O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 25 de 62

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O Queijo e os Vermes

24. Cultura escrita e cultura oral

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Vimos, portanto, como Menocchio lia seus livros: destacava, chegando a deformar, palavras e frases; justapunha passagens diversas, fazendo explodir analogias fulminantes. Toda vez que confrontamos os textos com suas reações a eles, fomos levados a postular que Menocchio possuía uma chave de leitura oculta que as possíveis relações com um ou outro grupo de heréticos não são su cientes para explicar. Menocchio triturava e reelaborava suas leituras, indo muito além de qualquer modelo preestabelecido. Suas a rmações mais desconcertantes nasciam do contato com textos inócuos, como As viagens , de Mandeville, ou a Historia del Giudicio . Não o livro em si, mas o encontro da página escrita com a cultura oral é que formava, na cabeça de Menocchio, uma mistura explosiva.

 

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Retornemos então à cosmogonia de Menocchio, que no início nos parecera indecifrável. Agora podemos reconstruir sua complexa estrati cação. Ela começava desviando-se imediatamente do Gênese e de sua interpretação ortodoxa, a rmando a existência de um caos primordial: “Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos...” (7 de fevereiro). Num interrogatório subsequente, como vimos, o vigário-geral interrompeu Menocchio, que discorria sobre as Viagens de Mandeville, e lhe perguntou “se esse livro não falava do caos”. Menocchio negou, repropondo (desta vez, de forma consciente) o já citado cruzamento entre cultura escrita e cultura oral: “Não, senhor, mas sobre isso eu li no Fioretto della Bibbia , mas as outras coisas que eu disse sobre o caos eu tirei da minha própria cabeça”.

Na verdade, Menocchio não se lembrava muito bem. O Fioretto della Bibbia não falava propriamente do caos. Apesar disso, a narrativa bíblica sobre a criação é precedida, sem preocupação nenhuma com a coerência, de uma série de capítulos derivados em grande parte do Elucidarium , de Honório d’Autun, em que a metafísica se mistura à astrologia, e a teologia à doutrina dos quatro temperamentos. O capítulo IV do Fioretto , “Como Deus criou o homem a partir dos quatro elementos”, começa da seguinte maneira: “Como está dito, Deus no princípio fez uma grande matéria, a qual não tinha forma, nem feição, e fez tanta que podia dali tirar ou fazer o que quisesse; dividiu-a e distribuiu-a e dela retirou o homem formado pelos quatro elementos [...]”. Aqui, como se vê, é postulada a indistinção primordial dos elementos, o que de fato exclui a criação ex nihilo , todavia o caos não é mencionado. É provável que Menocchio tenha tomado conhecimento desse termo erudito num livro ao qual se referiu incidentalmente durante o segundo processo (mas em 1584, como se verá, já o sabia): o Supplementum supplementi delle croniche , do ermitão Jacopo Filippo Foresti. Essa crônica, escrita no nal do século XV, porém alicerçada em bases ainda claramente medievais, começa com a criação do mundo. Depois de ter citado Agostinho, patrono da sua ordem, Foresti escreveu: “[...] e está dito, no princípio Deus fez o céu e a terra: não que este existisse realmente, mas porque existia em potencial, para que depois se escrevesse que o céu fora feito; é como se, considerando as sementes de uma árvore, já falássemos em raiz, tronco, ramos, frutos e folhas: não que já existam, mas porque vão existir. E assim se diz que no princípio Deus fez o céu e a terra, quando a matéria do céu e da terra ainda estava fundida, mas, como estava certo de que seria o céu e a terra, tal matéria já foi chamada de céu e terra. Essa forma enorme, sem guras de nidas, foi chamada por Ovídio, no início de seu livro mais volumoso, e também por alguns lósofos, de Caos, o qual Ovídio menciona nesse mesmo livro, dizendo: ‘Antes da terra, do mar, do céu que tudo cobre, a natureza era uma massa que os lósofos chamavam Caos, uma grande e indigesta matéria: e não era mais do que uma massa incerta e inerte reunindo num mesmo círculo, e as sementes discordantes de coisas não bem combinadas’”.

Partindo da ideia de harmonizar a Bíblia com Ovídio, Foresti acabou por expor uma cosmogonia mais ovidiana que bíblica. A concepção de um caos primordial, de “grande e indigesta matéria”, atingiu profundamente Menocchio. Daí ele extraiu, depois de muito pensar, “as outras coisas [...] sobre o caos [...] da sua própria cabeça”.

Menocchio tentou comunicar essas “coisas” aos seus conterrâneos: “Eu ouvi ele dizer que no princípio este mundo era nada, que a água do mar foi batida como a espuma e se coagulou como o queijo, do qual nasceu uma in nidade de vermes; esses vermes se tornaram homens, dos quais o mais potente e sábio foi Deus e os outros lhe dedicaram obediência...”.

Tratava-se de um testemunho muito indireto, até mesmo de terceira mão: Povoledo estava relatando o que um amigo lhe contara oito dias antes, “caminhando pela rua, indo para o mercado em Pordenone”; e o amigo, por sua vez, lhe tinha repetido o que ouvira de um outro amigo, que havia falado com Menocchio. De fato, Menocchio, no primeiro interrogatório, deu uma versão um pouco diferente: “Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos [...] e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os outros, anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa , naquele mesmo momento ...”. Aparentemente, ao passar de boca em boca, o discurso de Menocchio havia sido simpli cado e distorcido. Uma palavra difícil como “caos” desaparecera, sendo substituída por uma variante mais ortodoxa (“No princípio este mundo era nada”). A sequência queijo-vermes-anjos-santíssima majestade-Deus, o mais potente dos anjos-homens, tinha sido reduzida, durante a trajetória, a outra, queijo-vermes-homens-Deus, o mais potente dos homens.