O Queijo e os Vermes
3. O primeiro interrogatório
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Apesar dos conselhos, demonstrou-se muito loquaz, ainda que procurasse expor sua própria posição sob uma luz mais favorável do que aquela que se depreendia dos testemunhos. Assim, mesmo admitindo ter alimentado dúvidas quanto à virgindade de Maria dois ou três anos antes, e ter falado sobre isso com várias pessoas, entre as quais o padre de Barcis, observou: “É verdade que eu falei disso com várias pessoas, mas não forçava ninguém a acreditar; pelo contrário, convenci muitos dizendo: ‘Vocês querem que eu ensine a estrada verdadeira? Tente fazer o bem, trilhar o caminho dos meus antecessores e seguir o que a Santa Madre Igreja ordena’. Mas aquelas palavras que eu disse antes eu dizia por tentação, porque acreditava nelas e queria ensiná-las aos outros; era o espírito maligno que me fazia acreditar naquelas coisas e ao mesmo tempo me instigava a dizê-las aos outros”. Com tais palavras Menocchio con rmava a suspeita de que ele tivesse desempenhado, na aldeia, o papel de professor de doutrina e de comportamento (“Vocês querem que eu ensine a estrada verdadeira?”). Quanto ao conteúdo heterodoxo desse tipo de prédica, não é possível ter dúvidas — principalmente no momento em que Menocchio expôs sua singularíssima cosmogonia, da qual o Santo Ofício já ouvira comentários confusos: “Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento, e foi feito senhor com quatro capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e Rafael. O tal Lúcifer quis se fazer de senhor, se comparando ao rei, que era a majestade de Deus, e por causa dessa soberba Deus ordenou que fosse mandado embora do céu com todos os seus seguidores e companhia. Esse Deus, depois, fez Adão e Eva e o povo em enorme quantidade para encher os lugares dos anjos expulsos. O povo não cumpria os mandamentos de Deus e ele mandou seu lho, que foi preso e cruci cado pelos judeus”. E acrescentou: “Eu nunca disse que ele se deixara abater feito um animal” (foi uma das acusações feitas contra ele; em seguida admitiu que talvez pudesse ter dito qualquer coisa do gênero). “Eu disse bem claro que se deixou cruci car e esse que foi cruci cado era um dos lhos de Deus, porque todos somos lhos de Deus, da mesma natureza daquele que foi cruci cado. Era homem como nós, mas com uma dignidade maior, como o papa hoje, que é homem como nós, mas com maior dignidade do que nós porque pode fazer. Aquele que foi cruci cado nasceu de são José e da Virgem Maria.”