O Queijo e os Vermes
27. Queijos místicos e queijos reais
MENOCCHIO: Deus e os anjos são da mesma essência do caos, mas diferentes em perfeição, porque a substância de Deus é mais perfeita e não é a mesma do Espírito Santo, sendo Deus a luz mais perfeita; o mesmo digo de Cristo, que é de substância inferior à de Deus e à do Espírito Santo.
INQUISIDOR: O Espírito Santo é tão poderoso quanto Deus? E Cristo também é tão poderoso quanto Deus e o Espírito Santo?
MENOCCHIO: O Espírito Santo não é tão poderoso quanto Deus e nem Cristo é tão poderoso quanto Deus e o Espírito Santo.
INQUISIDOR: Aquele que o senhor chama de Deus foi feito, produzido por alguém?
MENOCCHIO: Não foi produzido por outros, mas recebe seu movimento das mudanças do caos e vai da imperfeição à perfeição.
INQUISIDOR: E o caos, quem o move?
MENOCCHIO: Ele se move sozinho.
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Assim, na sua linguagem densa, recheada de metáforas ligadas ao cotidiano, Menocchio explicava sua cosmogonia tranquilamente, com segurança, aos inquisidores estupefatos e curiosos (caso contrário, por que teriam conduzido um interrogatório tão detalhado?). Apesar da grande variedade de termos teológicos, um ponto permanecia constante: a recusa em atribuir à divindade a criação do mundo — e, ao mesmo tempo, a obstinada rea rmação do elemento aparentemente muito bizarro: o queijo, os vermes-anjos nascidos do queijo.
Talvez seja possível detectar aqui um eco da Divina comédia (“Purgatório”, X, 124-25):
... vermes
nascidos para formar angélica borboleta,
sobretudo porque o comentário de Vellutello sobre esses versos (“Angélica , isto é , divina , tendo sido criada por Deus para preencher os lugares que os anjos negros perderam , expulsos do céu ”) está reproduzido literalmente numa outra passagem da cosmogonia de Menocchio: “E esse Deus fez depois Adão e Eva e o povo em multidão para preencher os lugares dos anjos expulsos ”. Seria muito estranho que a convergência de duas coincidências numa única página fosse obra do acaso. Mas, se Menocchio tivesse lido Dante — talvez para conhecer um mestre em verdades religiosas e morais —, por que justamente aqueles versos (“[...] vermes/ nascidos para formar angélica borboleta”) caram gravados em sua mente?
Na verdade, Menocchio não havia retirado sua cosmogonia dos livros. “Foram produzidos pela natureza [os anjos], a partir da mais perfeita substância do mundo, assim como os vermes nascem do queijo, e quando apareceram receberam vontade, intelecto e memória de Deus, que os abençoou”: parece claro pela resposta de Menocchio que a insistente remissão ao queijo e aos vermes tinha uma função puramente analógico-explicativa. A experiência cotidiana do surgimento de vermes do queijo putrefato servia para Menocchio explicar o nascimento dos seres viventes — os primeiros, os mais perfeitos, foram os anjos — do caos, da matéria “grande e indigesta”, sem recorrer à intervenção de Deus . O caos precede a “santíssima majestade”, que não é melhor de nida; do caos nasceram os primeiros seres viventes — os anjos e mesmo Deus, que era o maior de todos — por geração espontânea, “produzidos pela natureza”. A cosmogonia de Menocchio era substancialmente materialista e tendencialmente cientí ca. A doutrina da geração espontânea da vida a partir do inanimado, compartilhada por todos os intelectuais do tempo (e continuaria sendo até os experimentos de Francesco Redi, mais de um século depois), era, de fato, mais cientí ca que a doutrina da Igreja no que concerne à criação, baseada no Gênese. Walter Raleigh, em nome de “experiências sem arte”, pôde relacionar a mulher que faz o queijo (queijo!) e o lósofo natural: ambos sabem que o coalho faz coagular o leite na batedeira, mesmo não sabendo explicar por quê.
Porém, não é através das experiências cotidianas de Menocchio que obteremos todas as explicações; talvez, melhor dizendo, elas não expliquem nada. A analogia entre a coagulação do queijo e a condensação da nebulosa destinada a formar o globo terrestre pode parecer óbvia para nós, mas com certeza não era para Menocchio. E não apenas isso. Sugerindo essa analogia, ele estava reproduzindo, sem saber, mitos antiquíssimos, remotos. Num mito indiano, mencionado já nos Veda , a origem do cosmo é explicada pela coagulação — semelhante à do leite — das águas do mar primordial, batidas pelos deuses criadores. Segundo os calmucos, no início dos tempos, as águas do mar se cobriram de uma camada sólida, como a que se forma sobre o leite, de onde saíram plantas, animais, homens e deuses. “No princípio este mundo era nada, e [...] a água do mar foi batida como a espuma e se coagulou como o queijo, do qual nasceu uma in nidade de vermes; esses vermes se tornaram homens, dos quais o mais potente e sábio foi Deus”: foram mais ou menos essas (salvo as simpli cações já citadas) as palavras ditas por Menocchio.
É uma coincidência espantosa — digamos até mesmo inquietante — para quem não possui explicações prontas e inaceitáveis, como a existência de um inconsciente coletivo, ou simples demais, como o acaso. Decerto, Menocchio falava de um queijo bem real, nada mítico, o queijo que vira ser feito (ou que talvez ele próprio tivesse feito) inúmeras vezes. Os pastores do Altai, entretanto, haviam traduzido a mesma experiência num mito cosmogônico. Apesar da diversidade, que não deve ser subestimada, a coincidência permanece. Não se pode excluir o fato de que ela constitua uma das provas, fragmentária e em parte extinta, da existência de uma tradição cosmológica que, ultrapassando as diferenças de linguagem, combina mito e ciência. É curioso que a metáfora do queijo que gira reapareça um século depois do processo de Menocchio num livro (destinado a criar grandes polêmicas) em que o teólogo inglês Thomas Burnet procurava aproximar a Escritura da ciência do seu tempo. Pode ser que se tratasse de um re exo, talvez inconsciente, da antiga cosmogonia indiana à qual Burnet dedicava algumas páginas de sua obra. Mas no caso de Menocchio é impossível não pensar em transmissão direta — transmissão oral, de geração para geração. Essa hipótese parece menos improvável se pensarmos na difusão — durante os mesmos anos e justamente no Friuli — de um culto de base xamanista como o dos benandanti . A cosmogonia de Menocchio se localiza nesse terreno, ainda quase inexplorado, de relações e migrações culturais.