O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 42 de 62

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O Queijo e os Vermes

43. Fim dos interrogatórios

e nos salva do perigo;

trigo seco traz consigo

pois só nos mantemos com

o belo pão branco e bom.

 

Esse contraste em versos nos dá o contraponto realístico das hiperbólicas fantasias sobre o país da Cocanha. Diante das “raízes várias e estranhas”, “o belo pão branco e bom”, comido em companhia nos períodos de abundância, é uma “festa”. “É como estar numa festa” — fora o que Menocchio dissera sobre o paraíso: uma festa que não acabasse mais, livre da oscilação periódica entre “escuridão e luz”, carestia e abundância, quaresma e carnaval. O país da Cocanha, para lá do Oceano, era também uma grande festa. Talvez o “mundo novo” desejado por Menocchio fosse parecido.

De qualquer modo, as palavras de Menocchio trazem por alguns momentos à tona as profundas raízes populares da utopia, tanto cultas como plebeias, frequentemente consideradas meros exercícios literários. Talvez essa imagem de um “mundo novo” contivesse algo de muito velho, ligado a uma memória mítica de uma remota era de bem-estar. Quer dizer, não rompia a imagem cíclica da história humana, o que era de esperar de uma época que via rmarem-se os mitos da Re nascença, da Re forma, da Nova Jerusalém. Não podemos excluir nada disso. Todavia, permanece o fato de que a imagem de uma sociedade mais justa era projetada de maneira consciente num futuro não escatológico. Não o Filho do Homem no alto, sobre as nuvens, mas homens como Menocchio — os camponeses de Montereale que ele tentara inutilmente convencer, por exemplo —, através de sua luta, deveriam ser os mensageiros do “mundo novo”.

 

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Os interrogatórios terminaram em 12 de maio. Menocchio foi levado mais uma vez para o cárcere. Alguns dias se passaram. Por

m, em 17 de maio recusou o advogado que lhe fora oferecido e entregou uma longa carta aos juízes, na qual pedia perdão pelos erros do passado — a mesma carta que lhe fora inutilmente pedida, três meses antes, pelo lho.