O Queijo e os Vermes
22. “Deus da natureza”
22
Entretanto, a insistência na variedade das leis e dos costumes era apenas um dos polos da narração de Mandeville. No polo oposto, encontrava-se o reconhecimento de um elemento que permanecia virtualmente constante em meio a tanta diversidade: a racionalidade, sempre acompanhada pela fé num Deus autor do mundo, um “Deus da natureza”. Depois de ter falado dos adoradores de ídolos e imagens da ilha de Chana, Mandeville detalhava: “E saibam que quem adora imagens, o faz em reverência a algum homem valente já morto, como Hércules e muitos outros que no tempo deles zeram maravilhas; mas eles dizem saber que tais valentes não são deuses, ou melhor, existe um Deus da natureza que fez todas as coisas e sabem muito bem que aqueles não poderiam fazer as maravilhas que zeram senão pela especial graça de Deus. E como aqueles foram amados por Deus, eles os adoram. Dizem coisa parecida sobre o sol, que muda o tempo e fornece calor e nutrição para todas as coisas sobre a terra, mas tantas virtudes do sol eles sabem muito bem que advêm de Deus, que o ama mais do que a todas as outras coisas, e lhes doou as maiores virtudes. Portanto, é compreensível, como dizem, que seja honrado e reverenciado...”.
“Compreensível.” Com um tom de sóbrio distanciamento, quase etnográ co, Mandeville registra realidades ou crenças exóticas, mostrando como por trás de suas monstruosidades ou absurdos se ocultava um núcleo racional. É verdade que os habitantes da ilha de Chana adoravam uma divindade que era metade boi, metade homem. Porém, eles consideravam o boi “o mais santo entre os animais que existem sobre a terra e, entre todos os outros, o mais útil”, enquanto o homem “é a mais nobre das criaturas e senhor de todos os animais”. Mas os cristãos também não atribuíam supersticiosamente qualidades bené cas ou malévolas a determinados animais? “Então não há por que se maravilhar se os pagãos, os quais, dada a sua simplicidade, não têm outra doutrina a não ser a natural, acreditam mais profundamente naqueles.” Os habitantes da ilha Hongamara (informa Mandeville) possuem, todos, homens e mulheres, “cabeça de cão e são chamados cinocéfalos” — mas em seguida acrescenta: “e são pessoas razoáveis e de bom intelecto”. Por isso, no capítulo nal do livro, na conclusão da narrativa de suas viagens extraordinárias, Mandeville podia declarar de maneira solene aos leitores: “[...] e saibam que em todo aquele país [Catai] e em todas as ilhas com gente diferente e diversas leis e fé, as quais descrevi, não há ninguém ali, possuidor de intelecto e razão, que não tenha ao menos um artigo da nossa fé e algum ponto importante da nossa crença, e que não acredite que o mundo foi criado por Deus, a quem chamam Iretarge , isto é, Deus da natureza, segundo disse o profeta: ‘ et metuent eum omnes
nes terrae ’, e em outro lugar, ‘ omnes gentes serviet ei etc. ’; mas eles não sabem falar perfeitamente de Deus Pai nem Filho e nem Espírito Santo, nem sabem falar da Bíblia, especialmente do Gênese e dos outros livros de Moisés, do Êxodo, dos profetas, mas eles não têm ninguém para lhes ensinar, sabem só o que aprenderam naturalmente...”. Mandeville solicitava uma tolerância ilimitada para com esses povos: “[...] e embora essa gente [os habitantes das ilhas Mesidarata e Genosaffa] não tenha artigos de fé iguais aos nossos, pela boa-fé natural deles e pelas suas boas intenções eu penso e tenho certeza de que Deus os ama e aceita de bom grado suas oferendas como fez com Jó. Por essa razão é que Nosso Senhor dizia pela boca do profeta Oseias: ‘ ponam eis multiplices leges meas ’; em outro lugar, na Escritura, está escrito: ‘ qui totum subdit orbem legibus ’. Algo parecido disse Nosso Senhor no Evangelho: ‘ alias oves habeo quae non sunt ex hoc ovili ’, querendo dizer que existem outros servos além dos que estão subordinados à lei cristã [...] não se deve ter ódio nem desprezo por nenhum cristão pela diversidade das suas leis, nem julgá-los; deve-se, isso sim, rezar por eles, porque não sabemos quem Deus ama e quem odeia, embora Deus não odeie criatura alguma que ele tenha feito”.