O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 24 de 62

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O Queijo e os Vermes

23. Os três anéis

Portanto, através das Viagens de Mandeville, essa inocente narração intrincada de elementos fabulosos, traduzida e reimpressa inúmeras vezes, um eco da tolerância religiosa medieval chegava até a idade das guerras religiosas, das excomunhões, da queima dos heréticos. Era provavelmente apenas um dos múltiplos canais que alimentavam a corrente popular — até hoje muito pouco conhecida — favorável à tolerância, cujas pistas, raras, se podem distinguir no decorrer do século XVI. Outro canal consistia no persistente sucesso da lenda medieval dos três anéis.

 

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Menocchio, tomando conhecimento dessa lenda, cou tão perturbado que passou a contá-la detalhadamente, durante o segundo processo (12 de julho de 1599), ao inquisidor que o estava julgando, desta vez o franciscano Gerolamo Asteo. Depois de admitir que havia dito no passado (“mas não sei a quem”) que “nascera cristão e que por isso queria continuar cristão, mas, se tivesse nascido turco, ia querer continuar turco”, Menocchio acrescentou: “Conceda-me a graça de me ouvir, senhor. Um grande senhor declarou seu herdeiro aquele que tivesse um certo anel precioso; aproximando-se da morte, mandou fazer outros dois anéis parecidos com o primeiro e, como tinha três lhos, deu a cada um deles um anel. Cada um deles julgava ser o herdeiro e ter o verdadeiro anel, mas, dada a semelhança, não se podia saber ao certo. Do mesmo modo, Deus possui vários lhos que ama, isto é, os cristãos, os turcos e os judeus, e a todos deu a vontade de viver dentro da própria lei e não se sabe qual seja a melhor. Mas eu disse que, tendo nascido cristão, quero continuar cristão e, se tivesse nascido turco, ia querer viver como turco”. “O senhor acredita então”, insistiu o inquisidor, “que não se saiba qual seja a melhor lei?” Menocchio respondeu: “Senhor, eu penso que cada um acha que a sua fé seja a melhor, mas não se sabe qual é a melhor; mas, porque meu avô, meu pai e os meus são cristãos, eu quero continuar cristão e acreditar que essa seja a melhor fé”.

É um momento extraordinário num processo como esse, extraordinário do início ao m. Os papéis se inverteram

provisoriamente, Menocchio tomou a iniciativa e tentou convencer o juiz: “Conceda-me a graça de me ouvir, senhor”. Quem representa o papel da cultura dominante? E quem representa a cultura popular? Não é fácil responder. A forma pela qual Menocchio se utilizara da semelhança entre os três anéis tornava a situação ainda mais paradoxal. Ele declarou tê-la lido “não sei em que livro”. Só no interrogatório seguinte o inquisidor percebeu de que livro se tratava: “Está num livro proibido”. Quase um mês depois, Menocchio confessou o título: “Li no livro Cento novelle , de Boccaccio”, que lhe fora emprestado por “Nicolò de Melchiori” — possivelmente o tal pintor Nicola da Porcia, com quem, segundo uma testemunha, vimos, Menocchio tinha “aprendido as heresias”.

Tudo o que vimos até agora demonstra que Menocchio não reproduzia simplesmente opiniões e teses de outros. Seu modo de lidar com os livros, suas a rmações deformadas e trabalhosas são sem dúvida sinais de uma reelaboração original. É evidente que esta não partira do nada. Cada vez com mais nitidez, vemos como ali se encontram, de modos e formas a serem ainda precisados, correntes cultas e correntes populares. Talvez tenha sido Nicola da Porcia quem colocou nas mãos de Menocchio, além do Sogno dil Caravia , um exemplar do Decameron . Mas esse livro, ou ao menos parte dele — o terceiro conto do primeiro dia, no qual é contada a lenda dos três anéis —, causou profunda impressão em Menocchio. Como ele reagia aos outros contos de Boccaccio infelizmente não sabemos. É provável que sua atitude religiosa, tão contrária às limitações confessionais, tenha encontrado con rmação no conto do judeu Melquisedeque. Porém, justamente a página de Boccaccio sobre a lenda dos três anéis havia sofrido o corte da censura contrarreformística, notoriamente muito mais atenta às passagens perigosas no plano religioso do que a presumíveis obscenidades. Na verdade, Menocchio deve ter lido uma edição mais antiga, ou que não houvesse sido vítima das intervenções dos censores. Assim, o choque entre Gerolamo Asteo, inquisidor e canônico, e o moleiro Domenico Scandella, conhecido por Menocchio, a respeito do conto dos três anéis e sua exaltação à tolerância foi, de alguma forma, simbólico. A Igreja católica nesse período combatia em duas frentes: contra a cultura erudita velha e nova, irredutível aos esquemas contrarreformísticos, e contra a cultura popular. Entre esses dois inimigos tão diversos às vezes existiam, como vimos, convergências subterrâneas.

A resposta de Menocchio à pergunta do inquisidor — “O senhor acredita então que não se saiba qual seja a melhor lei?” — foi sutil: “Senhor, eu p enso que cada um acha que a sua fé seja a melhor , mas não se sabe qual é a melhor ...”. Era a tese dos fautores da tolerância, tolerância que Menocchio estendia — como Castellione — não só às três grandes religiões históricas, mas também aos heréticos. E assim, como nos teóricos contemporâneos, a posição de Menocchio acerca da tolerância tinha um conteúdo positivo: “A majestade de Deus distribuiu o Espírito Santo para todos: cristãos, heréticos, turcos, judeus, tem a mesma consideração por todos, e de algum modo todos se salvarão”. Mais do que tolerância em sentido estrito, tratava-se do reconhecimento explícito da equivalência de todas as fés, em nome de uma religião simpli cada, sem caracterizações dogmáticas ou confessionais. Algo parecido com a fé no “Deus da natureza” que Mandeville encontrara em todas as populações, até nas mais remotas, mais disformes e monstruosas — mesmo que, como veremos, Menocchio tenha de fato rejeitado a ideia de um Deus criador do mundo.

Porém, em Mandeville tal reconhecimento era acompanhado pela rea rmação da superioridade da religião cristã contra a verdade parcial das outras religiões. Pela enésima vez, portanto, Menocchio tinha extrapolado os textos. Seu radicalismo religioso, embora tendo ocasionalmente se nutrido de temas da tolerância medieval, ia muito mais ao encontro das so sticadas teorizações religiosas dos heréticos contemporâneos de formação humanista.