O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 53 de 62

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O Queijo e os Vermes

54. “Ó magno, onipotente e santo Deus...”

No nal do primeiro interrogatório, Menocchio entregou um papel em que escrevera algo sobre as palavras do Pater noster “et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo”, acrescentando: “E, assim, eu queria pedir a graça de ser libertado das minhas atribulações”.

Depois, antes de ser levado novamente para o cárcere, assinou com as velhas mãos trêmulas.

 

54

Ali estava escrito:

“Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua mãe, Virgem Maria, e de todos os santos do paraíso, eu imploro por socorro e conselho. Ó magno, onipotente e santo Deus, criador do céu e da terra, eu lhe peço, pela sua santíssima bondade e misericórdia in nita, que queira iluminar meu espírito, minha alma e meu corpo para que pense, diga e faça só o que agrade sua divina majestade, e assim seja em nome da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, amém. Eu, Menego Scandella, pobre miserável que caiu em desgraça ante o mundo e meus superiores, arruinando minha casa, minha vida e toda a minha pobre família, não sei mais o que dizer, nem fazer, a não ser dizer estas poucas palavras. Primeiro: Set libera nos a malo et ne nos inducas in tentazionem et demite nobis debita nostra sicut ne nos dimitimus debitoribus nostris , panem nostrum cotidianum da nobis hodie , e assim eu peço ao Nosso Senhor Jesus Cristo e aos meus superiores que por misericórdia queiram dar sua ajuda, com pouco dano por isso. E eu, Menego Scandella, aonde for, pregarei a todos os éis cristãos que observem tudo o que a Santa Madre Igreja católica romana ordena, e seus superiores, isto é, os inquisidores, bispos, vigários, párocos, capelães, curas de suas dioceses e que eles tirem proveito da minha experiência. Eu, Menego, pensava que a morte me livrasse dos meus pavores, que não amolasse mais ninguém, mas fez justamente o contrário, levando-me um lho que era capaz de me livrar de qualquer problema e preocupação; depois me levou a mulher, que era quem cuidava de mim, e os lhos e lhas que me restaram me consideram louco, dizem que eu fui a ruína deles, e essa é a verdade, se eu tivesse morrido há quinze anos, eles estariam livres de problemas com este pobre desgraçado.