O Queijo e os Vermes
62. Cartas de Roma
Esse renovado esforço de obter hegemonia assumiu formas diversas nas várias partes da Europa; mas a evangelização do campo por obra dos jesuítas e a organização religiosa capilar baseada na família, executada pelas igrejas protestantes, podem ser agrupadas numa mesma tendência. A ela correspondem, em termos de repressão, a intensi cação dos processos contra a bruxaria e o rígido controle dos grupos marginais, assim como dos vagabundos e ciganos. O caso de Menocchio se insere nesse quadro de repressão e extinção da cultura popular.
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Apesar da conclusão do processo, o caso Menocchio ainda não estava encerrado; num certo sentido, a parte mais extraordinária começava justamente agora. Vendo que os depoimentos contra Menocchio, pela segunda vez, se acumulavam, o inquisidor de Aquileia e Concórdia escrevera para a congregação do Santo Ofício, em Roma, a m de informá-la do que acontecia. Em 5 de junho de 1599, uma das maiores autoridades da congregação, o cardeal de Santa Severina, respondeu, insistindo em que se chegasse o mais rápido possível à prisão “daquele tal da diocese de Concórdia que negara a divindade de Cristo Senhor Nosso”, “por ser seu caso extremamente grave, desde que já havia sido condenado por heresia”. Ordenava também que fossem con scados seus livros e seus “escritos” — não sabemos de que natureza. Visto o interesse de Roma pelo caso, o inquisidor friulano enviou a cópia de três denúncias contra Menocchio. Em 14 de agosto chegou uma nova carta do cardeal de Santa Severina: “Este relapso [...] revela-se, examinando a documentação, ele próprio um ateu” e, assim, é preciso proceder “com os últimos recursos da justiça, para também encontrar os cúmplices”; o caso é “gravíssimo”, portanto “Vossa Reverendíssima mande cópia do processo ou ao menos um sumário”. Um mês depois, chegou a Roma a notícia de que Menocchio fora condenado à morte, mas que a sentença ainda não fora executada. Talvez por um impulso tardio de clemência, o inquisidor friulano hesitava. Em 5 de setembro escreveu uma carta à congregação do Santo Ofício (que não chegou até nós) comunicando suas dúvidas. A resposta do cardeal de Santa Severina, em nome de toda a congregação, datada de 30 de outubro, foi duríssima: “Comunico-lhe por ordem de Sua Santidade, Nosso Senhor, que não deve faltar em proceder com a diligência que pede a gravidade do caso e ele não pode deixar de ser punido pelos seus horrendos e execráveis excessos, e que o devido e rigoroso castigo sirva de exemplo para outros por essas partes. Não deixe de executar tudo à risca e com o rigor de espírito que a importância do caso exige. E esse é o desejo expresso por Sua Santidade”.
O chefe supremo dos católicos, o papa em pessoa, Clemente VIII, se inclinava para Menocchio, que se tornara um membro infectado do corpo de Cristo, exigindo sua morte. Naqueles mesmos meses, em Roma estava se concluindo o processo contra o ex-frade Giordano Bruno. É uma coincidência que poderia simbolizar a dupla batalha, para cima e para baixo, conduzida pela hierarquia católica naqueles anos, para impor as doutrinas aprovadas pelo concílio de Trento. Só pode partir daqui a fúria, de outra maneira incompreensível, contra o velho moleiro. Pouco tempo depois (13 de novembro), o cardeal de Santa Severina voltou a atacar: “Que Vossa Reverendíssima não falte aos procedimentos no caso daquele camponês da diocese de Concórdia, indiciado por ter negado a virgindade da beatíssima Virgem Maria, a divindade de Cristo, Nosso Senhor, e a providência de Deus, como já lhe escrevi por ordem expressa de Sua Santidade. A jurisdição do Santo Ofício em casos de tamanha importância não pode de modo algum ser posta em dúvida. Assim, execute implacavelmente tudo o que for necessário de acordo com os termos da lei”.
Resistir a pressões tão fortes era impossível e depois de pouco tempo Menocchio foi executado. Temos certeza disso pelo depoimento de um tal Donato Serotino, que em 16 de julho de 1601 disse ao comissário do inquisidor do Friuli ter estado em Pordenone pouco depois de haver “sido justiçado pelo Santo Ofício [...] o Scandella”, e ter se encontrado com uma taverneira que lhe contara que “numa certa vila [...] um certo homem chamado Marcato, ou Marco, dizia que, morto o corpo, a alma também morria”.
Sabemos muita coisa sobre Menocchio. De Marcato ou Marco — e de tantos outros como ele, que viveram e morreram sem deixar rastros — nada sabemos.
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