O Queijo e os Vermes
41. “Acabar com os padres”
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Os contatos que porventura Menocchio tenha mantido com “os que têm conhecimento e doutrina” não são conhecidos — com exceção de um caso que examinaremos mais adiante. Sabemos, porém, de suas obstinadas tentativas de difundir as próprias ideias entre o “povo ignorante”. Mas aparentemente ninguém lhe dera atenção. Esse fracasso, na sentença que fechou o primeiro processo, foi considerado um sinal da intervenção divina, que impedira a corrupção das almas simples dos habitantes de Montereale.
Somente um, um marceneiro analfabeto, Melchiorre Gerbas, “tido por pessoa de pouco juízo”, ouvira atentamente os discursos de Menocchio. Contava-se dele, “nas tavernas, que não acreditava em Deus e blasfemava muito”, e mais de uma testemunha associara seu nome ao de Menocchio por ter “criticado e falado mal das coisas da Igreja”. Então, o vigário-geral quis saber quais eram suas relações com Menocchio, que acabara de ser encarcerado. No início, Melchiorre a rmara que se tratava de simples relações de trabalho (“ele me dá madeira para eu trabalhar e eu lhe pago”), mas em seguida admitira ter blasfemado pelas tavernas de Montereale, repetindo uma frase ouvida por Menocchio: “[...] tendo me dito Menocchio que Deus não é nada mais que ar, e eu também acreditando nisso...”.
Essa atitude de cega subordinação não é difícil de ser entendida. Pela sua capacidade de ler, escrever, discutir, Menocchio parecia a Melchiorre ter à sua volta um halo quase mágico. Com uma Bíblia que lhe havia sido emprestada, Melchiorre andara pela cidade dizendo com ar de mistério que Menocchio tinha um livro com o qual podia “fazer coisas maravilhosas”. Porém, as pessoas sabiam muito bem que existiam diferenças entre eles. “Este aqui [...] é suspeito de heresia, mas não igual ao tal de Menocchio” — alguém comentara, falando de Melchiorre. Um outro observara: “Disse tais coisas mais por ser louco e porque bebe”. Mesmo o vigário-geral entendera que estava diante de um homem de índole muito diversa da do moleiro. “Quando disse que Deus não existia, realmente acreditava que não existisse Deus?” — perguntou docemente. E Melchiorre respondeu em seguida: “Não, padre, porque eu acredito que Deus esteja no céu e na terra e pode me fazer morrer quando quiser; eu disse aquelas palavras porque me foram ensinadas por Menocchio”. Administraram-lhe algumas penitências e o deixaram ir. Esse era o único seguidor de Menocchio — ao menos o único confesso — em Montereale.
Aparentemente, nem com a mulher e os lhos manteve
con dências: “Que Deus os guarde dessas opiniões”. Apesar de suas relações na aldeia, devia se sentir muito só. “Naquela tarde”, confessou, “em que o padre inquisidor me disse: ‘Venha amanhã a Maniago’, quei quase desesperado, queria sair pelo mundo e fazer o mal [...]. Queria acabar com os padres, pôr fogo nas igrejas e andar sem rumo; mas, por causa das minhas crianças, me contive...” Essa explosão de impotente desespero diz tudo sobre seu isolamento. A única reação que lhe viera diante da injustiça que o atingira fora a violência individual, imediatamente reprimida. Vingar-se dos seus algozes, destruir os símbolos da opressão e se tornar bandido. Uma geração antes, os camponeses incendiaram os castelos dos nobres friulanos. Mas os tempos eram outros.