O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 57 de 62

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O Queijo e os Vermes

59. Pellegrino Baroni

rosas, prata, ores e esplendor do sol.

 

Esse paraíso (e Scolio sabia muito bem) se parecia com o país da Cocanha.

 

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As semelhanças entre as profecias de Scolio e os discursos de Menocchio são evidentes. Não se explicam, é óbvio, pela presença de fontes comuns — a Divina comédia , o Alcorão —, conhecidas decerto por Scolio e provavelmente também por Menocchio. O elemento decisivo é um estrato comum de tradições, mitos, aspirações, transmitidos oralmente através das gerações. Em ambos os casos, fora o contato com a escrita na escola que zera esse estrato profundo de cultura oral a orar. Menocchio deve ter frequentado uma escola de ábaco; Scolio escrevia sobre si mesmo:

 

Fizeram-me pastor, após aluno,

e depois artesão, e então pastor

de gado numeroso, e logo aluno,

mais tarde artesão e outra vez pastor;

eu aprendi as sete artes mecânicas,

e já pastor e logo aluno fui.

 

“Filósofo, astrólogo e profeta” — era como Menocchio se de nia —; Scolio, como “astrólogo, lósofo e poeta”, além de “profeta dos profetas”. Mas, apesar disso, existem algumas diferenças nítidas. Scolio dá a impressão de estar con nado num ambiente camponês, quase totalmente privado de contatos com a cidade; Menocchio viajou, foi várias vezes a Veneza. Scolio nega qualquer valor aos livros que não sejam os quatro livros sagrados, isto é, o Velho e o Novo Testamento, o Alcorão e o seu Settennario :

 

No obedecer a Deus hás de aprender,

não no estudar ou tampouco no ler.

Todo doutor seja interdito e expulso,

que não possa estudar nem escrever;

leitor, compositor ou impressor,

não escreva mais livro nem o imprima;

que lógico, arguidor ou pregador

só possa discutir ou predicar

os três livros sagrados que disse eu,

e este livro, que é de Deus mais que meu.

 

Menocchio comprara o Fioretto della Bibbia , mas também pedira emprestado o Decameron e as Viagens de Mandeville; a rmara que a Escritura poderia ser resumida em quatro palavras, todavia sentira a necessidade de se apropriar ainda do patrimônio de conhecimentos de seus adversários, os inquisidores. Percebe-se, portanto, no caso de Menocchio, um espírito livre e agressivo, decidido a acertar contas com a cultura das classes dominantes; no caso de Scolio, a posição é mais reservada — esgotando a própria carga polêmica na condenação moralista da cultura urbana, no desejo vago de uma sociedade igualitária e patriarcal. Mesmo desconhecendo os traços do “mundo novo” desejado por Menocchio, cremos que podemos imaginá-lo, ao menos em parte, diverso do representado pela utopia desesperadamente anacrônica de Scolio.

Mais próximo de Menocchio parece estar um outro moleiro, Pellegrino Baroni, conhecido por Pighino, “o gordo”, que vivia numa aldeia dos Alpes modenenses, Savignano sul Panaro. Foi processado em 1570 pelo Santo Ofício de Ferrara, mas nove anos antes fora obrigado a abjurar alguns erros em matéria de fé. Seus concidadãos o consideravam “mau cristão”, “herético”, “luterano”; alguém o de nira como “excêntrico e fraco da cabeça”, ou então até mesmo “acima de tudo [...] um bobalhão”. Na verdade, Pighino era qualquer coisa, menos bobalhão: durante o processo soube manter a discussão com os inquisidores, demonstrando, além de grande força de vontade, uma inteligência sutil e certa astúcia. Porém, não é difícil entender a confusão dos habitantes da aldeia e a indignação do pároco diante dos discursos de Pighino. Ele negava a interferência dos santos, a con ssão, os jejuns prescritos pela Igreja — e até aqui estaríamos no âmbito de um “luteranismo” genético. No entanto, a rmava também que todos os sacramentos, inclusive a eucaristia (aparentemente, o batismo não), haviam sido instituídos pela Igreja e não por Cristo e que mesmo sem eles se poderia alcançar a salvação. Além disso, a rmava que no paraíso “seremos todos iguais, tanto receberá as graças o grande como o pequeno”; que a Virgem Maria “nascera de uma serva”; que “não existia inferno ou purgatório e que eram invenção dos padres e frades para lucrar”; que, “se Cristo tivesse sido homem de bem, não teria sido cruci cado”; que, “morto o corpo, morre a alma”, e que “todas as fés eram boas para quem as observasse corretamente”. Embora tivesse sido torturado várias vezes, Pighino negou de maneira obstinada ter cúmplices, a rmando que suas opiniões eram fruto de uma iluminação recebida durante a leitura dos Evangelhos em língua vulgar — um dos quatro livros que lera. Os outros eram o Saltério, a gramática de Donato e o Fioretto della Bibbia .

O destino de Pighino foi diferente do de Menocchio. Condenado a viver perpetuamente na aldeia de Savignano, dali fugiu para escapar da hostilidade de seus conterrâneos; mas logo em seguida se apresentou ao Santo Ofício de Ferrara, aos seus torturadores, pedindo perdão. Aquelas alturas, era um homem derrotado. O inquisidor, por caridade, acabou arrumando-lhe um cargo de criado do bispo de Modera.

O m dos dois moleiros foi, portanto, diverso, mas as semelhanças entre suas vidas são surpreendentes. Decerto, trata-se de algo mais que uma extraordinária coincidência.

Na Europa pré-industrial, o fraco desenvolvimento das comunicações obrigava mesmo os pequenos centros habitados a ter pelo menos um moinho, de água ou de vento. A pro ssão de moleiro era então uma das mais comuns. A presença maciça de moleiros nas seitas heréticas da Idade Média e mais ainda entre os anabatistas não apresenta, assim, nada de excepcional. Entretanto, quando em meados do século XVI o poeta satírico Andrea da Bergamo a rmou que “um verdadeiro moleiro é meio luterano”, parecia estar fazendo uma alusão mais especí ca.

A hostilidade secular entre camponeses e moleiros consolidara a imagem do moleiro esperto, ladrão, enganador, por de nição destinado às penas do inferno. É um estereótipo amplamente testemunhado pela tradição popular, lendas, provérbios, fábulas, contos. “Fui até o inferno e vi o Anticristo”, diz um canto popular toscano,

 

pela barba um moleiro segurava

e tinha um alemão por sob os pés

e um taverneiro e um magarefe presos :

lhe perguntei qual era o mais malvado

e ele me disse: “Atenta que te mostro.

Vê bem quem é que com as mãos rapina :

o moleiro que mói a alva farinha.

Vê bem quem é que com as mãos agarra :

o moleiro que mói a farinha alva.

Da quarta parte salta a alqueire inteiro :

o mais ladrão de todos é o moleiro.

 

A acusação de heresia casava muito bem com tal estereótipo. Contribuía para alimentá-la o fato de o moinho ser um lugar de encontros, de relações sociais, num mundo predominantemente fechado e estático. Um lugar de troca de ideias, como a taverna e a loja. Com certeza, os camponeses que se amontoavam nas portas do moinho, em “terreno mole e pantanoso, ruim/ de mijo das mulas do lugar” (são palavras do mesmo Andrea da Bergamo), para moer os grãos, deviam falar sobre muitas coisas. E o moleiro dava a sua opinião. Não é difícil imaginar cenas como a que aconteceu certo dia diante do moinho de Pighino. Este, dirigindo-se a um grupo de camponeses, começara a falar sobre “padres e frades” — até um companheiro seu, Domenico de Masa is, voltar e convencer todos a ir embora, dizendo: “Meus lhos, seria bom se vocês deixassem o serviço do Ofício para os padres e frades e não falassem mal deles, e deixassem Pelegrino di Grassi [Pighino] de lado”. As próprias condições de trabalho faziam dos moleiros — analogamente aos taverneiros, comerciantes, artesãos ambulantes — um grupo pro ssional aberto às ideias novas e propenso a difundi-las. Além disso, os moinhos, situados em geral longe das habitações e dos olhares indiscretos, serviam muito bem de abrigo para reuniões clandestinas. O caso de Modena, onde em 1192 a perseguição aos cátaros levou à destruição dos moinhos dos Patarines (molendina paterinorum ), não deve ter sido uma exceção.

Finalmente, a posição social particular dos moleiros tendia a isolá-los da comunidade em que viviam. Já mencionamos a tradicional hostilidade dos camponeses. A ela é preciso acrescentar o vínculo de dependência direta que ligava os moleiros aos feudatários, que durante séculos mantiveram o privilégio da moagem. Não sabemos se esse era também o caso de Montereale: o moinho para bene ciar os tecidos, alugado por Menocchio e seu lho, era, por exemplo, propriedade de

particulares. Entretanto, uma tentativa como a de convencer o senhor do lugar, Giovan Francesco, conde de Montereale, de que “não se sabia qual era a fé verdadeira”, usando como argumento a lenda dos três anéis, fora possível justamente pela atipicidade da gura social de Menocchio. Sua pro ssão de moleiro o distinguia de imediato da multidão anônima de camponeses com os quais Giovan Francesco di Montereale jamais teria sonhado em discutir questões religiosas. Mas Menocchio também era um camponês que trabalhava na terra — “um camponês vestido de branco”, como o descreveu o ex-advogado Alessandro Policreto, que o encontrara rapidamente antes do primeiro processo. Tudo isso talvez nos ajude a compreender a complexa relação existente entre Menocchio e a comunidade de Montereale. Apesar de ninguém ter aprovado suas ideias, com exceção de Melchiorre Gerbas (mas é difícil avaliar as eventuais reticências das testemunhas perante os inquisidores), muito tempo passara, cerca de trinta anos, até que Menocchio fosse denunciado às autoridades religiosas. E quem o denunciara, a nal, fora o pároco da aldeia instigado por outro padre. A despeito de sua singularidade, as a rmações de Menocchio não deviam parecer aos camponeses de Montereale tão estranhas às suas existências, crenças e aspirações.