O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 52 de 62

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O Queijo e os Vermes

53. “Vaidades e sonhos”

“Não sei o que dizer” — respondeu Menocchio.

 

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Na verdade, a distinção entre criador e criatura, e a própria ideia de um Deus criador lhe eram profundamente estranhas. Estava muito claro para ele que suas ideias eram muito diversas das do inquisidor, mas num certo ponto as palavras para exprimir tal diversidade lhe faltavam. Decerto as armadilhas lógicas de frade Gerolamo Asteo não conseguiriam convencê-lo de que estava errado, da mesma maneira que os juízes que o processaram quinze anos antes não conseguiram. Tentou de imediato tomar a dianteira, procurando inverter o mecanismo do interrogatório: “Façam o favor de me escutar, senhores...”. Através da lenda dos três anéis, Menocchio reforçou a doutrina da tolerância, que já formulara no primeiro interrogatório. Ali, porém, a argumentação era religiosa: todas as fés se equivalem (incluídas as heresias), já que “Deus deu o Espírito Santo a todos”. Agora, entretanto, a ênfase era na equivalência entre as várias igrejas como realidades ligadas à vida social. “Senhor, eu acredito sim que cada um ache que a sua fé seja a melhor, mas que não se saiba qual é a correta: mas, porque meu avô, meu pai e os meus são cristãos, eu quero continuar cristão e acreditar que essa seja a melhor fé.” O pedido para permanecer no âmbito das religiões tradicionais era justi cado pela lenda dos três anéis; todavia, é difícil deixar de ver nessas palavras o amargo fruto da experiência vivida por Menocchio após a condenação pelo Santo Ofício. Era melhor simular, melhor aderir na aparência aos ritos tidos pessoalmente como “mercadorias”. Esse recuo obrigava Menocchio a deixar em segundo plano o tema da heresia, da ruptura aberta e consciente com a religião tradicional. Ao mesmo tempo, porém, ele acabava por considerar, muito mais do que no passado, a religião como uma realidade puramente mundana. A rmar que se é cristão apenas por acaso, por tradição, pressupunha um distanciamento crítico bastante grande — o mesmo distanciamento que nesse período levara Montaigne a escrever: “Nous sommes Chrestiens à mesme titre que nous sommes ou Perigordins ou Alemans”. Como vimos, tanto Montaigne como Menocchio, cada um a seu modo, haviam passado pela experiência perturbadora da relativização das crenças e instituições.

A adesão — consciente e não passiva — à religião de seus antepassados era, contudo, somente exterior. Menocchio ia à missa, confessava e comungava, mas dentro de si ruminava velhos e novos pensamentos. Ao inquisidor declarou achar que “era lósofo, astrólogo e profeta”, embora acrescentasse de maneira submissa, se desculpando, que “os profetas também falhavam”. Explicava: “Eu achava que era profeta porque o espírito mau me fazia ter vaidade e sonhos e me convencia de que eu sabia a natureza dos céus e outras coisas semelhantes, e acredito que os profetas falassem o que os anjos lhes ditassem”.

No primeiro processo, como podemos lembrar, Menocchio nunca se referira a revelações sobrenaturais. Agora, entretanto, aludia a experiências místicas, embora confessando-as de forma ambígua — “vaidade”, “sonhos”. Talvez a leitura do Alcorão surtira efeito (o “livro lindíssimo” identi cado pelo judeu convertido Simon), livro que fora ditado pelo arcanjo Gabriel ao profeta Maomé. Talvez no diálogo apócrifo entre o rabino Abdallah ibn Salvam e Maomé, inserido no primeiro capítulo da tradução italiana do Alcorão, ele pensasse ter descoberto a “natureza dos céus”: “Ele disse, continue e me diga por que o céu se chama céu. Ele respondeu, porque ele é criado pela fumaça, fumaça do vapor do mar. Ele disse, de onde vem o verde? Ele respondeu, do monte Caf e o monte Caf o recebeu das esmeraldas do paraíso; e este monte cinge o círculo da terra, sustenta o céu. Perguntou, o céu tem porta? Respondeu, tem portas suspensas. Perguntou, e as portas têm chaves? Respondeu, têm as chaves que são dos tesouros de Deus. Perguntou, do que são feitas as portas? Respondeu, de ouro. Perguntou, você fala a verdade, mas me diga: o nosso céu, como foi criado? Respondeu, o primeiro da água verde, o segundo da água clara, o terceiro de esmeraldas, o quarto de ouro puríssimo, o quinto de jacintos, o sexto de uma reluzente nuvem, o sétimo do esplendor do fogo. Disse, sobre isso você fala a verdade. Mas, acima desses sete céus, o que é que existe? Respondeu, um mar vivaz e sobre ele um mar nebuloso, e assim, seguindo a ordem, um mar aéreo, sobre ele o mar penoso, sobre ele o mar tenebroso, e sobre ele o mar de divertimento, e sobre ele a Lua, sobre ela o Sol e sobre ele o nome de Deus, e sobre ele a suplicação...” e assim sucessivamente.

Trata-se de conjecturas. Não temos provas de que o “livro lindíssimo” do qual Menocchio falara com entusiasmo era de fato o Alcorão; e, mesmo se tivéssemos certeza, não poderíamos reconstruir a leitura feita por Menocchio. Um texto totalmente distante de sua experiência e de sua cultura deveria parecer-lhe indecifrável — e, por isso, induzi-lo a projetar sobre suas páginas pensamentos e fantasias. Mas dessas projeções (se é que existiram) não sabemos nada. E, em geral, sobre essa última fase da vida intelectual de Menocchio conseguimos detectar muito pouco. Ao contrário de quinze anos antes, o medo o levou, pouco a pouco, a renegar quase tudo o que era repetido pelo inquisidor. Porém, mais uma vez, mentia com di culdade; apenas depois de estar “raciocinando muito pouco” é que a rmou nunca ter “duvidado que Cristo era Deus”. Em seguida, caiu em contradição, dizendo que “Cristo não possuía o poder do Pai, já que tinha corpo humano”. “Está uma confusão” — objetaram-lhe. E Menocchio: “Eu não sei o que eu disse; eu sou ignorante”. Humildemente a rmou que, quando dissera que os Evangelhos haviam sido escritos por “padres e frades que estudaram”, estava se referindo aos evangelistas, “os quais acredito que tenham estudado muito”. Procurava dizer tudo o que esperavam que dissesse: “É verdade que os inquisidores e outras autoridades não querem que nós saibamos o que eles sabem, porém é preciso que nos calemos”. Todavia, em certos momentos não conseguia se conter: “Eu não acreditava que o paraíso existisse porque não sabia onde estava”.