O Queijo e os Vermes
16. O templo das virgens
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Vamos dar uma série de exemplos, de complexidade crescente, da maneira de ler de Menocchio. No primeiro interrogatório, ele con rmou que Cristo havia sido um homem como os demais, nascido de são José e da Virgem Maria, e explicou que Maria “era chamada de virgem porque estivera no templo das virgens. Existia um templo onde doze virgens eram mantidas e, à medida que eram preparadas, se casavam. Eu li isso no livro Lucidario della Madonna ”. Esse livro, que em outra situação disse ser o Rosario , tem grande probabilidade de ser o Rosario della gloriosa Vergine Maria , do dominicano Alberto da Castello. Nele pudera ler: “Contempla aqui, alma fervorosa, como, depois de oferecer o sacrifício a Deus e ao sacerdote, são Joaquim e sant’Ana deixaram sua dulcíssima lhinha no templo de Deus, onde deveria ser preparada com as outras virgens, que eram oferecidas a Deus. Nesse lugar, ela vivia em contemplação das coisas divinas, em sublime devoção, e era visitada pelos santos anjos, sendo sua rainha e imperatriz, sempre em oração”.
O que fez Menocchio ater-se justamente a essa página do Rosario talvez tenha sido o fato de ter visto tantas vezes as cenas de Maria no templo e de José com os pretendentes, representadas nos afrescos pintados em 1556 por Calderari, um discípulo de Pondenone, nas paredes da igreja de San Rocco de Montereale. De qualquer maneira, mesmo sem deformar as palavras, inverteu os signi cados. No texto, a aparição dos anjos isolava Maria das companheiras, conferindo-lhe uma aura sobrenatural. Para Menocchio o elemento decisivo era, ao contrário, a presença das “outras virgens”, que lhe servia para explicar da forma mais simples o epíteto atribuído tanto a Maria como às outras companheiras. Desse modo, um detalhe acabava se tornando o centro do discurso, alterando, assim, todo o seu sentido.