O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 62 de 62 · parte 1/3

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O Queijo e os Vermes

Notas e abreviaturas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

ACAU : Archivio della Curia Arcivescovile di Udine.

ACVP : Archivio della Curia Vescovile di Pordenone.

ASM : Archivio di Stato di Modena.

ASP : Archivio di Stato di Pordenone.

ASVAT : Archivio Secreto Vaticano.

ASVEN : Archivio di Stato di Venezia.

BCU : Biblioteca Comunale di Udine.

BGL : Biblioteca Governativa di Lucca.

PREFÁCIO

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O homem comum, escreveu Vicens Vives, “se ha convertido en el principal protagonista de la Historia” (citação de P. Chaunu, “Une histoire religieuse sérielle”, in Revue d’histoire moderne et contemporaine (1965, XII : 9, nota 2).

A citação de Brecht foi extraída de “Fragen eines lesenden Arbeiters”, in Hundert Gedichte, 1918-1950 (Berlim, 1951), pp. 107-8. Noto que o mesmo poema foi usado como epígrafe por J. Kaplow, The Names of Kings : The Parisian Laboring Poor in the Eighteenth Century (Nova York, 1973). Ver também H. M. Enzensberger, “Letteratura come storiogra a”, in Il Menabò (1966), 9: 13.

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Uso a expressão gramsciana classes subalternas por ser su cientemente ampla e despida das conotações paternalistas de que está imbuída classes inferiores . Sobre os temas levantados quando da publicação das anotações de Gramsci sobre folclore e classes subalternas, v. as discussões entre De Martino, C. Luporini, F. Fortini e outros (v. a lista dos participantes in L. M. Lombardi Satriani, Antropologia culturale e analisi della cultura subalterna [Rimini, 1974], p. 74, nota 34). V. sobre os termos atuais da questão, em grande parte já e cazmente antecipados, E. J. Hobsbawm, “Per lo studio delle classi subalterne”, in Società (1960), XVI : 436-49, cf. infra .

Os processos contra Menocchio se encontram no Archivio della Curia Arcivescovile di Udine (daqui em diante, ACAU ), Sant’ Uf zio , Anno integro 1583 a n. 107 usque ad 128 incl. , proc. n. 126, e Anno integro 1596 a n. 281 usque ad 306 incl. , proc. n. 285. O único estudioso que faz menção a esses processos (mas não os consultou) é A. Battistella, Il S. O cio e la riforma religiosa in Friuli : Appunti storici documentati (Udine, 1895), p. 65, o qual a rma, erroneamente, que Menocchio não foi executado.

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A bibliogra a sobre esses temas é obviamente muito vasta. Para uma introdução mais acessível, v. A. M. Cirese, “Alterità e dislivelli interni di cultura nelle società superiori”, in Folklore e antropologia tra storicismo e marxismo , A. M. Cirese (Palermo, 1972), pp. 11-92; Lombardi Satriani, Antropologia culturale , cit.; Il concetto di cultura : I fondamenti teorici della scienza antropologica , org. P. Rossi (Turim, 1970). A concepção do folclore como “acúmulo desorgânico de ideias etc.” foi adotada também por Gramsci, com algumas variações: v. Letteratura e vita nazionale (Turim, 1950), p. 215 ss. V. também Lombardi Satriani, Antropologia culturale , op. cit., p. 16 ss.

Uma cultura oral : v. a respeito C. Bermani, “Dieci anni di lavoro con le fonti orali”, in Primo Maggio (primavera de 1975), 5: 35-50.

R. Mandrou, De la culture populaire aux 17 e et 18 e siècles : La Bibliothèque bleue de Troyes (Paris, 1964), observa que inicialmente cultura popular e cultura de massa não são sinônimos. (Note-se que cultura de massa e o termo correspondente em italiano equivalem à expressão anglo-americana popular culture — o que dá margem a muitos equívocos.) Culture populaire , designação mais antiga, exprime, dentro de uma perspectiva “populista”, “la culture qui est l’oeuvre du peuple”. Mandrou propõe o mesmo termo num sentido “mais amplo” (na verdade, diferente): “la culture des milieux populaires dans la France de l’Ancien Régime, nous l’entendons [...], ici, comme la culture acceptée, digérée, assimilée, par ces milieux pendant des siècles” (pp. 9-10). Dessa maneira, cultura popular acaba quase se identi cando com cultura de massa, o que é anacrônico, já que cultura de massa em sentido moderno pressupõe a indústria cultural, que com certeza não existia na França do Ancien Régime (v. p. 174). O uso do termo superestrutura (p. 11) também é equivocado: teria sido melhor, dentro da perspectiva de Mandrou, falar de falsa consciência. Sobre a literatura de cordel como literatura de evasão e, atualmente, como re exo da visão de mundo das classes populares, v. pp. 162-3. De qualquer forma, Mandrou tem plena consciência dos limites de um estudo pioneiro (p. 11) e, como tal, indubitavelmente meritório. De G. Bollème, v. “Littérature populaire et littérature de colportage au XVIII e siècle”, in Livre et société dans la France du XVIII e siècle , 2 v. (Paris, ’s Gravenhage, 1965), I : 61-92; Les Almanachs populaires aux XVII e et XVIII e siècle , essai d’histoire sociale (Paris, ’s Gravenhage, 1969); antologia La Bibliothèque bleue : La littérature populaire en France du XVI e au XIX e siècle (Paris, 1971); “Représentation religieuse et thèmes d’espérance dans la ‘Bibliothèque Bleue’; Littérature populaire en France du XVII e au XIX e siècle”, in La società religiosa nell’età moderna. Atti del convegno di studi di storia sociale e religiosa , Capaccio-Paestum , 18-21 maggio 1972 (Nápoles, 1973), pp. 219-43. Trata-se de estudos de diferentes níveis. O melhor é o que antecede a antologia da Bibliothèque bleue (nas pp. 22-3, observações sobre o provável tipo de leitura desses textos), que, todavia, contém a rmações como estas: “[...] à la limite, l’histoire qu’entend ou lit le lecteur n’est que celle qu’il veut qu’on lui raconte [...] . En ce sens on peut dire que Fécriture, au même titre que la lecture, est collective, faite par et pour tous, diffuse, diffusée, sue, dite, échangée, non gardée, et qu’elle est en quelque sorte spontanée...” (ibid.). Os exageros inaceitáveis em sentido populista-cristão que aparecem, por exemplo, no ensaio “Représentation religieuse” baseiam-se em so smas desse tipo. Parece mentira, mas A. Dupront criticou Bollème por ter tentado caracterizar “l’historique dans ce qui est peut-être l’anhistorique, manière de fonds commum quasi ‘indatable’ de traditions...” (“Livre et culture dans la société Française du 18 e siècle”, in Livre et société , I : 203-4).

Sobre “literatura popular” v. o importante ensaio de N. Z. Davis, “Printing and the People”, in Society and Culture in Early Modern France (Stanford, 1975), pp. 189-206, que se baseia em pressupostos em parte semelhantes aos deste livro.

Ao período posterior ao da Revolução Industrial se referem certos trabalhos como o de L. James, Fiction for the Working Man , 1830-1850 (1 a ed., Oxford, 1963; Londres, 1974); R. Schenda, Volk ohne Buch : Studien zur Sozialgeschichte der populären Lesestoffe (1770-1910) (Frankfurt a. M., 1970) (numa coleção dedicada à Triviallitteratur ); J. J. Darmon, Le colportage de librairie en France sous le second Empire : Grands colporteurs et culture populaire (Paris, 1972).

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Usei a tradução francesa de Bakhtin: L’oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Age et sous la Renaissance (Paris, 1970) [Trad. bras.: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento . São Paulo, Hucitec, 1987 (N. R. T.)]. Na mesma direção, v. a intervenção de A. Berelovic, in Niveaux de culture et groupes sociaux (Paris, La Haye, 1967), pp. 144-5.

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V. E. Le Roy Ladurie, Les paysans de Languedoc , 2 v. (Paris, 1966), I : 394 ss.; N. Z. Davis, “The Reasons of Misrule: Youth Groups and Charivaris in Sixteenth-Century France”, in Past and Present (fev. 1971), 50: 41-75; E. P. Thompson, “‘Rough Music’: Le Charivari anglais”, in Annales : ESC (1972), XXVII : 285-312 (e também, sobre o mesmo argumento, C. Gauvard e A. Gokalp, “Les conduites de bruit et leur signi cation à la n du Moyen Age: Le Charivari”, ibid., 1974, 29: 693-704). Os estudos citados valem como exemplos. Sobre a questão, bastante diversa, da persistência de modelos culturais pré-industriais no proletariado industrial, v., do mesmo Thompson, “Time, Work-Discipline, and Industrial Capitalism”, in Past and Present (dez. 1967), 38: 56-97, e The Mak ing of the English Working Class (2. ed. rev. Londres, 1968); de E. J. Hobsbawm, v. principalmente Primitive Rebels : Studies in Archaic Forms of Social Movement in the Nineteenth and Twentieth Centuries (Manchester, 1959) [Ed. bras.: Rebeldes primitivos . Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978 (N. R. T.)], e “Les classes ouvrières anglaises et la culture depuis les débuts de la révolution industrielle”, in Niveaux de culture , op. cit., pp. 189-99.

Um grupo de estudiosos chegou a se perguntar... : v. M. de Certeau, D. Julia e J. Revel, “La beauté du mort: Le concept de ‘culture populaire’”, in Politique aujourd’hui (dez. 1970), pp. 3-23 (a frase citada está na p. 21).

In Folie et déraison : Histoire de la folie à l’age classique (Paris, 1961), p. VII , Foucault a rma que “faire l’histoire de la folie, voudra donc dire: faire une étude structurale de l’ensemble historique — notions, institutions, mesures juridiques et policières, concepts scienti ques — qui tient captive une folie dont l’état sauvage ne peut jamais être restitué en lui-même; mais à défaut de cette inaccessible pureté primitive, l’étude structurale doit rémonter vers la décision qui lie et sépare à la fois raison et folie”. Isso explica a ausência, neste livro, dos loucos — ausência devida não apenas — nem predominantemente — à di culdade em encontrar documentação adequada. Os delírios — transcritos em milhares de páginas, conservadas pela Bibliothéque de l’Arsenal — de um lacaio, semianalfabeto e “dément furieux”, que viveu no nal do século XVII , para Foucault não têm lugar no “universo do nosso discurso”, “estão irreparavelmente fora da história” (p. V ). Difícil dizer se testemunhos como esses poderiam lançar alguma luz sobre a “pureza primitiva” da loucura — que talvez não seja, aliás, de todo inacessível. De qualquer modo a coerência de Foucault nesse livro genial, embora frequentemente irritante, está acima de qualquer suspeita (embora algumas incoerências ocasionais apareçam: v., por exemplo, pp. 475-6). Para um comentário sobre a involução de Foucault, de Histoire de la folie (1961) [Trad. bras.: História da loucura na Idade Clássica . São Paulo, Perspectiva, 1978 (N. R. T.)] até Les mots et les choses (1966) [Trad. bras.: As palavras e as coisas . São Paulo, Martins Fontes, 1981 (N. R. T.)] e L’archéologie du savoir (1966) [Trad. bras.: A arqueologia do saber . Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1986 (N. R. T.)], v. P. Vilar, “Histoire marxiste, histoire en construction”, in Faire de l’histoire , org. J. Le Goff e P. Nora (Paris, 1974), I : 188-9 [Trad. bras.: “História marxista, história em construção”, in História : novos problemas , Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, pp. 146-78 (N. R. T.)]. Sobre as objeções de Derrida, v. D. Julia, “La religion — histoire religieuse”, op. cit., II : 145-6 [Trad. bras.: “História religiosa”, in História : novas abordagens . Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, pp. 106-31 (N. R. T.)]. V. Moi , Pierre Rivière , ayant égorgé ma mère , ma soeur et mon frère , org. M. Foucault et alii (Paris, 1973) [Trad. bras.: Eu , Pierre Rivière , que degolei minha mãe , minha irmã e meu irmão . Rio de Janeiro, Graal, 1983 (N. R. T.)]. Sobre o “estupor”, o “silêncio” e a recusa de interpretação, v. pp. 11, 14, 243, 314, 348 nota 2. Sobre as leituras de Rivière, v. pp. 40, 42, 125. O trecho sobre vagabundagens nos bosques está na p. 260. A alusão ao canibalismo, na p. 249. No que toca à questão da deformação populista, v. principalmente a contribuição de Foucault, “Les meurtres qu’on raconte”, pp. 265-75. Em geral, v. G. Huppert, “Divinatio et Eruditio: Thoughts on Foucault”, in History and Theory (1974), XIII : 191-207.

6

V. de Le Goff, “Culture clericale et traditions folkloriques dans la civilisation mérovingienne”, in Annales ESC (1967), XXII : 780-91 [Trad. port.: “Cultura clerical e tradições folclóricas na civilização merovíngia”, in Para um novo conceito de Idade Média . Lisboa, Estampa, 1979, pp. 207-19 (N. R. T.)]; “Culture ecclésiastique et culture folklorique au Moyen Age: Saint Marcel de Paris et le dragon”, in Richerche storiche ed economiche in memoria di Corrado Barbagallo , org. L. de Rosa (Nápoles, 1970), II : 53-94 [Trad. port.: “Cultura eclesiástica e cultura folclórica na Idade Média: são Marcelo de Paris e o dragão”, in Para um novo conceito... , pp. 22-61 (N. R. T.)].

Aculturação : V. Lanternari, Antropologia e imperialismo (Turim, 1974), n. 5 ss., e N. Wachtel, “L’acculturation”, in Faire de l’histoire , op. cit., I : 124-46 [Trad. bras.: “A aculturação”, in História : novos problemas , pp. 113-29 (N. R. T.)].

Uma pesquisa sobre processos contra a burguesia : v. C. Ginzburg, Os andarilhos do bem . Feitiçaria e cultos agrários nos séculos XVI e XVII (São Paulo, 1988).

7

História “ quantitativa ” das ideias ou... história religiosa “ serial ”: para a primeira, v. Livre et société (op. cit.); para a segunda, P. Chaunu, “Une historie religieuse”, op. cit., e M. Vovelle, Piété baroque et déchristianisation en Provence au XVIII e siècle (Paris, 1973). Em geral, v. F. Furet, “L’histoire quantitative et la construction du fait historique”, in Annales: ESC (1971), XXVI : 63-75, que entre outras coisas comenta, com razão, as implicações ideológicas de um método que tende a absorver as rupturas (e as revoluções) por um longo período e no equilíbrio do sistema. No mesmo sentido, v. as pesquisas de Chaunu, bem como a participação de A. Dupront para a antologia citada, Livre et société ( I : 185 ss.), onde, entre muitas divagações inebriantes sobre a “alma coletiva”, chega-se a exaltar as virtudes tranquilizantes de um método que permite o estudo do século XVIII francês, ignorando seu desenlace revolucionário — o que equivaleria a se liberar da “escatologia da história” (p. 231).

Por alguém como François Furet , que defendia... : v. “Pour une dé nition des classes inférieures à l’époque moderne”, in Annales: ESC (1963), XVIII : 459-74, especialmente p. 459.

“ Histoire événementielle ” ( que não só e nem necessariamente é história política ): v. R. Romano, “À propos de l’édition italienne du livre de F. Braudel... ”, in Cahiers Vilfredo Pareto (1968), 15: 104-6.

A nobreza austríaca ou o baixo clero: alusão a O. Brunner, Vita nobiliare e cultura europea (trad. ital. Bolonha, 1972) (e v. C. Schorske, “New Trends in History”, in Daedalus (1969), 98: 963), e a A. Macfarlane, The Family Life of Ralph Josselin , a Seventeenth-Century Clergyman : An Essay in Historical Anthropology (Cambridge, 1970), mas também as observações de E. P. Thompson, “Anthropology and the Discipline of Historical Context”, in Midland History I (1972), 3:41-5.

Assim como a língua , a cultura ... : v. as considerações de P. Bogatyrëv e R. Jakobson, “Il folclore come forma di creazione autonoma”, in Strumenti critici (1976), I : 223-40. As famosas páginas de G. Lukács sobre a “consciência possível” (v. Storia e coscienza di classe [trad. ital., Milão, 1967], p. 65 ss.), embora surgidas num contexto completamente diverso, podem ser usadas na direção apontada.

Em poucas palavras , mesmo um caso-limite ... : v. D. Cantimori, Prospettive di storia ereticale italiana del Cinquecento (Bari, 1960), p. 14.

Arquivos da repressão : v. D. Julia, “La religion — histoire religieuse”, in Faire de l’histoire , op. cit., II : 147.

Sobre as relações entre pesquisas quantitativas e pesquisas qualitativas, v. as observações de E. Le Roy Ladurie, “La révolution quantitative et les historiens français: Bilan d’une génération (1932-1968)”, in Le territoire de l’historien (Paris, 1973), p. 22. Entre as disciplinas “pionnières et prometteuses” que continuam, decididamente e com toda razão, qualitativas, Le Roy cita a “psychologie historique”. O trecho de E. P. Thompson está em “Anthropology”, op. cit., p. 50.

Furio Diaz ..., a essa abordagem : v. “Le stanchezze di Clio”, in Revista storica italiana (1972), LXXXIV : em particular pp. 733-4, assim como, do mesmo autor, “Metodo quantitativo e storia delle idee”, ib. (1966), LXXVIII : 932-47 (sobre a obra de Bollème, pp. 939-41). V. também as críticas de F. Venturi, Utopia e riforma nell’illuminismo (Turim, 1970), pp. 24-5. Sobre a questão da leitura, v. a bibliogra a citada nos caps. 14 e 15.

8

Sobre a história das mentalidades, v. J. Le Goff, “Les mentalités: une histoire ambiguë”, in Faire de l’histoire , op. cit., III : 76-94. [Trad. bras.: “As mentalidades, uma história ambígua”, in Le Goff e Nora (orgs.), História : novos objetos . Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, pp. 68-83 (N. R. T.).] O trecho citado se encontra à p. 80. Le Goff observa a propósito: “Eminemment collective, la mentalité semble soustraite aux vicissitudes des luttes sociales. Ce serait pourtant une grossière erreur que de la détacher des structures et de la dynamique sociale [...]. Il y a des mentalités de classes, à côté de mentalités communes. Leur jeu reste a étudier” (pp. 89-90).

Num livro inexato mas fascinante ... : v. L. Febvre, Le problème de l’incroyance au XVI e siècle : La religion de Rabelais (1 a ed. 1942; Paris, 1968) [Trad. port.: O problema da descrença no século XVI . A religião de Rabelais . Lisboa, Início, s. d. (N. R. T.)]. Como se sabe, a argumentação de Febvre parte de um tema circunscrito à refutação da tese, proposta por A. le Franc, segundo a qual Rabelais, no Pantagruel (1532), teria sido um propagandista do ateísmo — e se alarga a círculos cada vez mais amplos. A terceira parte, sobre os limites da incredulidade do século XVI , é com certeza o que há de mais novo do ponto de vista metodológico, mas também o mais genérico e inconsistente, como é provável que até mesmo Febvre tenha pressentido (p. 19). A extrapolação indevida para a mentalidade coletiva dos “homens do século XVI ” deve muito às teorias de Lévy-Bruhl (“notre maître”, p. 17) sobre as mentalidades primitivas. (É curioso que Febvre ironize sobre “les gens du Moyen Age” para falar logo em seguida, poucas páginas depois, de «homens do século XVI ” e de “homens da Renascença”, apesar de acrescentar, no último caso, que se trata de uma forma «clichée, mais commode”: v. pp. 153-4, 142, 344, 382.) A referência aos camponeses está na pp. 253; Bakhtin já observara ( L’oeuvre de François Rabelais , op. cit., p. 137) que a análise de Febvre se baseia unicamente nos ambientes da cultura o cial. Confronto com Descartes, pp. 393, 425, passim. Sobre este último ponto, v. também G. Schneider, Il libertino . Per una storia sociale del la cultura borghese nel XVI e XVIII secolo (trad. ital. Bolonha, 1974), e as observações (não todas aceitáveis) formuladas à p. 7 e ss. Com o risco presente na historiogra a de Febvre de cair numa tautologia so sticada, v. D. Cantimori, Storici e storia (Turim, 1971), pp. 223-5.

Grupos marginais , como os vagabundos : v. B. Geremek, “Il pauperismo nell’età preindustriale (secoli XIV-XVIII )”, in Storia d’Italia (Turim, 1973), v. V , t. I , pp. 698-99, e Il libro dei vagabondi , org. P. Camporesi (Turim, 1973).

Análises particularizadas: é muito importante a análise feita por Valerio Marchetti sobre os artesãos residentes em Siena no século XVI .

9

No que se refere a este parágrafo, v. cap. 28.

10

Levar em consideração uma mutilação histórica : isto não deve ser obviamente confundido com a nostalgia reacionária do passado e muito menos com a retórica um tanto quanto reacionária sobre uma presumível “civilização camponesa” imóvel e aistórica.

A frase de Benjamin foi extraída de Angelus Novus : Saggi e Frammenti , in Tesi di

loso a della storia , org. R. Solmi (Turim, 1962), p. 73 [Trad. bras.: “Sobre o conceito

de História”, in Magia e técnica , arte e política ( Obras escolhidas , v. 1). São Paulo, Brasiliense, 1985, pp. 222-32 (N. R. T.)].

O QUEIJO E OS VERMES

1

Menocchio : é o nome recorrente nos documentos inquisitoriais. Aparece também como “Menoch” e “Menochi”.

Quando do primeiro processo : v. ACAU , proc. n. 126, f. 15v.

Montereale : hoje, Montereale Cellina é uma cidadezinha de colina (a 317 metros acima do nível do mar), situada bem na entrada do Val Cellina. Em 1584, a paróquia era constituída por 650 almas: v. ACVP “Sacrarum Visitationum Nores ab anno 1582 usque ad annum 1584”, f. 168v.

Após uma briga : v. ACAU , proc. n. 126, f. 20r.

As vestimentas tradicionais de moleiro : “indutus vestena quadam et desuper tabaro ac pileo aliisque vestimentis de lana omnibus albo colore” (ibid., f. 15v.). Esse tipo de vestimenta ainda estava em uso entre os moleiros na Itália do século XIX . v. C. Cantú, Portafoglio d’un operajo (Milão, 1871), p. 68.

Alguns anos depois : v. ACAU , “Sententiarum contra reos S. Of cii liber ii”, f. 16v.

Dois campos arrendados : sobre contratos de arrendamento desse período, v. G. Giorgetti, Cantadini e proprietari nell’Italia moderna : Rapporti di produzione e contratti agrari dal secolo XVI a oggi (Turim, 1974), p. 97 ss. Não sabemos se se tratava de arrendamentos “perpétuos” ou de duração mais breve (por exemplo, 29 ou, como é mais provável, nove anos). Sobre a imprecisão da terminologia dos contratos desse período, que muitas vezes torna difícil distinguir entre en teuse [v. N. R. T. no cap. 7], arrendamento e locação, v. as observações de G. Chittolini, “Um problema aperto: la crisi della proprietà ecclesiastica fra Quattro e Cinquecento”, in Rivista storica italiana (1973), LXXXV : 370. Em documento posterior descobre-se a possível situação dos dois campos: uma estimativa redigida em 1596 a pedido do lugar-tenente veneziano (v. ASP , Notarile , b. 488, n. 3785, ff. 17r-22r). Entre as 255 divisões situadas em Montereale e Grizzo (uma vila vizinha) guram (f. 18r): “9. Alliam petiam terre arative positam in pertinenti Monteregalis in loco dicto alla via del’homo dictam la Longona, unius iug. in circa, tentam per Bartholomeum Andreae: a mane dicta via, a meridie terrenum ser Dominici Scandelle, a sero via de sotto et a montibus terrenum tentum per heredes q. Stephani de Lombarda”; (f. 19v): “Aliam pertiam terrae unius iug. in circa in loco dicto... il campo del legno: a mane dicta laguna, a meridie terenum M. d. Horatii Montis Regalis tentum per ser Jacomum Marganum, a sero terrenum tentum per ser Dominicum Scandelle et a montibus suprascriptus ser Daniel Capola”. Não foi possível conferir os topônimos indicados. A identi cação das duas divisões com os “dois campos arrendados” mencionados por Menocchio doze anos antes não é segura, mesmo porque, referindo-se só à segunda divisão, fala-se de maneira explícita em “terrenum tentum ”, quer dizer, presumivelmente, arrendado. Observe-se que numa estimativa de 1578 ( ASP , Notarile , b. 40, n. 332, ff. 115r s.) o nome de Domenico Scandella não aparece, enquanto o de um certo Bernardo Scandella (não sabemos se eram parentes; o pai de Menocchio chamava-se Giovanni) é mencionado mais de uma vez. O sobrenome Scandella, é bom dizer, ainda hoje é muito comum em Montereale.

Aluguel ( provavelmente em espécie ): v. A. Tagliaferri, Struttura e política sociale in una comunità veneta del ‘500 ( Udine ) (Milão, 1969), p. 78 (aluguel de um moinho com moradia, em Udine: em 1571, por exemplo, eleva-se para 61 alqueires de trigo mais dois presuntos). V. também o contrato de aluguel de um novo moinho estipulado por Menocchio em 1596 (v. cap. 48).

Desterrado em Arba : v. ACAU , proc. n. 126, interrogatório de 28 de abril de 1584 (folhas não numeradas).

Quando sua lha Giovanna ... : v. ASP , Notarile , b. 488, n. 3786, ff. 27r-27v, jan. 1600. O marido chamava-se Daniele Colussi. Para uma comparação com outros dotes, v. ibid., b. 40, n. 331, ff. 2v ss.: 390 liras e dez soldos; ibid., ff. 9r ss.: 340 liras aproximadamente; ibid., b. 488, n. 3786, ff. 11r-v: trezentas liras; ibid., ff. 20v-21v: 247 liras e dois soldos; ibid., ff. 23v-24r: 182 liras e quinze soldos. A insigni cância do último dote se explica por se tratar de segundas núpcias da esposa, Maddalena Gastaldione de Grizzo. Infelizmente não temos indicações sobre a posição social ou a pro ssão dos indivíduos citados nos contratos. O dote de Giovanna Scandella consistia nos seguintes itens:

 

Um lençol leve usado 5 —

Três camisolas novas 6 —

Seis xales 4 —

Quatro xales 6 —

Três lenços novos 4 1

0

Quatro lenços usados 3 —

Um avental bordado 4 —

Três xales 5 1

0

Um xale de tecido pesado 1 1

0

Um avental velho, um xale e um xale pesado 3 —

Um lenço de cabeça novo, bordado 3 1

0

Cinco lenços 6 —

Uma mantilha de cabeça usada 3 —

Duas toucas novas 1 1

0

Cinco camisas novas 15 —

Três camisetas usadas 6 —

Nove cordões de seda de todas as cores 4 1

0

Quatro cintos de várias cores 2 —

Um avental novo de tecido grosso — 1

5

Um baú sem fechadura 5 —

25 9 6

Não pude consultar L. d’Orlandi e G. Perusini, Antichi costumi friulani — Zona di Maniago , Udine, 1940.

A posição de Menocchio ... : deverão ser levadas em conta as observações feitas sobre o campo da região de Lucca, por M. Berengo ( Nobili e mercanti nella Lucca del Cinquecento [Turim, 1965]) — nas prefeituras menores “qualquer distinção social efetiva é eliminada, já que todos retiram seus proventos da exploração de terras coletivas. E embora aqui como em tantas outras partes se continuará a falar de ricos e pobres [...] sempre se poderá oportunamente de nir qualquer um como roceiro ou até mesmo como camponês”; caso à parte são os moleiros, “presentes em todos os centros de certa importância [...], frequentemente credores da prefeitura e de particulares, não participando do cultivo da terra, mais ricos que os outros homens” (ibid., p. 322 e p. 327). Sobre a gura social do moleiro, v. pp. 219-22.

Em 1581 ... ( podestà ) magistrado : v. ASP , Notarile , b. 40, n. 333, f. 89v: intimação feita por Andrea Cossio, nobre udinese, “potestati, iuratis, communi, hominibus Montisregalis” para que lhe fossem pagos os aluguéis referentes a certas terras. Em 1 o de junho a intimação é entregue a “Dominico Scandellae vocato Menocchio de Monteregali ... potestati ipsius villae”. Numa carta de Ziannuto, lho de Menocchio (v. caps. 4 e 5), declara-se que Menocchio fora “magistrado e reitor de cinco vilas” (sobre esses nomes v. Leggi per la Patria e Contadinanza del Friuli [Udine, 1686], Introdução, f. dr) e cameraro da paróquia.

O velho sistema de rotação de cargo : v. G. Perusini, “Gli statuti di una vicinia rurale friulana del Cinquecento”, in Memorie storiche forogiuliesi (1958-59), XLIII : 213-9. A vicinia , isto é, a assembleia dos chefes de família, à qual se refere é a de uma aldeia minúscula próxima de Tricesimo, Bueris; os chefes de família que a formavam em 1578 eram seis.

Ler ... : v. ACAU , Sant’Uf zio , proc. n. 126, f. 15v.

Os administradores ... : v. G. Marchetti, “I quaderni dei camerari di s. Michele a Gemona”, in Ce fastu? (1962), 38:11-38. Marchetti observa (p. 13) que os camerari não pertenciam ao clero nem estavam entre escrivães, isto é, não pertenciam ao grupo dos “letrados”; eram, em geral “burgueses ou populares que tinham frequentado a escola pública da Prefeitura”; e cita o caso, provavelmente excepcional, de um marceneiro analfabeto que fora cameraro em 1489 (p. 14).

Escolas desse tipo ... : v. G. Chiuppani, “Storia di una scuola di grammatica dal Medio Evo no ai Seicento (Bassano)”, in Nuovo archivio veneto (1915), XXIX :79. O humanista Leonardo Fosco, que era natural de Montereale, parece ter ensinado em Aviano: v. F. Fattorello, “La cultura dei Friuli nel Rinascimento”, in Atti dell’Accademia di Udine , 6 a série (1934-35), I :160. Essa informação, entretanto, não aparece no per l biográ co de Fosco traçado por A. Benedetti, in Il Popolo , semanário da diocese de Concórdia-Pordenone, 8 de junho de 1974. Uma pesquisa sobre as escolas da prefeitura desse período seria muito útil. Muitas vezes existiam em localidades mínimas: v., por exemplo, A. Rustici, “Una scuola rurale della ne del secolo XVI ”, in La Romagna , n. s. (1927), I :334-8. Sobre a difusão dos estudos nos campos de Lucca, v. Berengo, Nobili e mercanti , op. cit., p. 322.

Denunciado ... : v. ACAU , proc. n. 126, folha não numerada: “fama publica deferente et clamorosa insinuatione producente, non quidem a malevolis orta sed a probis et honestis viris catolicaeque dei zelatoribus, ac fere per modum notorii devenerit quod quidam Dominicus Scandella...” (Por pressão da opinião pública e diante da apresentação de apelos insistentes, não dos malévolos, mas de pessoas probas e honestas e partidários zelosos da fé católica e quase em forma de denúncia aconteceu que um certo Domenico Scandella..., é a forma usual).

Discute sempre ... : ibid., f. 2r.

Costuma discutir ... : ibid., f. 10r.

Ele conhecia ... : ibid., f. 2r.

O pároco ... a Concórdia ... : ibid., ff. 13v, 12r.

Na praça , na taverna ... : ibid., ff. 6v, 7v, folha não numerada (depoimento de Domenico Melchiori), f. 11r etc.

Geralmente ... : ibid., f. 8r.

2

Menocchio , pelo amor ... : ibid., f. 10r.

Giuliano Stefanut ... : ibid., f. 8r.

O padre Andrea Bionima ... : ibid., f. 11v.

Giovanni Povoledo ... : ibid., f. 5r. Como é sabido, nesse período o termo luterano tinha um sentido muito genérico na Itália.

Uns havia trinta , quarenta anos ... : ibid., f. 4 v (Giovanni Povoledo); f. 6v (Giovanni Antonio Melchiori, que não deve ser confundido com Giovanni Daniele Melchiori, vigário de Polcenigo); f. 2v (Francesco Fasseta).

Daniele Fasseta ... : ibid., f. 3r.

Muitos anos : ibid., f. 13r (Antonio Fasseta); f. 5v (Giovanni Povoledo, que disse num primeiro momento conhecer Menocchio havia quarenta anos e, em seguida, havia 25 ou trinta). A única lembrança que pode ser datada com precisão é a que segue, de Antonio Fasseta (f. 13r): “Voltando certa vez da montanha com Menocchio ao mesmo tempo que a imperatriz passava, falando sobre ela, disse: ‘Esta imperatriz é mais

Á

poderosa que a Virgem Maria’. Ora, a imperatriz Maria da Áustria esteve no Friuli em 1581 (v. G. F. Palladio degli Olivi, Historie della Provincia del Friuli (Udine, 1660), II : 208).

As pessoas repetiam ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 6r etc.

Eu o vejo conversando ... : ibid., proc. n. 285, depoimento do padre Curzio Cellina, 17 de dezembro de 1598, folha não numerada.

Já fazia quatro anos que Menocchio ... : ibid., proc. n. 126, f. 18v.

Não posso me lembrar ... : ibid., f. 14r.

Fora o próprio Vorai : ele mesmo lembrou o Santo Ofício disso quando depôs em 1 o de junho de 1584 (v. ibid., proc. n. 136), lamentando-se de não tê-lo feito antes.

Por um outro padre , dom Ottavio ... : ibid., proc. n. 284, folha não numerada (depoimento de 11 de novembro de 1598).

Que papa ... : ibid., proc. n. 126, f. 10r.

Deve ... se contrapor ... : v. um caso análogo friulano citado por G. Miccoli, “La storia religiosa”, in Storia d’Italia (Turim, 1974), v. II , t. I : 994.

Desmesuradamente : v. ACAU , proc. n. 126, f. 10r.

Cada um faz o seu dever ... : ibid., f. 7v.

O ar é Deus ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 3r (Daniele Fasseta); f. 8r (Giuliano Stefanut); f. 2r (Francesco Fasseta); f. 5r (Giovanni Povoledo); f. 3v (Daniele Fasseta).

Está sempre discutindo ... : ibid., f. 11v (padre Andrea Bionima).

Giovanni Daniele Melchiori : ibid., proc. n. 134, depoimento de 7 de maio de 1584. Sobre o processo ocorrido anteriormente contra Melchiori, sobre suas relações com Menocchio, v. cap. 37. Tanto Melchiori como Policreto foram processados pelo Santo Ofício (respectivamente em março e em maio de 1584) sob a acusação de terem tentado in uenciar com suas sugestões a causa contra Menocchio: v. ACAU , proc. n. 134 e proc. n. 137. Ambos se declararam inocentes. Foi imposto a Melchiori que se mantivesse à disposição do tribunal e o caso acabou aí; a Policreto foi imposta uma punição canônica. A favor de Policreto testemunharam o magistrado de Pordenone, Gerolamo de’ Gregori, personagens da nobreza local, como Gerolamo Popaiti. Existem evidências de que Policreto fosse ligado à família Mantica-Montereale, à qual pertenciam também os senhores de Montereale: em 1583 foi nomeado árbitro (sucedendo na função o pai, Antonio) numa briga entre Giacomo e Giovan Battista Mantica, de um lado, e Antonio Mantica, do outro (v. BCU , ms. n. 1042).

p. 36 Levassem algemado : v. ACAU , proc. n. 126, f. 15v.

3

É verdade que : ibid., ff. 16r-v.

Eu dizia ... : ibid., ff. 17v-r.

Pudesse ter dito qualquer coisa do gênero : ibid., f. 6r (Giovanni Povoledo).

4

Falando sério : ibid., ff. 2v-3r. As manifestações de heterodoxia religiosa vindas de pessoas incultas eram frequentemente consideradas manifestações de loucura: v., por exemplo, Miccoli, La vita religiosa , op. cit., pp. 994-5.

Dentro de sua razão : v. ACAU , proc. n. 126, f. 6v.

Ziannuto ... : ibid., proc. n. 136, depoimento de 14 de maio de 1584, folhas não numeradas.

Cem , 150 anos depois ... : v. Foucault, Folie et déraison , op. cit., pp. 121-2 (caso de Bonaventure Forcroy), p. 469 (em 1733, um homem esteve trancado como louco no hospital de Saint-Lazare, acometido de “sentiments extraordinaires”).

5

A carta de Ziannuto ao advogado Trappola e a que foi escrita pelo pároco, aceitando sugestão de Ziannuto, fazem parte do fascículo do primeiro processo contra Menocchio ( ACAU , proc. n. 126). As versões (previsivelmente diversas, mas não contraditórias) fornecidas por Ziannuto e pelo pároco das circunstâncias sob as quais a carta foi escrita pertencem, por sua vez, ao processo contra o próprio pároco (proc. n. 136). Os crimes atribuídos a Vorai, além de ter escrito a Menocchio, sugerindo-lhe uma linha de defesa, foram: ter esperado dez anos para denunciar Menocchio ao Santo Ofício, apesar de considerá-lo herético; ter a rmado, em conversa com Nicolò e Sebastiano, condes de Montereale, que a igreja militante, mesmo sendo governada pelo Espírito Santo, pode errar. O processo — muito breve — foi concluído com a purgação canônica do réu. No interrogatório de 19 de maio de 1584, o pároco declarara, entre outras coisas: “Eu decidi escrever a carta temendo pela minha vida. Os

lhos do Scandella, quando passavam por mim, se mostravam alterados, não me

cumprimentavam mais como de costume, e até fui avisado por amigos de que deveria tomar cuidado, porque se comentava que fora eu quem denunciara o anteriormente citado Domenego e poderiam fazer alguma coisa contra mim...” . Entre os que haviam acusado Vorai de delação estava Sebastiano Sebenico, o mesmo que aconselhara Ziannuto a espalhar pela cidade que Menocchio era louco ou possesso (v. cap. 4).

Atribuiu-as a Domenego Femenussa : a atribuição parece ter sido sugerida por Ziannuto: v. n. 126, f. 38v.

Senhor ... : ibid., f. 19r.

Consta no processo : ibid.

Segundo Giuliano Stefanut : ibid., f. 8r.

Eu disse ... : ibid., f. 19r.

Tente falar pouco ... : ibid., proc. r. 134, depoimento de 7 de maio de 1584.

Frei Felice da Montefalco : v. Ginzburg, I benandanti , op. cit., Índice.

O con ito entre os dois poderes ... : v. P. Paschini, V enezia e l’Inquisizione Romana da Giulio III a Pio IV (Pádua, 1959), p. 51 ss.; A. Stella, Chiesa e Stato nelle relazioni dei nunzi ponti ci a Venezia (Cidade do Vaticano, 1964), principalmente pp. 290-1.

Disse para mim ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 3r.

Domenego disse ... : ibid., f. 4r.

É verdade , eu disse ... : ibid., f. 27v.

6

Na minha opinião ... : ibid., ff. 27v-28v.

Querem passar por deuses na terra : v. Salmos, LXXXI : 6.

Sobre o casamento ... : aqui Menocchio manifesta toda a sua insatisfação quanto à regulamentação dos matrimônios introduzida pelo concílio de Trento: v. A. C. Jemolo, “Riforma tridentina nell’ambito matrimoniale”, in Contributi alla storia del Concilio di Trento e della Controriforma (1948), I : 45 ss. (Quaderni di Belfagor).

Geralmente se referia à con ssão ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 11v.

Se esta árvore ... : ibid., f. 38r.

Pela Virgem Maria : ibid., f. 6v.

Não vejo ali nada mais : ibid., f. 11v.

Eu disse ... : ibid., f. 18r.

O bom do sacramento ... : ibid., ff. 28r-v.

Acho que a Sagrada Escritura ... : ibid., ff. 28v-29r.

Ele me disse também ... : v. ibid., f. 2v.

Eu acho que os santos ... : v. ibid., f. 29r.

Ele ajudou ... : v. ibid., f. 33r (me corrigindo, é “Cristo” e não “Deus”).

Da mesma natureza ... : v. ibid., f. 17v.

Se alguém tem pecados ... : v. ibid., f. 33r.

Falaria tanto ... : v. ibid., f. 4r.

Nunca discuti ... : v. ibid., ff. 26v-27r.

Falar muito ... : v. ibid., f. 3r.

Senhores , eu vos peço ... : v. ibid., ff. 29v-30r.

Na sessão anterior ... : v. ibid., f. 30r.

7

Sobre o Friuli deste período, além de P. Paschini, Storia del Friuli (Udine, 1954), II , que trata só dos acontecimentos políticos, v. principalmente os numerosos estudos de P. S. Leicht: “Un programma di parte democratica in Friuli nel Cinquecento”, in Studi e frammenti (Udine, 1903), pp. 107-21; “La rappresentanza dei contadini presso il veneto Luogotenente della Patria del Friuli”, ibid., pp. 125-44; “Un movimento agrario nel Cinquecento”, in Scritti vari di storia del diritto italiano (Milão, 1943), I : 73-91; “Il parlamento friulano nel primo secolo della dominazione veneziana”, in Rivista di storia del diritto italiano (1948), XXI : 5-50; “I contadini ed i Parlamenti dell’età intermedia”, in IX e Congrès International des Sciences Historiques ... Études présentées à la Commission Internationale pour l’histoire des assemblées d’états (Louvain, 1952), pp. 125-8. Entre os trabalhos mais recentes, v. em primeiro lugar A. Ventura, Nobiltà e popolo nella società veneta del ’400 e ’500 (Bari, 1964), principalmente pp. 187-214; v. também A. Tagliaferri, Struttura , op. cit.

Servidão de mesnada : v. A. Battistella, “La servitú di masnada in Friuli”, in Nuovo archivio veneto , XI (1906), parte II , pp. 5-62; XII (1906), parte I , pp. 169-91, parte I , pp. 320-31; XIII (1907), parte I pp. 171-84, parte II , pp. 142-57; XIV (1907), parte I , pp. 193-208; XV (1908), pp. 225-37. Os últimos vestígios de tal instituição desapareceram por volta de 1460, mas nos estatutos friulanos do século seguinte continuavam a aparecer sentenças do tipo De nato ex libero ventre pro libero reputando (com a declaração correspondente “Quicumque vero natus ex muliere serva conseatrer et sit servus cuius est mulier ex qua natus est, etiam si pater eius sit liber”) ou De servo communi manumissio . V. também G. Sassoli de Bianchi, “La scomparsa dela servitú di masnada in Friuli”, in Ce fastu? (1956), 32: 145-50.

Nas mãos dos lugares-tenentes venezianos : v. Relazioni dei rettori veneti in Terraferma , I : La Patria del Friuli ( luogotenenza di Udine ) (Milão, 1973). (V. sobre essa edição a resenha de M. Berengo, in Rivista storica italiana [1974], LXXXVI : 586-90.)

Era 1508 ... : v. G. Perusini, Vita di popolo in Friuli: Patti agrari e consuetudini tradizionali (Florença, 1961), pp. XXI-XXII (Biblioteca di “Lares”, VIII ).

Sobre os acontecimentos de 1511 , v. Leicht, “Un movimento agrario”, op. cit., e Ventura, Nobiltà e popolo , op. cit.

Sobre a Contadinanza , v. o mesmo Leicht, “La rappresentanza dei contadini”, op. cit. Sente-se a falta de um estudo moderno sobre o assunto.

Os estatutos da Patria ... : v. Constitutiones Patrie Foriulii cum additionibus noviter impresse (Veneza, 1524), ff. LXV , LXVIIIV . Os mesmos artigos reaparecem na edição de 1565.

Caía ... a cção jurídica ... : v. Leicht, “I contadini ed i Parlamenti”, op. cit., que destaca a excepcionalidade do caso friulano: em nenhuma outra parte da Europa, realmente, a representação dos camponeses é colocada lado a lado com o Parlamento ou Assembleia dos Estados.

A lista das providências ... : v. Leggi per la Patria , op. cit., p. 638 ss., 642 ss., 207 ss.

Tentou transformar as taxas ... : v. Perusini, Vita di popolo , op. cit., p. XXVI , e em geral Giorgetti, Contadini e proprietari , op. cit., p. 97 ss.

A população total ... diminuiu : v. Tagliaferri, Struttura , op. cit., p. 25 ss. (com bibliogra a).

Os relatórios dos lugares-tenentes : v. Relazioni, op. cit., pp. 84, 108, 115.

A decadência de Veneza : v. Aspetti e cause della decadenza economica veneziana nel secolo XVII (Veneza-Roma, 1961); Crisis and Change in the Venetian Economy in the Sixteenth and Seventeenth Centuries , org. B. Pullan (Londres, 1968).

8

Uma imagem claramente dicotômica : v. o belo livro de S. Ossowski, Struttura di classe e coscienza sociale , trad. ital. (Turim, 1966), principalmente p. 23 ss.

E me parece que ... : v. ACAU , proc. n. 126, ff. 27v-28r.

Tudo pertence à Igreja ... : v. ibid., f. 27 v.

Um censo feito em 1596 ... : v. ASP , Notarile , b. 488, n. 385, ff. 17r ss., principalmente f. 19v. Infelizmente, não temos um inventário dos bens eclesiásticos existentes no Friuli do período, como o extremamente analítico redigido em 1530 por ordem do lugar-tenente Giovanni Basadona (v. BCU , ms. 995). Nas ff. 62v-64v há uma lista dos inquilinos da igreja de Santa Maria de Montereale, e não aparece entre eles o nome de Scandella.

No nal do século XVI ... a extensão das propriedades eclesiásticas ...: v. A. Stella, “La proprietà ecclesiastica nella Repubblica di Venezia dal secolo XV al XVII ”, in Nuova rivista storica (1958), XLII : 50-77; A. Ventura, “Considerazioni sull’agricoltura veneta e sull’accumulazione originaria del capitale nei secoli XVI e XVII ”, in Studi storici (1968), IX : 674-722, e, em geral, o importante ensaio de Chittolini, “Un problema aperto”, op. cit., p. 353-93.

9

Eu acredito que seja luterano ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 27r. Sobre a questão do compadre de Menocchio que se ofereceu como ador, v. cap. 50.

Os luteranos ... : v. ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas.

No complexo quadro religioso ... : a bibliogra a é obviamente extensa. Sobre as tendências radicais em geral, v. G. H. Williams, The Radical Reformation (Filadél a, 1962). Sobre o anabatismo, v. C.-P. Clasen, Anabaptism , A Social History ( 1525-1618 ): Switzerland , Austria , Moravia , South and Central Germany (Ithaca-Londres, 1972). Para a Itália, ver a rica documentação levantada por A. Stella, Dall’Anabattismo al socinianesimo nel Cinquecento veneto (Pádua, 1967), e id., Anabattismo e antitrinitarismo in Italia nel XVI secolo (Pádua, 1969).

Continuar: parte 2 de 3