O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 33 de 62

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O Queijo e os Vermes

34. A alma

Mas, nesse conjunto de ideias da mais completa coerência, havia uma falha: a alma.

 

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Voltemos à identi cação de Deus com o mundo. “Diz-se”, exclamara Menocchio, “que o homem é formado à imagem e semelhança de Deus, e no homem existe ar, terra, fogo e água, e disso segue que ar, terra, fogo e água são Deus.” A fonte dessa a rmação era o Fioretto della Bibbia . Dali extraíra — mas numa variante decisiva — o antiquíssimo conceito da correspondência entre o homem e o mundo, microcosmo e macrocosmo: “[...] E então o homem e a mulher, que foram os últimos a serem feitos de terra e de matéria básica, subiram aos céus, não com soberba, mas com humildade. A terra é feita de elementos comuns, pisados todos os dias em meio a outros elementos que estão ligados, unidos e cercados como no ovo, onde se vê a gema e ao redor dela a clara e por fora a casca; assim estão os elementos juntos no mundo. A gema seria a terra, a clara o ar, a pele na entre a clara e a casca seria a água, e a casca o fogo. Dessa mesma forma estão juntos o frio e o calor, e o seco com o úmido se temperam. Nossos corpos são feitos e compostos por esses quatro elementos: a carne e os ossos seriam a terra, o sangue a água, a respiração o ar, e o calor o fogo. E por esses quatro elementos nossos corpos são compostos. E o nosso corpo está sujeito às coisas do mundo, mas a alma está sujeita só a Deus, porque ela é feita à imagem dele e composta de matéria mais nobre que a do corpo...”. Foi, portanto, a recusa em admitir um princípio imaterial no homem — a alma —, distinto do corpo e de suas operações, que levara Menocchio a identi car não só o homem com o mundo, mas o mundo com Deus. “Quando o homem morre é como um animal, como uma mosca”, repetia aos conterrâneos, talvez reproduzindo, mais ou menos conscientemente, os versos do Eclesiastes, “e [...] morto o homem, morrem a alma e todas as coisas”.

No início do processo, porém, Menocchio negou que tivesse dito qualquer coisa do gênero. Procurava, sem muito sucesso, ser prudente, como seu velho amigo, o vigário de Polcenigo, lhe recomendara. E, respondendo à pergunta: “O que você pensa sobre as almas dos éis cristãos?”, a rmou: “Eu disse que nossas almas retornam à majestade de Deus, o qual, dependendo do que elas tenham feito, faz o que quiser com elas: às boas indica o paraíso e às más o inferno, e a algumas o purgatório”. Pensou ter encontrado cobertura na doutrina ortodoxa da Igreja (uma doutrina que absolutamente não compartilhava). Na realidade tinha se metido num tremendo vespeiro.