O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 34 de 62

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O Queijo e os Vermes

35. “Eu não sei”

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No interrogatório seguinte (16 de fevereiro) o vigário-geral começou lhe pedindo esclarecimentos sobre a “majestade de Deus” para depois desfechar o golpe nal: “O senhor disse que nossas almas retornam à majestade de Deus e já a rmou antes que Deus não é nada além de ar, terra, fogo e água: como então as almas retornam à majestade de Deus?”. A contradição era deveras real; Menocchio não soube o que responder: “É verdade que eu disse que ar, terra, fogo e água são Deus, e o que eu disse não posso negar; quanto às almas, elas vieram do espírito de Deus e, portanto, é preciso que retornem ao espírito de Deus”. O vigário, insistindo: “O espírito de Deus e Deus são a mesma coisa? E o espírito de Deus está incorporado nos quatro elementos?”.

“Eu não sei” — respondeu Menocchio. Permaneceu calado por algum tempo. Talvez estivesse cansado. Ou talvez não entendesse o que queria dizer “incorporado”. Finalmente respondeu: “Eu acredito que todos nós, homens, temos um espírito de Deus, que, se zermos o bem, ca alegre, e, se zermos o mal, o espírito não gosta”.

“O senhor acha que esse espírito de Deus é o mesmo que nasceu daquele caos?”

“Eu não sei.”

“Confesse a verdade” — recomeçou, implacável, o vigário — “e vamos acabar com o interrogatório; disse que acredita que as almas retornam à majestade de Deus e que Deus é ar, água, terra e fogo; como então as almas retornam à majestade de Deus?”