruci cado como dizem, ou melhor, Deus o fez ascender a ele, sem morte, sem mácula, e transformou-o em outro, chamado Judas Iscariotes; esse sim foi cruci cado pelos judeus, que pensaram que fosse Jesus, o qual subira aos céus para julgar o mundo e dizem [...], nesse artigo que estamos citando, que a grande justiça de Deus não poderia fazer nada sofrer... ”. De acordo com o testemunho de um conterrâneo, parece que Menocchio defendia algo semelhante: “Não é verdade que Cristo tenha sido cruci cado, mas sim Simão da Cirenaica”. É evidente que para Menocchio também a cruci cação, o paradoxo da cruz, era inaceitável: “Parecia-me inacreditável que um senhor se deixasse prender assim e por isso eu duvidava que, tendo sido cruci cado, fosse Deus; talvez algum profeta...”.

São semelhanças indiscutíveis, embora parciais. Mas parece impossível que a leitura dessas páginas pudesse inquietar Menocchio. Menos ainda o severo juízo sobre a cristandade que Mandeville atribuía ao sultão: “Eles [os cristãos] deveriam dar exemplo fazendo o bem às pessoas comuns, deveriam ir ao templo e servir a Deus, e estão o dia todo girogirando pelas tavernas, bebendo, comendo como animais [...]. Eles deveriam ser simples e humildes, mansos e caridosos como foi Jesus no qual eles creem, mas fazem o contrário, o inverso, e são todos inclinados para o mal, e tanta é a cobiça, a avareza que por pouco dinheiro vendem os lhos, irmãs e as próprias mulheres como meretrizes; roubam um a mulher do outro, não se mantêm na fé, não respeitando a lei que Jesus Cristo deixou para eles se salvarem... ”.