O Queijo e os Vermes
5. De Concórdia a Portogruaro
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Vamos deixar de lado, provisoriamente, a cosmogonia de Menocchio para acompanharmos o desenrolar do processo. Logo após seu encarceramento, um de seus lhos, Ziannuto, tentara socorrê-lo de várias maneiras: procurou um advogado, um tal de Trappola, de Portogruaro; esteve em Serravalle para falar com o inquisidor; obteve da prefeitura de Montereale uma declaração a favor do prisioneiro que foi enviada ao advogado, com a perspectiva, em caso de necessidade, de conseguir outros atestados de boa conduta: “Se for necessária a comprovação da prefeitura de Montereale de que o prisioneiro se confessava e comungava todo ano, o padre a dará; se for necessária a comprovação de ter sido magistrado e administrador de cinco vilas, será dada; ter sido administrador da paróquia de Montereale e ter feito sua obrigação com louvor, será dada; ter sido coletor de dízimos da igreja da paróquia de Montereale, será dada... ”. Além disso, com os irmãos, induziu por meio de ameaças o pároco de Montereale — a seus olhos, o principal responsável por todo o acontecido — a escrever uma carta para Menocchio, que se encontrava nos cárceres do Santo Ofício. Nela sugeria-lhe que prometesse “total obediência à Santa Igreja; dizendo que não acreditava e nunca acreditara em nada que não fossem os mandamentos de Deus e da Igreja e que pretendia viver e morrer na fé cristã, dentro do que a Santa Igreja romana, católica e apostólica ordena; ou melhor (sendo necessário), pretendia perder a vida e outras mil se houvesse pelo amor de Deus e da santa fé cristã, sabendo que devia a vida e todas as outras coisas boas à Santa Madre Igreja... ”. Aparentemente Menocchio não reconheceu por trás dessas palavras a mão do seu inimigo, o pároco; atribuiu-as a Domenego Femenussa, um mercador de lã e madeira que aparecia sempre no moinho e de vez em quando lhe emprestava dinheiro. No entanto, seguir as sugestões da carta sem dúvida nenhuma lhe pesava muito. No nal do primeiro interrogatório (7 de fevereiro) exclamou com evidente relutância, dirigindo-se ao vigário-geral: “Senhor, o que eu disse por inspiração de Deus ou do demônio não con rmo nem desminto, mas lhe peço misericórdia e farei o que me for ensinado”. Pedia perdão, todavia não renegava nada. Durante quatro longos interrogatórios (7, 16, 22 de fevereiro e 8 de março) ele se manteve rme diante das objeções do vigário, negou, fez
comentários, rebateu. “Consta no processo”, disse-lhe o vigário Maro, “que teria dito não acreditar no papa, nem nas regras da Igreja, e que não sabia de onde saía tamanha autoridade de alguém como o papa.” Menocchio retrucou: “Eu peço a Deus onipotente que me faça morrer agora se eu disse isso que Vossa Senhoria a rmou”. Mas era verdade que dissera que as missas para os mortos eram inúteis? (Segundo Giuliano Stefanut, as palavras pronunciadas por Menocchio num dia em que voltavam da missa foram: “Por que é que vocês dão essas esmolas em memória daquelas poucas cinzas?”.) “Eu disse”, explicou Menocchio, “que é preciso tentar fazer todo o bem até quando se está neste mundo, porque depois é o senhor Deus quem governa as almas. As orações, esmolas e missas para os mortos são feitas, eu acho, por amor a Deus, o qual faz o que bem entender. As almas não vêm pegar as orações e as esmolas. Fica à majestade de Deus receber essas boas obras em benefício dos vivos ou dos mortos.” Ele imaginava que essa fosse uma hábil explanação, mas de fato contradizia a doutrina da Igreja em relação ao purgatório. “Tente falar pouco” — havia sido o conselho do vigário de Polcenigo, que era seu amigo e o conhecia desde a infância. Porém Menocchio, evidentemente, não conseguia se controlar.
De repente, por volta do m de abril, veri cou-se um fato novo. Os priores venezianos convidaram o inquisidor de Aquileia e Concórdia, frei Felice da Montefalco, a agir de acordo com os hábitos vigentes nos territórios da República, que impunham, nas causas do Santo Ofício, a presença de um magistrado secular ao lado dos juízes eclesiásticos. O con ito entre os dois poderes era tradicional. Não sabemos se nessa ocasião houve também a intervenção do advogado Trappola a favor do seu cliente. O fato é que Menocchio foi levado ao palácio do magistrado, em Portogruaro, com a nalidade de con rmar na sua presença os interrogatórios concluídos até aquele momento. Depois disso, o processo recomeçou.
Por mais de uma vez, no passado, Menocchio tinha dito aos conterrâneos estar pronto e mesmo desejoso de declarar suas “opiniões” sobre a fé às autoridades religiosas e seculares. “Disse para mim”, comentou Francesco Fasseta, “que, se ele caísse nas mãos da justiça por isso, iria paci camente, mas, se fosse maltratado, teria muito o que falar contra os superiores sobre as más obras destes.” Acrescentou Daniele Fasseta: “Domenego disse que, se ele não temesse pela própria vida, falaria tanto que surpreenderia a todos. Eu acho que queria falar sobre a fé”. Na presença do magistrado de Portogruaro e do inquisidor de Aquileia e Concórdia, Menocchio con rmou o testemunho: “É verdade, eu disse que, se não tivesse medo da justiça, falaria tanto que iria surpreender; e disse que, se me fosse permitida a graça de falar diante do papa, de um rei ou príncipe que me ouvisse, diria muitas coisas e, se depois me matassem, não me incomodaria”. Então incentivaram-no a falar: Menocchio abandonou qualquer reticência. Era dia 28 de abril.
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