O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 38 de 62

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O Queijo e os Vermes

39. O paraíso

Parece impossível — talvez até mesmo inútil — tentar se orientar nesse emaranhado de palavras. Contudo, por trás das contradições verbais que cercavam Menocchio, havia uma contradição efetiva.

 

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Ele não conseguia deixar de pensar numa vida pós-morte. É verdade que o homem, morrendo, retorna aos elementos dos quais é composto, mas uma aspiração irreprimível levava-o a imaginar alguma forma de sobrevivência depois da morte. Por isso, xara-se na complicada contraposição entre a “alma” mortal e o “espírito” imortal. Pela mesma razão a hábil pergunta do vigário-geral — “disse [...] que Deus é ar, água, terra e fogo; como então as almas retornam à majestade de Deus?” — deixara-o mudo, justamente ele, sempre tão pronto a replicar, discutir, divagar. É evidente que a ressurreição da carne lhe parecia absurda, insustentável: “Senhor, eu não acredito que possamos ressuscitar com o corpo no dia do Juízo, o que me parece impossível, porque, se ressuscitássemos, céu e terra cariam cobertos pelos corpos. A majestade de Deus verá nossos corpos com o intelecto, da mesma forma que nós, fechando os olhos e querendo criar uma coisa, usamos a mente e o intelecto”. O inferno lhe parecia uma invenção de padres: “Eu gosto que se pregue para os homens viverem em paz, mas pregar o inferno, Paulo disse isso, Pedro disse aquilo, acho que é mercadoria, invenção de homens que sabem mais do que os outros. Li na Bíblia que Davi escreveu os salmos enquanto estava sendo perseguido por Saul” — acrescentou, tentando dar a entender que o verdadeiro inferno é aqui, nesta terra. Mas, em seguida, contraditoriamente, admitia a validade das indulgências (“acredito que sejam boas”) e das orações pelos mortos (“porque Deus lhe[s] dá uma pequena vantagem e o[s] ilumina um pouco mais”). Fantasiava em especial sobre o paraíso: “Eu acredito que seja um lugar que circunde o mundo inteiro e que dali se vejam todas as coisas do mundo, até mesmo os peixes do mar: e quem está ali é como se estivesse numa festa...”. O paraíso é uma festa — o m do trabalho, a negação do cansaço diário. No paraíso, “intelecto, memória, vontade, pensamento, crença, fé e esperança”, isto é, “as sete coisas [...] dadas ao homem por Deus, como um carpinteiro que, querendo fazer suas obras, usa o machado e a serra, a lenha e outros instrumentos, assim Deus deu algumas coisas ao homem, para este fazer sua tarefa”, são inúteis: “Lá em cima não são necessárias”. No paraíso a matéria se torna dócil, transparente: “Os olhos corporais não podem ver todas as coisas, mas com os olhos da mente todas as coisas serão transpassadas, montes, muralhas, todas as coisas...”.

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