O Queijo e os Vermes
32. Uma hipótese
E disso segue : mais uma vez o imperturbável raciocínio de Menocchio se movia por entre os textos (a Escritura, o Fioretto ) com a mais extraordinária liberdade.
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Mas nas discussões com seus conterrâneos Menocchio fazia a rmações muito mais impetuosas: “Quem é esse tal de Deus? É uma traição da Escritura, que o inventou para nos enganar; se fosse Deus se mostraria”; “Quem é que vocês pensam que seja Deus? Deus não é nada além de um pequeno sopro e tudo o mais que o homem imagina”; “O que é o Espírito Santo? [...] Não se vê esse tal de Espírito Santo”. No entanto, quando lhe repetiram essas palavras durante o processo, Menocchio exclamou indignado: “Nunca se encontrará quem a rme que eu tenha dito que o Espírito Santo não existe; pelo contrário, minha maior fé neste mundo está justamente no Espírito Santo e na palavra do altíssimo Deus que ilumina o mundo todo”.
O contraste entre os testemunhos dos habitantes de Montereale e os autos do processo é agrante. Tentou-se
resolvê-lo, atribuindo as con ssões de Menocchio ao medo, ao desejo de se ver livre da condenação do Santo Ofício. O “verdadeiro” Menocchio seria aquele que rodava pelas ruas de Montereale negando a existência de Deus — o outro, o Menocchio do processo, um disfarce. Porém, essa suposição se choca com uma di culdade substancial. Se Menocchio quisesse realmente esconder dos juízes os aspectos mais radicais de seu pensamento, por que insistia tanto na a rmação da mortalidade da alma? Por que continuava irredutível, negando a divindade de Cristo? Na verdade, afora alguma reticência ocasional no primeiro interrogatório, o comportamento de Menocchio durante o processo parece guiado por qualquer coisa, exceto pela prudência ou simulação.
Tentemos agora formular uma hipótese diversa, seguindo as pistas oferecidas pelas próprias declarações de Menocchio. Ele apresentava aos concidadãos ignorantes uma versão simpli cada, exotérica, de suas ideias: “Se pudesse falar, falaria, mas não quero falar”. A versão mais complexa, esotérica, era, entretanto, reservada para as autoridades religiosas e seculares, a elas desejava com ardor se dirigir: “Eu disse”, declarou aos juízes de Portogruaro, “que, se me fosse permitida a graça de falar diante do papa, de um rei ou príncipe que me ouvisse, diria muitas coisas, e, se depois me matassem, não me incomodaria”. A exposição mais completa das ideias de Menocchio deve, portanto, ser buscada justamente em suas declarações durante o processo. Mas ao mesmo tempo é preciso saber explicar como Menocchio conseguia fazer aqueles discursos, aparentemente contraditórios, aos habitantes de Montereale.
Infelizmente, a única solução que podemos propor é, desta vez, puramente conjectural, isto é, que Menocchio tivesse conhecido de forma indireta o De Trinitatis erroribus , de Servet, ou então que houvesse lido a desaparecida tradução italiana, introduzida na Itália por volta de 1550 por Giorgio Filaletto, conhecido como Turca, ou Turchetto. Com certeza trata-se de uma conjectura arriscada, já que o texto é muito complexo, repleto de termos losó cos e teológicos, in nitamente mais difícil do que os livros lidos por Menocchio. Mas talvez não seja impossível encontrar algum eco dessa obra, mesmo débil e deformado, quase inaudível, nos discursos de Menocchio.
No centro da primeira obra de Servet está a reivindicação da plena humanidade de Cristo — humanidade dei cada através do Espírito Santo. Ora, no primeiro interrogatório, Menocchio a rmou: “Minha dúvida é que [Cristo] [...] não tivesse sido Deus, mas um profeta qualquer, um homem de bem que Deus mandou pregar neste mundo...”. Em seguida, precisou: “Eu acredito que seja homem como nós, nascido de um homem e de uma mulher como nós, e que não tinha nada além do que recebera do homem e da mulher, mas é bem verdade que Deus mandara o Espírito Santo escolhê-lo como seu lho”.
Mas o que era para Servet o Espírito Santo? Ele começou enumerando os vários signi cados atribuídos a essa expressão pelas Escrituras: “Nam per Spiritum sanctum nunc ipsum Deum, nunc angelum, nunc spiritum hominis, instinctum quendam, seu divinum mentis statum, mentis impetum, sive halitum intelligit, licet aliquando differentia notetur inter atum et spiritum. Et aliqui per Spiritum sanctum nihil aliud intelligi volunt, quam rectum hominis intellectum et rationem” (Pois por Espírito Santo entendia ora o próprio Deus, ora um anjo, ora o espírito do homem, concebido ou como um certo instinto, ou a natureza divina da alma, ou o impulso da mente ou o hálito, embora às vezes se note a diferença entre sopro e espírito. E alguns outros nada mais entendem como Espírito Santo que o uso correto da inteligência e razão humana): a mesma pluralidade de signi cados é encontrada, quase exatamente, nas con ssões de Menocchio: “Acredito [...] seja Deus [...]. É aquele anjo ao qual Deus deu sua vontade [...]. Eu penso que o Senhor Deus nos tenha dado o livre-arbítrio e o Espírito Santo no corpo [...]. [Acredito que] o espírito venha de Deus e seja aquilo que, quando devemos fazer alguma coisa, nos inspira a fazê-la de tal ou tal maneira, ou então a não fazê-la”.
Essa discussão terminológica de Servet destinava-se a demonstrar a inexistência do Espírito Santo como pessoa distinta da do Pai: “quasi Spiritus sanctus non rem aliquam separatam, sed Dei agitationem, energiam quandam seu inspirationem virtutis Dei designet” (como se o Espírito Santo designasse não algo separado, mas uma atividade de Deus, uma energia ou inspiração do poder de Deus). O pressuposto do seu panteísmo era a tese da presença operante do Espírito no homem e em toda a realidade. “Dum de spiritu Dei erat sermo”, escreveu, lembrando-se da época na qual ainda ele estava ligado aos erros dos lósofos, “suf ciebat mihi si tertiam illam rem in quodam angulo esse intelligerem. Sed nunc scio quod ipse dixit: ‘Deus de propinquo ego sum, et non Deus de longinquo’. Nunc scio quod amplissimus Dei spiritus replet orbem terrarum, continet omnia, et in singulis operatur virtutes; cum propheta exclamare libet ‘Quo ibo Domine a spiritu tuo?’ quia nec sursum nec deorsum est locus spiritu Dei vacuus” (Ao falar do Espírito de Deus era su ciente para eu compreender que a terceira pessoa era um tipo de ângulo. Mas agora sei que ele próprio disse: “Sou um Deus próximo, não um Deus distante”; agora sei que o espírito universal de Deus enche a terra, abarca todas as coisas e produz virtude em cada homem. Com o profeta proclamaria: “Ó senhor, onde encontro teu espírito?” não há lugar acima ou abaixo sem o espírito de Deus). “Quem é que vocês pensam que seja Deus? Tudo o que se vê é Deus...” — ia Menocchio repetindo aos concidadãos. “O céu, a terra, o mar, o ar, o abismo e o inferno, tudo é Deus.”
Para demolir um sistema losó co e teológico que durava havia mais de um milênio, Servet usara todos os instrumentos disponíveis: o grego e o hebraico, a lologia de Valla e a cabala, o materialismo de Tertuliano e o nominalismo de Occam, a teologia e a medicina. Na ânsia de desfazer os acréscimos que se haviam acumulado em torno da palavra “Espírito”, acabou por trazer à luz a etimologia original. A diferença entre “spiritus”, “ atus”, “ventus” pareceu-lhe naquele momento meramente convencional, ligada ao uso linguístico. Entre o “espírito” e o sopro existia uma profunda analogia: “Omne quod in virtute a Deo t, dicitur eius atu et inspiratione eri, non enim potest esse prolatio verbi sine atu spiritus. Sicut nos nom possumus proferre sermonem sine respiratione, et propeterea dicitur spiritus oris et spiritus labiorum [...]. Dico igitur quod ipsemet Deus est spiritus noster inhabitans in nobis, et hoc esse Spiritum sanctum in nobis [...]. Extra hominem nihil est Spiritus sanctus [...]” (Tudo o que é feito pelo poder de Deus dizemos que é feito por força de seu sopro e de sua inspiração, pois não se pode pronunciar uma palavra sem o sopro do espírito. Da mesma forma como não podemos pronunciar uma palavra sem a respiração e por isso se fala no espírito da boca e espírito dos lábios [...]. A rmo, pois, que o próprio Deus é o nosso espírito que reside em nós e isso é o Espírito Santo em nós [...]. Fora do homem não existe nenhum Espírito Santo [...]). E Menocchio: “Quem é que vocês pensam que seja Deus? Deus não é nada além de um pequeno sopro [...]. O ar é Deus [...]. Nós somos Deus [...]. Acredito que [o Espírito Santo] esteja em todos os homens [...]. O que é o Espírito Santo? [...] Não se vê esse tal de Espírito Santo”.