O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 46 de 62

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O Queijo e os Vermes

47. Prisão

No Supplementum supplementi delle croniche , de Foresti, Menocchio teve a oportunidade de ler referências passageiras à doutrina de Orígenes e dos maniqueus. Mas considerá-las fundamentos das ideias de Menocchio é, obviamente, exagero. A sentença con rmava o profundo fosso, evidente em todo o processo, que separava a cultura de Menocchio da dos inquisidores.

Estes últimos tinham como obrigação compelir o réu a retornar à Igreja. Menocchio foi condenado a abjurar publicamente todas as suas heresias, a cumprir várias penitências salutares, a vestir para sempre um hábito marcado com a cruz, em sinal de penitência, e a passar no cárcere, à custa dos lhos, o resto da sua vida (“te sententialiter condemnamus ut inter duos parietes immureris, ut ibi semper et toto tempore vitae tuae maneas” — Condenamos-te por sentença deste tribunal a que sejas emparedado, para que aí permaneças sempre e durante todo o tempo de tua vida).

 

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Menocchio permaneceu no cárcere de Concórdia quase dois anos. Em 18 de janeiro de 1586, Ziannuto, seu lho, apresentou, em nome dos irmãos e da mãe, uma súplica ao bispo Matteo Sanudo e ao inquisidor de Aquileia e Concórdia, que era então o frade Evangelista Peleo. A súplica fora escrita pelo próprio Menocchio:

“Embora eu, pobre Domenego Scandella prisioneiro, tenha outras vezes suplicado ao Santo Ofício da Inquisição, se era digno de sua graça, que me permitisse fazer melhor a penitência pelos meus erros, retorno agora, forçado pela extrema necessidade, a implorar-lhes que levem em consideração que já se transcorreram três anos desde que eu deixei minha casa e fui condenado a tão cruel prisão. Eu não sei como não morri pela impureza do ar, impedido de poder ver minha querida mulher por causa da distância, ocupada com a família, com os lhos que por causa de sua pobreza foram obrigados a me abandonar, e então eu necessariamente vou acabar morrendo. Portanto, arrependido e sofrendo por tantos pecados, peço perdão, primeiro ao senhor Deus, em seguida a este Santo Tribunal, e lhes peço a graça de me libertar. Comprometo-me a lhes dar garantias idôneas de viver nos preceitos da Santa Igreja romana como também de fazer as penitências que este Santo Ofício me impuser, e peço a Nosso Senhor toda a felicidade para os senhores.”

Por trás das estereotipadas expressões de humildade, limpas de dialetismos (uso de Chiesa no lugar de Gesia , por exemplo), percebe-se a intervenção de um advogado. Menocchio se expressara de maneira bem diversa, dois anos antes, quando com suas próprias mãos escrevera em sua defesa. Porém, desta vez o bispo e o inquisidor resolveram dar a misericórdia que tinham negado no passado. Antes de mais nada, mandaram chamar o carcereiro Giovan Battista de’ Parvi. Este informou que a prisão onde Menocchio se encontrava era “forte e segura”, trancada por três portas “fortes e seguras”, e não existia “cárcere algum mais forte ou mais rude do que aquele na cidade de Concórdia”. Menocchio só saíra dali para declamar a abjuração, carregando uma vela, diante da porta da catedral da cidade, no dia da sentença e no dia da feira de santo Estêvão, e também para ouvir a missa e comungar (mas, na maioria das vezes, comungava na prisão). Fizera jejum em várias sextas-feiras, “exceto durante o período em que esteve tão gravemente doente que se duvidava que sobrevivesse”. Depois da doença, interrompera os jejuns, “mas muitas vezes, durante outras vigílias, me disse: ‘Amanhã me traga só pão que eu quero fazer vigília e não me traga carne nem outra coisa gorda’”. “Mais de uma vez”, prosseguiu o carcereiro, “me encostei à porta, quieto, para ouvir o que dizia ou fazia e ouvi que rezava.” Outras vezes, Menocchio fora visto lendo um livro que lhe fora trazido por um padre, “o Of cio della Madonna , onde se encontram os sete salmos e outras orações”; além disso, pedira “uma imagem para poder fazer suas orações, e seu lho então a comprou”. Poucos dias antes, dissera que “sempre se dirigia a Deus, reconhecia que sofria por seus pecados e erros e que Deus o ajudara, porque não acreditava que pudesse viver quinze dias sofrendo como sofria na prisão, e, entretanto, tinha aguentado até aquele momento”. Falara com frequência ao carcereiro “daquelas loucuras de antes, dizendo que sabia muito bem que eram loucuras, mas que não se afastara jamais a ponto de crer rmemente nelas, mas, por tentação do diabo, tão extravagantes pensamentos tinham penetrado sua mente”. Em suma, parecia de fato arrependido, mesmo que (observou com prudência o carcereiro) “não se possa conhecer facilmente o coração dos homens; só Deus é que pode”. Então, o bispo e o inquisidor mandaram trazer Menocchio. Chorava, suplicava ajoelhado, pedia humildemente perdão: “Eu estou profundamente arrependido de ter ofendido meu senhor Deus e gostaria de não ter dito as loucuras que disse. Cegado pelo demônio, nem mesmo sabendo o que estava dizendo [...]. Não só não me lamento de ter cumprido a penitência que me foi imposta e de estar na prisão, como me senti em grande júbilo, e Deus me confortava tanto nas orações que fazia a ele, que parecia que eu estava no paraíso”. Se não fosse pela mulher e pelos

lhos, acrescentou juntando as mãos e levantando os olhos para o céu, continuaria na prisão pelo resto de sua vida, a m de expiar as ofensas que zera a Cristo. Mas era “paupérrimo”: com dois moinhos e dois terrenos arrendados, tinha de manter mulher, sete lhos e netos. A prisão, “rude, terrosa, escura e úmida”, lhe arruinara por completo a saúde: “Fiquei quatro meses sem levantar da cama e durante este ano as pernas incharam, e ainda tenho o rosto inchado também, como podem ver, e quase perdi a audição, me tornei fraco e quase fora de mim”. “Et vere”, anotou o escrivão do Santo Ofício, “cum haec dicebat, aspectu et re ipsa videbatur insipiens, et corpore invalidus, et male affectus” (E realmente, enquanto dizia essas palavras, demonstrava na aparência e na própria realidade estar ensandecido, sem forças no corpo e seriamente adoentado).