O Queijo e os Vermes
46. Primeira sentença
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No mesmo dia em que Menocchio entregou a carta, os juízes se reuniram para emitir a sentença. Durante o processo, a atitude deles mudara imperceptivelmente. De início, zeram Menocchio notar as contradições em que caíra; depois, tentaram reconduzi-lo ao caminho certo; por m, em vista de sua obstinação, renunciaram a qualquer tentativa de convencê-lo e se limitaram a perguntas exploratórias, como se desejassem chegar a um quadro completo de suas aberrações. E unanimemente declararam Menocchio “non modo formalem hereticum [...] sed etiam heresiarcam” (não só um herético formal [...] mas também um heresiarca). E assim, no dia 17 de maio, a sentença foi promulgada.
O que impressiona de imediato é o seu tamanho — quatro ou cinco vezes maior que as sentenças comuns. É um sintoma da importância atribuída ao caso de Menocchio pelos juízes, mas principalmente um sintoma da di culdade em inserir suas inauditas a rmações nas formas estereotipadas de documentos do gênero. O espanto dos juízes era tanto que transparecia sob a seca linguagem judicial: “invenimus te [...] in multiplici et fere inexquisita heretica pravitate deprehensum” (pudemos constatar que te deixaste envolver numa perversão herética múltipla e quase inaudita). Esse processo extraordinário terminava, portanto, com uma sentença igualmente extraordinária (acompanhada de sua correspondente abjuração, também muito longa).
Desde o início, os juízes frisaram o fato de que Menocchio falara sobre as suas opiniões heréticas e que argumentara contra a fé católica “non tantum cum religiosas viris, sed etiam cum simplicibus et idiotis” (não apenas com religiosos, mas também com pessoas simples e ignorantes), pondo em risco a fé daqueles. Evidentemente tratava-se de uma agravante: a qualquer custo, os camponeses e artesãos de Montereale deveriam ser mantidos afastados de doutrinas tão perigosas. Seguia uma minuciosa refutação das teses defendidas por Menocchio. Usando de um verdadeiro crescendo retórico, absolutamente inabitual em sentenças inquisitoriais, os juízes insistiam na audácia e obstinação do réu: “ita pertinacem in istis heresibus”, “indurato animo permansisti”, “audacter negabas”, “profanas et nefandis verbis [...] lacerasti”, “diabolico animo af rmasti”, “intacta non reliquisti sancta ieiunia”, “nonne reperimus te etiam contra sanctas conciones latrasse?”, “profano tuo iudicio [...] damnasti”, “eo te duxit malignus spiritus quod ausus es af rmare”, “tandem polluto tuo ore [...] conatus es”, “hoc nefandissimum excogitasti”, “et ne remaneret aliquod impollutum et quod non esset a te contaminatum [...] negabas”, “tua lingua maledica convertendo [...] dicebas”, “tandem latrabas”, “venenum apposuisti”, “et quod non dictu sed omnibus auditu horribile est”, “non contentus fuit malignus et perversus animus tuus de his omnibus [...] sed errexit cornua et veluti gigantes contra sanctissiman ineffabilem Trinitatem pugnare cepisti”, “expavescit celum, turbantur omnia et contremescunt audientes tam inhumana et horribilia quae de Iesu Cristo lio Dei profano ore tuo locutus es” (de tal forma obstinado nessas heresias; permaneceste com a alma insensível; negavas com atrevimento, ofendeste com palavras profanas e nefandas; a rmaste com espírito diabólico; não poupaste os santos jejuns; por acaso não vimos que ladraste também contra as santas palavras?; condenaste com teu julgamento profano; foi por in uência do espírito maligno que ousaste a rmar; en m tentaste com tua boca imunda; imaginaste essa coisa totalmente abominável; e para que nada permanecesse imaculado e que não fosse por ti contaminado [...] negavas; adulterando com tua língua maldita [...] dizias; en m latias; colocaste o veneno; e o que é terrível que não só se diga mas se ouça; teu espírito mau e perverso não se contentou com essas coisas todas [...] mas levantou os seus cornos e, como os gigantes, te puseste a lutar contra a inefável Santíssima Trindade; o céu se espanta, tudo se conturba e estremecem os que ouvem as coisas tão desumanas e horríveis que com tua voz profana falaste de Jesus Cristo, lho de Deus). Não há dúvida de que, por meio dessa exagerada verborragia, os juízes estivessem tentando exprimir um sentimento bem real: seu espanto e horror diante do acúmulo de heresias jamais vistas antes. Aos olhos dos inquisidores, estas deviam se con gurar como um verdadeiro vórtice infernal.
Mas dizer “jamais vistas antes” não é de todo verdadeiro. Os inquisidores haviam conduzido dezenas e dezenas de processos no Friuli envolvendo luteranos, bruxas, benandanti , blasfemadores e até mesmo anabatistas, sem nunca ter encontrado algo parecido. Só no que diz respeito à a rmação de Menocchio de que para se confessar bastava contar os próprios pecados a Deus, eles invocaram a tese análoga defendida pelos “heréticos”, isto é, pelos seguidores da Reforma. Quanto ao resto, procuraram ocasionais analogias e precedentes num passado mais remoto, recorrendo à sua própria educação teológica e losó ca. Assim, a referência de Menocchio ao caos foi associada à doutrina de um lósofo antigo, não nomeado: “in lucem redduxisti et rmiter af rmasti vera[m] fuisse alias
reprobatam opinionem illam antiqui losophi, asserentis
eternitatem caos a quo omnia prodiere quae huius sunt mundi” (retomaste e a rmaste com convicção ser verdadeira a opinião, já condenada, de antigo lósofo, que admitia a eternidade do caos do qual se originaram todas as coisas existentes no nosso mundo). A a rmação de que “Deus é autor do bem, mas não faz o mal, mas o diabo é autor do mal e não faz o bem” foi relacionada à heresia dos maniqueus: “tandem opionem Manicheorum iterum in luce revocasti, de duplici principio boni scilicet et mali...” (en m retomaste a opinião dos maniqueus a respeito dos dois princípios, o do bem e o do mal). Com um procedimento análogo, a tese da equivalência de todas as fés foi identi cada com a doutrina de Orígenes sobre a apocatástase: “heresim Origenis ad lucem revocasti, quod omnes forent salvandi, Iudei, Turci, pagani, christiani et in deles omnes, cum istis omnibus aequaliter detur Spiritus sanctus...” (retomaste a heresia de Orígenes, ao a rmar que todos devem salvar-se, judeus, turcos, pagãos, todos, cristãos e in éis, uma vez que da mesma forma a todos é dado o Espírito Santo). Algumas asserções de Menocchio pareceram aos juízes não só heréticas como contrárias à própria razão natural, como, por exemplo: “Quando estamos no ventre da mãe, somos como que nada, carne morta”, ou outra, sobre a inexistência de Deus: “circa infusionem animae contrariaris non solum Ecclesiae sanctae, sed etiam omnibus losofantibus [...] Id quod omnes consentiunt, nec quis negare audet, tu ausus es cum insipiente dicere ‘non est Deus’...” (a respeito da infusão da alma, contrarias não só o ensino da Santa Igreja como o de todos os pensadores [...] o que todos admitem e ninguém ousa negar, tu, a exemplo do tolo, ousaste dizer: “Deus não existe”).