O Queijo e os Vermes
55. “Se eu tivesse morrido há quinze anos”
E se eu tive algum pensamento, ou disse qualquer palavra em vão, nunca acreditei nisso e nem z nada contra a Santa Igreja, porque o Senhor Deus me fez ver que tudo aquilo que eu pensava ou dizia era vaidade, não sabedoria.
E assim eu creio que seja a verdade, e não quero pensar nem acreditar a não ser no que a Santa Igreja acredita e fazer o que me ordenarem os padres e meus superiores.”
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No pé da página desse “escrito”, o pároco de Montereale, Giovan Daniele Melchiori, zera algumas anotações a pedido do próprio Menocchio, datadas de 22 de janeiro de 1597. Declarava-se que, “se o interior puder ser julgado pelo exterior”, Menocchio levava uma vida de “cristão e ortodoxo”. Tal cautela, como sabemos (e como talvez soubesse o pároco também), era mais que oportuna. Mas a vontade de submissão expressa no “escrito” era com certeza sincera. Evitado pelos lhos, que o consideravam um peso, uma desonra para a aldeia, uma ruína para a família, Menocchio procurava com afã ser reintegrado à Igreja que por uma vez já o afastara, marcando-o visivelmente como réprobo. Por isso, fazia o patético gesto de reverência aos “superiores”: “inquisidores” (em primeiro lugar, o que é compreensível) e depois “bispos, vigários, párocos, capelães, curas”. Um ato de reverência inútil, em certo sentido, porque, no momento em que fora escrito, as investigações do Santo Ofício ainda não haviam recomeçado. Porém, o impulso irrefreável de “procurar as coisas grandes” atormentava Menocchio, deixava-o “confuso”, fazia que se sentisse culpado e como alguém “que caiu em desgraça ante o mundo”. Agora invocava desesperadamente a morte. Mas a morte se esquecera dele: “[...] fez justamente o contrário, levando-me um lho [...]; depois me levou a mulher”. Então se amaldiçoava: “[...] se eu tivesse morrido há quinze anos” — quando, para desgraça sua e de seus lhos, começaram os problemas com o Santo Ofício.