O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 36 de 62

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O Queijo e os Vermes

37. Trajetória de uma ideia

Até esse momento, Menocchio havia ignorado essa distinção, ou melhor, falara explicitamente “do nosso espírito, que é a alma”. Agora, diante da pergunta admirada do vigário “se acreditava que no homem estejam corpo, alma e espírito e que essas três coisas são distintas uma da outra, que espírito seja uma coisa e alma uma outra”, respondeu: “Sim, senhor, acredito que a alma seja uma coisa e o espírito outra. O espírito vem de Deus e, quando devemos fazer alguma coisa, nos inspira a fazê-la de tal ou tal maneira, ou então a não fazê-la”. A alma, ou melhor (como explicou no decorrer do processo), as almas não são nada mais do que as operações da mente e acabam com o corpo: “Eu vos digo, no homem existe intelecto, memória, vontade, pensamento, crença, fé e esperança: Deus deu ao homem essas sete coisas e são como almas pelas quais fazemos as obras e a isso eu me referia quando dizia, morto o corpo, morre a alma”. O espírito, ao contrário, “é separado do homem, tem a mesma vontade do homem, rege e governa o homem”: depois da morte, retorna a Deus. Este é o espírito bom: “Acredito”, explicou Menocchio, “que todos os homens do mundo sejam tentados, porque o nosso coração tem duas partes, uma iluminada e outra escura; na escura está o espírito ruim e na iluminada o espírito bom”.

Dois espíritos, sete almas e um corpo composto pelos quatro elementos: como pudera sair da cabeça de Menocchio uma antropologia tão abstrusa e complicada?

 

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Assim como a relação entre o corpo e os quatro elementos, também a enumeração das várias “almas” já se encontrava nas páginas do Fioretto della Bibbia : “E é verdade que a alma tem vários nomes no corpo, de acordo com as diversas funções que nele desempenha: se a alma dá vida ao corpo, é chamada de substância; se é a vontade, é chamada de coração; quando o corpo expira, é o espírito; enquanto ela entende e sente, pode-se dizer que é o juízo; enquanto ela imagina e pensa, é a imaginação ou memória; mas a inteligência está colocada na parte mais alta da alma, onde recebemos razão e conhecimento, já que nos assemelhamos a Deus...”. Essa enumeração corresponde só em parte à de Menocchio, porém as analogias não deixam dúvidas. O ponto de divergência mais grave é dado pela presença, entre os nomes da alma, do espírito — além do mais com referência etimológica ao ato corpóreo de respirar. De onde vinha então a distinção feita por Menocchio entre uma alma mortal e um espírito imortal?

Essa distinção chegara até ele depois de uma longa e confusa viagem. É preciso voltar às discussões sobre o problema da imortalidade da alma surgidas durante as primeiras décadas do século XVI nos ambientes averroístas, sobretudo entre os professores de Pádua, in uenciados pelo pensamento de Pomponazzi. Filósofos e médicos concordavam abertamente que, com a morte do corpo, a alma individual — distinta do intelecto ativo postulado por Averróis — perece. Reelaborando esses temas num contexto religioso, o franciscano Girolamo Galateo (que estudara em Pádua e que fora condenado à prisão perpétua por heresia) sustentava que as almas dos beatos, depois da morte, dormem até o dia do Juízo. Provavelmente seguindo as pegadas do ex-franciscano, Paolo Ricci, conhecido mais tarde como Camillo Renato, reformulou a doutrina do sono das almas, distinguindo entre a anima , condenada a perecer junto com o corpo, e o animus , destinado a ressurgir no nal dos tempos. Através da in uência direta de Renato, exilado em Valtellina, essa doutrina foi assimilada, não sem resistência, pelos anabatistas vênetos: “Sustentavam que a anima fosse a vida e, quando o homem morria, o espírito, que mantinha o homem vivo, ia até Deus e a vida ia para a terra e não sabia mais o que era bem ou mal e dormia até o dia do Juízo, quando Nosso Senhor ressuscitaria todos” — exceto os malvados, para os quais não existe vida futura de espécie alguma, já que não existe “outro inferno além do sepulcro”.

Dos professores da Universidade de Pádua a um moleiro friulano, a cadeia de in uências e contatos é decerto singular, mas historicamente plausível, mesmo porque conhecemos o provável último elo — o pároco de Polcenigo, Giovan Daniele Melchiori, amigo de infância de Menocchio. Em 1579-1580, ou seja, poucos anos antes do processo contra Menocchio, ele havia sido submetido a julgamento pelo tribunal da Inquisição de Concórdia e reconhecido como ligeiramente suspeito de heresia. As acusações dos paroquianos contra ele eram muitas e variadas: desde “ser de putaria e ru ão” até tratar sem respeito as coisas sacras (por exemplo, as hóstias consagradas). Contudo, o ponto que nos interessa é outro: a a rmação feita por Menocchio, quando falava com os concidadãos na praça da aldeia, que “vai-se para o paraíso só no dia do Juízo”. Durante o processo, Menocchio negou que tivesse pronunciado essas palavras, mas admitiu ter falado da diferença entre morte corporal e morte espiritual, baseando-se num livro de um “padre de Fano”, do qual não se lembrava o nome, intitulado Dircorsi predicabili . E ministrou aos inquisidores, com grande segurança, um verdadeiro sermão: “Eu me lembro de ter dito, falando de morte corporal e espiritual, que existem dois tipos de morte, uma muito diferente da outra. A morte corporal é comum a todos; a morte espiritual nos priva da vida e da graça; a morte corporal nos priva dos amigos, a morte espiritual dos santos e dos anjos; a morte corporal nos priva dos bens terrenos, a morte espiritual dos bens celestes; a morte corporal nos priva dos lucros do mundo, a morte espiritual nos priva de qualquer mérito de Jesus Cristo, nosso salvador; a morte corporal nos priva do reino terrestre, a morte espiritual do reino celeste; a morte corporal nos priva da razão, a morte espiritual da razão e do intelecto; a morte corporal nos priva do movimento corpóreo e a morte espiritual faz com que nos tornemos imóveis como uma pedra; a morte corporal faz o corpo cheirar mal, a morte espiritual faz a alma cheirar mal; a morte corporal dá o corpo à terra, a morte espiritual a alma ao inferno; a morte dos ruins se chama péssima, como se lê no salmo de Davi mors peccatorum pessima , a morte dos bons é chamada preciosa, como se lê no mesmo, pretiosa in conspettu Domini mors sanctorum eius ; a morte dos ruins se chama morte, a morte dos bons se chama sono, como se lê em são João Evangelista, Lazzarus amicus noster dormit , e em outro local non est mor tua puella sed dormit ; os ruins temem a morte e não querem morrer, os bons não temem a morte, mas dizem com são Paulo cupio dissolvi et esse cum Christo . E essa é a diferença entre a morte corporal por mim entendida e pregada, e, se eu tiver caído em erro, estou pronto a me redimir e me modi car”.

Mesmo não tendo o volume à mão, Menocchio se lembrava muito bem — até mesmo literalmente — do seu conteúdo. De fato, era assim que aparecia no capítulo XXXIV, “Prédicas para uma vida cristã”, manual muito difundido entre pregadores, redigido pelo frade (não padre) ermitão Sebastião Ammiani da Fano. Mas naquele jogo calculado de inocentes contraposições retóricas, Menocchio havia isolado justamente a frase que permitia uma interpretação herética: “A morte dos ruins se chama morte, a morte dos bons se chama sono”. Sem dúvida, tinha consciência das implicações dessas palavras, já que chegara a a rmar que “vai-se para o paraíso só no dia do Juízo”. Bem menos conscientes e informados pareciam, ao contrário, os inquisidores. A qual heresia relacionar as ideias de Menocchio? A acusação que lhe foi imputada de ter aderido “ad per dam, impiam eroneam, falsam et pravam hereticorum sectam [...] nempe Armenorum, nec non Valensium et Ioannis Vicleff” (à pér da, ímpia, errônea, falsa e depravada seita dos heréticos [...] armenos e não à dos valdenses e de John Wyclif) re etia essa perplexidade. Aparentemente, os inquisidores de Concórdia desconheciam as implicações anabatistas da doutrina do sono das almas. Diante de teses suspeitas mas de origem obscura, iam buscar nos manuais de controvérsia de nições antigas de muitos séculos. O mesmo se deu, como veremos, no caso de Menocchio.