O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 32 de 62

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O Queijo e os Vermes

33. Religião camponesa

Evidentemente, a distância entre as palavras do médico espanhol e as do moleiro friulano é enorme. Por outro lado, sabe-se que, na Itália do século XVI, os escritos de Servet tinham ampla circulação, e não só entre pessoas cultas: talvez as con ssões de Menocchio deem alguma indicação sobre o modo como esses escritos puderam ser lidos, entendidos ou subentendidos. Essa hipótese permitiria resolver o contraste entre os testemunhos dos habitantes de Montereale e os autos do processo. Entre eles existiria não uma contradição, mas uma deliberada diferença de níveis. Nas impetuosas de nições que Menocchio lançava aos concidadãos, seria preciso ver a tentativa consciente de traduzir as abstrusas concepções de Servet, como ele as compreendera, numa forma acessível a interlocutores ignorantes. A exposição da doutrina em toda sua complexidade ele reservava para outros: ao papa, reis, príncipes — ou, na falta de alguém melhor, ao inquisidor de Aquileia e ao magistrado de Portogruaro.

 

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Por trás dos livros que Menocchio ruminava, identi camos um código de leitura e, por trás dele, um estrato sólido de cultura oral que, ao menos no caso da cosmogonia, vimos a orar diretamente. Quando foi lançada a suposição de que uma parte dos discursos de Menocchio era um longínquo re exo de um texto de nível elevadíssimo como o De Trinitatis erroribus , não se quis refazer, em sentido contrário, o caminho já percorrido. Os eventuais re exos seriam de qualquer forma considerados como uma tradução, em termos de materialismo popular (posteriormente simpli cado para os conterrâneos), de uma concepção culta cujo componente materialista era muito forte. Deus, o Espírito Santo, a alma não existem como substâncias separadas: existe somente a matéria impregnada de divindade, a mistura dos quatro elementos. Mais uma vez estamos diante da cultura oral de Menocchio.

O materialismo de Menocchio era religioso. Uma observação como a que fez sobre Deus — “é uma traição da Escritura que o inventou para nos enganar; se fosse Deus, se mostraria” — era simplesmente a negação do Deus do qual padres e livros lhe falavam. O Deus, ele o via em todas as partes: “O que é esse Deus Todo-Poderoso além de água, terra e ar?” — completava em seguida (sempre segundo o testemunho do padre Andrea Bionima). Deus e o homem, o homem e o mundo pareciam-lhe ligados por uma rede de correspondências reveladoras: “Acredito que [os homens] sejam feitos de terra, porém do melhor metal que se possa encontrar, e isso porque se vê que o homem deseja os metais, sobretudo o ouro. São compostos pelos quatro elementos, participam dos sete planetas; entretanto, um participa mais de um planeta que o outro e um é mais mercurial e jovem, dependendo de ter nascido nesse ou naquele planeta”. Nessa imagem perpassada pelo divino justi cam-se até mesmo as bênçãos dos sacerdotes, porque “o demônio costuma entrar nas coisas e ali deixar o veneno” e “a água benta pelo sacerdote põe o diabo para fora” — embora acrescentasse: “Acredito que todas as águas sejam abençoadas por Deus”, e, “se um leigo soubesse as palavras, valeriam tanto quanto as do sacerdote, porque Deus distribuiu a virtude igualmente para todos e não mais a um que a outro”. Tratava-se, resumindo, de uma religião camponesa que tinha muito pouco em comum com a que o pároco pregava do púlpito. É verdade que Menocchio se confessava (fora da sua aldeia, contudo), comungava, e sem dúvida batizara seus lhos. E, apesar disso, negava a criação divina, a encarnação, a redenção; negava a e ciência dos sacramentos no que se refere à salvação; a rmava que amar ao próximo era mais importante do que amar a Deus; acreditava que o mundo inteiro fosse Deus.