O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 51 de 62

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O Queijo e os Vermes

52. “Fantasias”

Desta vez foi longe demais — deve ter pensado o inquisidor. Por volta do m de junho de 1599, Menocchio foi preso e con nado no cárcere de Aviano. Algum tempo depois foi transferido para Portogruaro. Em 12 de julho compareceu diante do inquisidor, frade Gerolamo Asteo, do vigário de Concórdia, Valerio Trapola, e do magistrado do lugar, Pietro Zane.

 

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“Eductus e carceribus quidam senex...” (retirado da prisão um velho...), anotou o escrivão. Quinze anos eram passados desde que Menocchio fora interrogado pela primeira vez pelo Santo Ofício. E passara três deles na prisão. Nessa altura já estava velho: magro, cabelos brancos, barba grisalha, sempre vestido como moleiro — túnica e gorro cinza-claro. Tinha 67 anos. Depois da condenação, exercera diversas pro ssões: “Fui marceneiro, moleiro, hospedeiro, dei aula de ábaco, ensinei crianças a ler e a escrever e também toquei violão nas festas”. Quer dizer, tentara se manter fazendo uso de suas aptidões — inclusive saber ler e escrever, que havia contribuído para pô-lo em di culdades. Ao inquisidor que lhe perguntara se não fora interrogado pelo Santo Ofício anteriormente, respondeu: “Fui chamado [...] e fui interrogado sobre o Credo e outras fantasias que me passaram pela cabeça por ter lido a Bíblia e por ter inteligência aguçada; mas sempre fui e permaneço cristão”.

O tom era evasivo — “fantasias” —, acompanhado da orgulhosa consciência costumeira das próprias aptidões intelectuais. Explicou detalhadamente ter cumprido as penitências que lhe foram impostas, ter confessado e comungado e ter deixado Montereale apenas com a permissão dos inquisidores. Em relação ao hábito, desculpou-se: “Eu juro pela minha fé que às vezes eu o usava e outras não; nos dias de inverno, quando fazia frio, eu o usava sempre, mas por baixo da roupa”, e isso porque quando “usava-o, perdia meu sustento, não sendo chamado para certas tarefas e para trabalhos [...] porque os homens me tomavam por excomungado quando me viam com aquela roupa. Por isso eu não usava”. Suplicara inutilmente ao padre inquisidor: “Não quis me dar a licença para abandonar o hábito”.

Porém, quando lhe perguntaram se ainda tinha dúvidas sobre as questões pelas quais fora condenado, não soube mentir. Em vez de negar peremptoriamente, admitiu: “Muitas fantasias me passaram pela cabeça, mas eu nunca prestei muita atenção e nem sequer ensinei o mal a alguém”. E ao inquisidor que o pressionava perguntando se “não tinha alguma vez discutido sobre artigos da fé com alguém; quem eram eles? quando? onde?”, respondeu ter falado “sobre artigos da santa fé com alguns, por brincadeira, mas realmente não sei com quem, nem onde, nem quando”. Uma resposta incauta. O inquisidor o repreendeu com severidade: “Como ‘brincar’ com as coisas da fé? É justo brincar com coisas da fé? O que é que entende por ‘brincar’?”. “Falando mentiras” — objetivou sem entusiasmo Menocchio. “Quais mentiras? Fale com clareza!” “Eu verdadeiramente não saberia repeti-las.”

Mas o inquisidor insistia nas perguntas. “Não sei”, disse Menocchio, “alguém poderia ter interpretado mal, mas eu nunca senti nada contrário à fé.” Tentou rebater todos os golpes, um por um. Não dissera que Cristo não fora capaz de descer da cruz: “Eu acredito que Cristo tivesse poder para descer”. Não dissera que não acreditava no Evangelho: “Eu acredito que o Evangelho seja a verdade”. E aqui deu mais um passo em falso: “Eu disse que os padres e frades, que estudaram, zeram o Evangelho através da boca do Espírito Santo”. O inquisidor, fulminante: dissera isso realmente? quando? onde? para quem? e quem eram os tais frades? Menocchio, exasperado: “Os senhores querem que eu saiba sobre a fé o que eu não sei”. “Por que falou se não sabia?” “O diabo algumas vezes nos tenta para dizer alguma palavra...”

Mais uma vez Menocchio tentava atribuir ao diabo suas dúvidas, seu tormento, para em seguida, todavia, revelar um ponto de vista racional. No Supplementum , de Foresti, lera que “vários zeram os Evangelhos, como são Pedro, são Tiago e outros, mas foram suprimidos pela justiça”. Mais uma vez, a força corrosiva da analogia pusera-se em ação em sua mente. Se alguns Evangelhos são apócrifos, obra humana e não divina, por que não seriam todos os outros? Dessa maneira, a oravam todas as implicações da a rmação defendida quinze anos antes, isto é, que a Escritura era redutível a “quatro palavras”. Evidentemente, durante todo esse tempo, continuara a seguir o o de suas velhas ideias. E agora, mais uma vez, se apresentava a possibilidade de exprimi-las a quem (pensava ele) era capaz de entendê-las. Cegamente esqueceu toda prudência, toda cautela: “Eu acredito que Deus tenha feito todas as coisas, terra, água e ar”. “Mas e o fogo, onde é que o metemos”, interviu com irônica superioridade o vigário do bispo de Concórdia, “por quem é que foi feito?” “O fogo está em todos os lugares, como Deus, mas os outros três elementos são as três pessoas: o Pai é o ar, o Filho a terra e o Espírito Santo a água.” E acrescentou: “Eu acho que seja assim, mas não sei se é a verdade, e acredito que os espíritos que estão no ar combatem entre eles e que os raios sejam sua raiva”.

Assim, Menocchio, em sua trabalhosa viagem de volta no tempo, reencontrava sem saber, além da imagem cristã do cosmo, a dos antigos lósofos gregos. Esse Heráclito camponês descobrira no fogo, extremamente móvel e indestrutível, o elemento primordial. A realidade toda, para Menocchio, era permeada por ele (“está em todos os lugares”): uma realidade unitária, apesar das muitas manifestações, cheia de espíritos, embebida de divindade. Por isso a rmava que Deus era o fogo. Menocchio também havia imaginado uma correspondência capciosa, detalhada, entre os outros três elementos e as pessoas da Trindade: “Eu acredito que o Pai seja o ar, porque o ar é elemento mais alto que a terra e a água; acho que o Filho seja a terra, porque o Filho é produto do Pai; e assim como a água vem do ar e da terra, assim o Espírito Santo vem do Pai e do Filho”. Porém, por trás desse paralelismo, que era imediatamente renegado com uma prudência tardia e inútil (“mas eu não pretendo sustentar essas coisas”), a orava a convicção mais profunda de Menocchio: Deus é uno, e ele é o mundo. E sobre esse ponto o inquisidor fez vibrar seu ataque: quer dizer então que acreditava que Deus tivesse um corpo? “Eu sei que Cristo tinha corpo” —, replicou Menocchio, evasivo. Ganhar de um interlocutor como esse não era fácil. De seu arsenal escolástico, sacou um silogismo. “O senhor disse que o Espírito Santo é água; a água é corpo, portanto, conclui-se que o Espírito Santo tem corpo?” “Eu digo essas coisas por comparação” — respondeu Menocchio, talvez até mesmo com uma ponta de pretensão: ele também sabia discutir, sabia se servir dos instrumentos da lógica e da retórica.

Então o inquisidor voltou ao ataque: “No processo aparece que o senhor disse que Deus não é nada mais que o ar”. “Eu não me lembro de ter dito isso, mas disse sim que Deus é todas as coisas.” “Acredita que Deus seja todas as coisas?” “Meus senhores, eu realmente acredito nisso.” Mas em que sentido? O inquisidor não entendia bem. “Eu acredito que Deus seja tudo o que quiser” — explicou Menocchio. “Deus pode ser uma pedra, uma serpente, o diabo ou coisas semelhantes?” “Deus pode ser tudo o que é bom.” “Portanto, Deus poderia ser uma criatura, já que as criaturas são boas?”