O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 10 de 62

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O Queijo e os Vermes

8. “Arruínam os pobres”

causa das frequentes epidemias, ou pela intensi cação da imigração, principalmente em direção a Veneza, a população total do Friuli diminuiu. Os relatórios dos lugares-tenentes de Veneza do período insistem na miséria dos camponeses. “Suspendi todas as execuções de dívidas particulares até o m da colheita”, escrevia Daniele Priuli, em 1573, a rmando que “os vestidos das mulheres, tendo ao lado seus lhos, lhes eram arrancados, bem como as fechaduras das portas, coisa ímpia e desumana”. Carlo Corner, em 1587, frisava a pobreza natural da Patria : “muito estéril porque em parte montanhosa, pedregosa nas planícies e exposta a frequentes inundações e danos das tempestades, que são muito comuns na região”, e concluía: “Assim sendo, se os nobres não possuem grandes riquezas, os camponeses são paupérrimos”. No nal do século (1599),

Stefano Viaro traçava um quadro de decadência e desolação: “Há alguns anos a assim chamada Patria se apresenta totalmente destruída, não se encontrando vila que não esteja com dois terços ou mesmo três quartos de suas casas arruinadas, desabitadas; pouco menos da metade das suas terras são improdutivas, o que de fato é de se lamentar muito, já que desse modo a cada dia declinará mais, com seus habitantes tendo que partir por necessidade (como já estão fazendo), e ali carão apenas os súditos miseráveis”. No momento em que se diagnosticava a decadência de Veneza, a economia friulana já se encontrava em estado de avançada desagregação.

 

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Mas o que um moleiro como Menocchio saberia sobre esse emaranhado de contradições políticas, sociais e econômicas? Qual a imagem que construiria para si do enorme jogo de forças que, silenciosamente, condicionava sua existência?

Uma imagem rudimentar e simpli cada, porém muito clara: no mundo existem muitos graus de “dignidade”: há o papa, os cardeais, os padres, o pároco de Montereale; há o imperador, os reis, os príncipes. Contudo, ultrapassando as graduações hierárquicas, existe uma contraposição fundamental entre os “superiores” e os “homens pobres” — Menocchio é um dos pobres. Uma imagem claramente dicotômica da estrutura de classes, típica das sociedades camponesas. Em todo caso parece-nos que Menocchio, em seus discursos, dá indícios de ter uma atitude diferenciada em relação aos “superiores”. A violência do ataque contra as autoridades máximas da Igreja — “E me parece que na nossa lei o papa, os cardeais, os padres são tão grandes e ricos, que tudo pertence à Igreja e aos padres. Eles arruínam os pobres...” — contrasta com a crítica muito mais amena, que vem em seguida, às autoridades políticas: “Me parece também que os senhores venezianos abrigam ladrões naquela cidade; se alguém vai comprar alguma coisa e pergunta ‘quanto custa?’, respondem ‘um ducado’, embora não valha mais do que três marcelli ; eu gostaria que cumprissem seus deveres...”. É clara nessas palavras, antes de mais nada, a reação do camponês posto de modo brusco em contato com a desconcertante realidade urbana: de Montereale ou Aviano para uma grande cidade como Veneza o salto era enorme. Todavia permanece o fato de que, enquanto o papa, cardeais e padres são acusados diretamente de “arruinar” os pobres, a única coisa que a rma sobre os senhores venezianos é que “abrigam ladrões naquela cidade”. Essa diversidade de tom não era devida, com certeza, à prudência, já que ao pronunciar tais palavras Menocchio tinha diante de si tanto o magistrado de Portogruaro como o inquisidor de Aquileia e seu vigário. Aos seus olhos, a encarnação da opressão estava na hierarquia eclesiástica. Por quê?

O próprio Menocchio parece nos dar uma primeira indicação: “Tudo pertence à Igreja e aos padres. Eles arruínam os pobres. Se têm dois campos arrendados, esses são da Igreja, de tal bispo ou de tal cardeal”. Como já dissemos, não sabemos se esse era o caso dele. Um censo feito em 1596 — portanto, quinze anos após essas a rmações — informa que um dos campos presumivelmente arrendado a Menocchio con nava com um terreno que um dos membros da família dos senhores do lugar, Orazio di Montereale, arrendara a um tal de Giacomo Margnano. O mesmo censo, porém, menciona vários lotes de terra pertencentes às igrejas locais ou da vizinhança arrendados: oito de Santa Maria, um de San Rocco (ambos de Montereale), um de Santa Maria de Pordenone. Montereale não era, com certeza, um caso isolado: no nal do século XVI , era grande a

extensão das propriedades eclesiásticas no Friuli e em todo o Vêneto. E onde as propriedades haviam diminuído do ponto de vista quantitativo, tinham se consolidado e reforçado em termos qualitativos. Tudo isso torna su cientemente claras as palavras de Menocchio — ainda que ele próprio não tivesse se chocado contra a renovada dureza da propriedade eclesiástica (que sempre foi explicitamente excluída nas reduções das taxas de arrendamento introduzidas pelas autoridades venezianas). Bastava abrir os olhos, olhar ao redor.

Se a difundida presença da propriedade eclesiástica em Montereale e arredores explica a aspereza das acusações de Menocchio, o mesmo não se dá com suas implicações nem com sua atribuição a um plano mais geral. Papa, cardeais e padres “arruínam os pobres”: mas em nome do quê? com que direitos? O papa é “homem como nós”, com a diferença de que tem poder (“pode fazer”) e, portanto, mais “dignidade”. Não existe diferença alguma entre clérigos e leigos: o sacramento da ordenação é uma “mercadoria”. Assim como todos os outros sacramentos e leis da Igreja: “mercadorias”, “invenções”, e graças a elas os padres engordam. A essa construção colossal baseada na exploração dos pobres, Menocchio contrapõe uma religião bem diferente, em que todos são iguais, porque o espírito de Deus está em todos.

A consciência dos próprios direitos para Menocchio nascia de um plano especi camente religioso. Um moleiro pode pretender expor as verdades da fé ao papa, a um rei ou príncipe porque carrega dentro de si o espírito que Deus deu a todos. Pela mesma razão, pode ousar “falar muito contra os superiores, por suas más obras”. O que levava Menocchio a negar, de maneira impetuosa, em seus discursos as hierarquias existentes não era só a percepção da opressão, mas também a ideologia religiosa que a rmava a presença, em cada homem, de um “espírito”, ora chamado de “Espírito Santo”, ora de “espírito de Deus”.