O Queijo e os Vermes
6. “Falar muito contra os superiores”
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Começou denunciando a opressão dos ricos contra os pobres através do uso de uma língua incompreensível como o latim nos tribunais: “Na minha opinião, falar latim é uma traição aos pobres. Nas discussões os homens pobres não sabem o que se está dizendo e são enganados. Se quiserem dizer quatro palavras, têm que ter um advogado”. Mas esse era só um exemplo de uma exploração geral, da qual a Igreja era cúmplice e participante: “E me parece que na nossa lei o papa, os cardeais, os padres são tão grandes e ricos, que tudo pertence à Igreja e aos padres. Eles arruínam os pobres. Se têm dois campos arrendados, esses são da Igreja, de tal bispo ou de tal cardeal”. É bom lembrar que Menocchio possuía dois campos arrendados, cujo proprietário ignoramos; quanto ao seu latim, aparentemente se restringia ao Credo e ao Pater noster , que aprendera ajudando na missa, e que Ziannuto, seu lho, fora atrás de um advogado logo que o Santo Ofício o colocara na prisão. Porém, essas coincidências, ou possíveis coincidências, não nos devem levar a pistas falsas: o discurso de Menocchio, embora partisse do seu caso pessoal, acabava por abarcar um âmbito muito mais vasto. A exigência de uma Igreja que abandonasse seus privilégios, que se zesse pobre com os pobres, ligava-se à formulação, na esteira dos Evangelhos, de um conceito diferente de religião, livre de exigências dogmáticas, resumível a um núcleo de preceitos práticos: “Gostaria que se acreditasse na majestade de Deus, que fôssemos homens de bem e que se zesse como Jesus Cristo recomendou, respondendo àqueles judeus que lhe perguntaram que lei se deveria seguir. Ele respondeu: ‘Amar a Deus e ao próximo’.” Uma tal religião simpli cada não admitia, para Menocchio, limitações confessionais. Contudo, a apaixonada exaltação da equivalência de todas as fés, com base na iluminação concedida, em igual medida, a todos os homens — “A majestade de Deus distribuiu o Espírito Santo para todos: cristãos, heréticos, turcos, judeus, tem a mesma consideração por todos, e de algum modo todos se salvarão” —, acabou numa explosão violenta contra os juízes e sua soberba doutrinal: “E vocês, padres e frades, querem saber mais do que Deus; são como o demônio, querem passar por deuses na terra, saber tanto quanto Deus da mesma maneira que o demônio. Quem pensa que sabe muito é quem nada sabe”. E, abandonando toda reserva, toda prudência, Menocchio declarou recusar todos os sacramentos, inclusive o batismo, por serem invenções dos homens, “mercadorias”, instrumentos de exploração e opressão por parte do clero: “Acho que a lei e os mandamentos da Igreja são só mercadorias e que se deve viver acima disso”. Sobre o batismo comentou: “Acho que, quando nascemos, já estamos batizados, porque Deus, que abençoa todas as coisas, já nos batizou. O batismo é uma invenção dos padres, que começam a nos comer a alma antes do nascimento e vão continuar comendo-a até depois da morte”. Sobre a crisma: “Acho que é uma mercadoria, invenção dos homens; todos os homens têm o Espírito Santo e buscam saber tudo e não sabem nada”. Sobre o casamento: “Não foi feito por Deus, mas sim pelos homens; antes, homens e mulheres faziam troca de promessas e isso era su ciente; depois apareceram essas invenções dos homens”. Sobre a ordenação: “Acho que o Espírito Santo está em todo mundo, [...] e acho que qualquer um que tenha estudado pode ser sacerdote, sem ter que ser sagrado, porque tudo isso é mercadoria”. Sobre a extrema-unção: “Acho que não é nada, não vale nada, porque se unge o corpo, mas o espírito não pode ser ungido”. Geralmente se referia à con ssão dizendo: “Ir se confessar com padres ou frades é a mesma coisa que falar com uma árvore”. Quando o inquisidor lhe repetiu essas palavras, explicou, com uma pontinha de autossu ciência: “Se esta árvore conhecesse a penitência, daria no mesmo; alguns homens procuram os padres porque não sabem que penitências devem ser feitas para seus pecados, esperando que os padres as ensinem, mas, se eles soubessem, não teriam necessidade de procurá-los”. Estes últimos deveriam se confessar “à majestade de Deus em seus corações e pedir-lhe perdão pelos seus pecados”.
Somente o sacramento do altar escapava às críticas de Menocchio — mas era reinterpretado de maneira heterodoxa. As frases referidas pelos testemunhos soavam, na verdade, como blasfêmias ou negações depreciativas. Quando procurou o vigário de Polcenigo, num dia de distribuição de hóstias, Menocchio exclamou: “Pela Virgem Maria, são muito grandes essas bestas!”. Numa outra vez, discutindo com o padre Andrea Bionima, disse: “Não vejo ali nada mais que um pedaço de massa. Como é que pode ser Deus? E o que é esse tal Deus a não ser terra, água e ar?”. Mas ao vigário-geral explicou: “Eu disse que aquela hóstia é um pedaço de massa, mas que o Espírito Santo vem do céu e está nela. Eu realmente acredito nisso”. O vigário perguntou incrédulo: “O que você acha que seja o Espírito Santo?”. Menocchio respondeu: “Acho que é Deus”. Mas sabia quantas eram as pessoas da Trindade? “Sim, senhor: Pai, Filho e Espírito Santo.” “Em qual dessas três pessoas você acha que a hóstia se converte?” “Acho que no Espírito Santo.” Semelhante ignorância parecia inacreditável para o vigário: “Quando o pároco fez os sermões sobre o santíssimo sacramento, quem ele disse que estava naquela hóstia?”. Porém, não se tratava de ignorância: “Disse que era o corpo de Cristo, embora eu achasse que era o Espírito Santo, e isso porque acho que o Espírito Santo é maior que Cristo, que era homem, enquanto o Espírito Santo veio pelas mãos de Deus...”. “Disse [...] embora eu achasse”: apenas lhe era apresentada a ocasião, Menocchio con rmava quase com insolência a própria independência de julgamento, o direito de ter uma posição autônoma. E acrescentou para o inquisidor: “O bom do sacramento é quando alguém se confessa e vai comungar; então está com o Espírito Santo, e o Espírito Santo está alegre [...]; quanto ao sacramento da eucaristia, é uma coisa feita para controlar os homens, inventada pelos homens graças ao Espírito Santo; a celebração da missa é uma criação do Espírito Santo, assim como adorar a hóstia para que os homens não sejam como animais”. A missa e o sacramento do altar eram, portanto, justi cados de um ponto de vista quase político, como meio de civilidade — todavia, numa frase que lembrava involuntariamente, com signo invertido, o que tinha dito ao vigário de Polcenigo (“hóstias [...] bestas”).
Mas qual era o fundamento dessa crítica radical aos sacramentos? Com certeza não as Escrituras, que estas Menocchio submetia a um exame sem preconceitos, reduzindo-as a “quatro palavras” que constituíam sua essência: “Acho que a Sagrada Escritura tenha sido dada por Deus, mas, em seguida, foi adaptada pelos homens. Bastariam só quatro palavras para a Sagrada Escritura, mas é como os livros de batalha, que vão crescendo”. Para Menocchio, os Evangelhos, com suas discordâncias, estavam também distantes da simplicidade e brevidade da palavra de Deus: “A respeito das coisas dos Evangelhos, acho que parte delas é verdadeira e, noutra parte, os evangelistas puseram coisas da cabeça deles, como se pode ver nas passagens onde um conta de um modo e outro de outro”. Assim podemos entender por que Menocchio dissera aos seus conterrâneos (e con rmara durante o processo) “que a Sagrada Escritura fora inventada para enganar os homens”. Então temos: negação da doutrina, negação dos livros sagrados, insistência exclusiva no aspecto prático da religião: “Ele [Menocchio] me disse também só acreditar nas boas obras” — declarara Francesco Fasseta. Numa outra vez, sempre se dirigindo ao mesmo Francesco, dissera: “Eu só quero fazer obras boas”. Nesse sentido, a santidade parecia a ele um modelo de vida, de comportamento prático, nada mais: “Eu acho que os santos foram homens de bem, zeram boas obras e por isso o Senhor Deus os fez santos e eles oram por nós”. Não é preciso venerar suas relíquias ou imagens: “Quanto às relíquias dos santos, são como qualquer braço, cabeça, mão ou perna, acho que são iguais aos nossos braços, cabeças, pernas e não devem ser adoradas ou reverenciadas [...]. Não se devem adorar as imagens, e sim Deus, só Deus, que fez o céu e a terra; vocês não veem”, exclamou Menocchio para os juízes, “que Abraão jogou todos os ídolos e imagens no chão, e adorou só a Deus?”. Cristo também teria dado aos homens, através da sua paixão, um modelo de comportamento: “Ele ajudou [...] a nós, cristãos, sendo um espelho para nós, e assim como ele foi paciente e sofreu por nos amar, que nós morramos e soframos por amor a ele. Não devemos nos maravilhar porque morremos, já que Deus quis que seu lho morresse”. Porém, Cristo era só um homem, e todos os homens são lhos de Deus, “da mesma natureza daquele que foi cruci cado”. Em consequência, Menocchio se recusava a acreditar que Cristo tivesse morrido para redimir a humanidade: “Se alguém tem pecados, é preciso que faça penitência”.
A maior parte dessas a rmações foi feita por Menocchio durante um único e longuíssimo interrogatório. “Falaria tanto que surpreenderia” — tinha prometido aos conterrâneos, e com certeza o inquisidor, o vigário-geral, o magistrado de Portogruaro devem ter cado atônitos diante de um moleiro que, com tanta segurança e agressividade, expunha suas próprias ideias. Sobre a originalidade dessas ideias Menocchio estava absolutamente convencido: “Nunca discuti com alguém que fosse herético”, replicou a uma pergunta precisa dos juízes, “mas tenho cabeça sutil, quis procurar as coisas maiores que não conhecia. O que eu disse não creio que seja a verdade, mas quero ser obediente à Santa Igreja. Tive opiniões enganosas, mas o Espírito Santo me iluminou e peço a misericórdia do magno Deus, do Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo, e que ele me faça morrer se não estou dizendo a verdade”. En m decidira seguir o caminho que o lho aconselhara, mas antes quisera, como já vinha se prometendo havia tanto tempo, “falar muito contra os superiores por suas más obras”. É claro que sabia o risco que corria. Antes de ser reconduzido ao cárcere, implorou a piedade dos inquisidores: “Senhores, eu vos peço em nome da paixão do Senhor Jesus Cristo que resolvam sobre o meu caso e, se mereço a morte, que me seja dada, mas, se mereço misericórdia, que me concedam, porque quero viver como bom cristão”. No entanto, o processo estava longe de ter terminado.
Alguns dias depois (1 o de maio), os interrogatórios foram
retomados: o interventor precisara se afastar de Portogruaro, mas os juízes estavam impacientes para ouvir Menocchio novamente. “Na sessão anterior”, falou o inquisidor, “lhe dissemos que seu espírito aparecia no processo cheio de certos humores e de má doutrina, mas o Santo Tribunal deseja que o senhor termine de revelar seu pensamento.” Menocchio respondeu: “Meu espírito era elevado e desejava que existisse um mundo novo e um novo modo de viver, pois a Igreja não vai bem e não deveria ter tanta pompa”.