O Queijo e os Vermes
13. Leitores da aldeia
tamanho variável);
6. Il cavallier Zuanne de Mandavilla (tradução italiana,
reimpressa muitas vezes até o nal do século XVI , do famoso
livro de viagem, escrito em meados do século XIV e atribuído a
um fantasmagórico sir John Mandeville);
7. “um livro que se chamava Zampollo ” (na verdade, Il sogno dil
Caravia , impresso em Veneza em 1541).
A esses títulos devemos acrescentar os citados durante o segundo processo:
8. Il Supplimento delle cronache (trata-se da tradução em vulgar da
crônica escrita em ns do século XV pelo ermitão bergamasco
Jacopo Filippo Foresti, várias vezes reimpressa, com
atualizações até o nal do século XVI, que saía com o título
Supplementum supplementi delle croniche ...);
9. Lunario al modo di Italia calculato composto nella città di Pesaro
dal ec c mo dottore Marino Camilo de Leonardis (também do
Lunario são conhecidas inúmeras reimpressões);
10. Decameron , de Boccaccio, em edição não censurada;
11. um livro sem maiores identi cações que um dos
testemunhos, como vimos, supôs ser o Alcorão (em 1547, sai
em Veneza uma tradução italiana).
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Vejamos antes de mais nada de que modo esses livros chegaram às mãos de Menocchio. O único que sabemos com certeza ter sido comprado é o Fioretto della Bibbia , “o qual”, disse Menocchio, “comprei em Veneza por dois soldos”. Dos outros três — Historia del Giudicio , Lunario e o suposto Alcorão — não se tem indicação alguma. O Supplementum , de Foresti, foi um presente de Tomaso Mero da Malmins para Menocchio. Os outros todos — e eram seis entre onze, mais da metade — foram emprestados. Numa aldeia tão pequena como Montereale, tais dados são signi cativos e apontam para uma rede de leitores que superam o obstáculo dos recursos nanceiros exíguos, passando os livros de mão em mão. Por exemplo, uma mulher, Anna de Cecho, foi quem emprestou o Lucidario (ou Rosario ) della Madonna para Menocchio, durante seu exílio em Arba, em 1564. O lho dela, Giorgio Capel, chamado para testemunhar (a mãe havia morrido), declarou que possuía um livro com o título La vita de santi ; outros lhe tinham sido con scados pelo pároco de Arba, que devolvera apenas dois ou três, a rmando que os demais “estão querendo queimar” (os inquisidores, é claro). A Bíblia e o Legendario de santi foi seu tio, Domenico Gerbas, quem lhe emprestou. O último “se molhou e acabou se desfazendo”; a Bíblia foi parar nas mãos de Bastian Scandella. Por várias vezes Menocchio a teve em mãos, emprestada por seu primo. Seis ou sete meses antes do processo, porém, a mulher de Bastian, Fior, fora buscar a tal Bíblia e a queimou num forno; “mas foi uma pena ter queimado aquele livro” — exclamou Menocchio. O Mandavilla fora um empréstimo de cinco ou seis anos antes do padre Andrea Bionima, capelão de Montereale, que encontrara o livro por acaso em Maniago, remexendo em “alguns documentos notariais”. (Bionima, entretanto, a rmou prudentemente que não fora ele quem emprestara o livro a Menocchio, e sim Vincenzo Lombardo, que, sabendo “ler um pouco”, devia ter pego o tal livro em sua casa.) O Sogno dil Caravia foi emprestado a Menocchio por Nicola da Porcia — que talvez, como já dissemos, possa ser identi cado com Nicola de Melchiori, de quem obtivera, através de Lunardo della Minussa de Montereale, o Decameron . Quanto ao Fioretto , Menocchio, por sua vez, emprestara-o a um jovem de Barcis, Tita Coradina, que tinha lido (disse ele) só uma página — o pároco lhe dissera que se tratava de um livro proibido e ele o queimara.
Uma larga rede de circulação que envolve não só padres (como seria previsível), mas até mesmo mulheres. Sabe-se que em Udine, desde o início do século XVI, havia sido aberta uma escola, sob a orientação de Gerolamo Amaseo, “para ler e ensinar, sem exceção, lhos de cidadãos assim como de artesãos e populares, grandes ou pequenos, sem nenhum tipo de pagamento”. Existiam, além dessas, escolas de nível elementar em centros não muito distantes de Montereale, como Aviano e Pordenone. Surpreende, entretanto, que numa aldeia tão pequena de colina se lesse tanto. Infelizmente, são poucas as indicações que nos permitem precisar a posição social desses leitores. Já falamos sobre Nicola da Porcia; Bastian Scandella, primo de Menocchio, gura no já mencionado censo de 1596 como detentor (não sabemos em quais condições) de numerosos terrenos. No mesmo ano foi magistrado em Montereale. Porém, os outros se reduzem quase só a nomes. Fica claro, apesar disso, que para essas pessoas o livro fazia parte da experiência comum: era um objeto de uso, tratado sem muitos cuidados, exposto ao risco de se molhar e se desfazer. É signi cativa, contudo, a reação escandalizada de Menocchio a respeito da Bíblia que acabou no forno, evidentemente para livrá-la de uma eventual revista do Santo Ofício: apesar da comparação irônica com “os livros de batalha, que crescem”, a Escritura lhe parecia um livro diferente dos demais porque continha um núcleo dado por Deus.