O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 11 de 62

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O Queijo e os Vermes

9. “Luteranos” e anabatistas

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À primeira vista parece evidente que por trás disso tudo estava o grande golpe desferido contra o princípio de autoridade, no campo não só religioso, como também no político e social, pela Reforma Protestante. Mas quais eram as relações de Menocchio com os grupos conectados com a Reforma e com suas ideias?

“Eu acredito que seja luterano quem siga ensinando o mal e coma carne às sextas e sábados” — explicou Menocchio aos juízes que o interrogavam. Mas decerto era uma de nição simpli cada e deformada propositadamente. Muitos anos depois, no período do segundo processo (1599), soube-se que Menocchio havia dito a um judeu convertido, de nome Simon, que, quando da sua própria morte, “os luteranos vão ser informados e virão buscar as cinzas”. À primeira vista parece tratar-se de um testemunho esclarecedor. Na realidade, não o é. Independentemente da di culdade — sobre a qual falaremos mais adiante — em veri car o fundamento das expectativas de Menocchio, o termo “luterano” é colocado num contexto que con rma o uso generalizado que dele se fazia na época. Segundo Simon, de fato, Menocchio negara qualquer valor ao Evangelho, rejeitara a divindade de Cristo e louvara um livro que talvez fosse o Alcorão. É evidente que estamos muito distantes de Lutero e suas doutrinas. Tudo isso nos induz a retornar ao ponto de partida e recomeçar, procedendo com cautela, passo a passo.

Aquela que poderemos chamar de eclesiologia de Menocchio, reconstruível com base nas a rmações feitas por ele durante os interrogatórios de Portogruaro, tem uma sionomia bem

precisa. No complexo quadro religioso da Europa do século XVI ela nos remete, principalmente e em mais de um ponto, às posições dos anabatistas. A insistência na simplicidade da palavra de Deus, a negação das imagens sacras, das cerimônias e dos sacramentos, a negação da divindade de Cristo, a adesão a uma religião prática baseada nas obras, a polêmica pregando a pobreza contra as “pompas” da Igreja, a exaltação da tolerância, são todos elementos que nos conduzem ao radicalismo religioso dos anabatistas. É verdade que Menocchio não é um defensor do batismo para os adultos. Mas sabe-se que muito cedo os grupos anabatistas italianos chegaram a recusar também o batismo, bem como todos os outros sacramentos, admitindo além disso um batismo espiritual, baseado na regeneração interior do indivíduo. Menocchio, por sua conta, considerava o batismo absolutamente inútil: “Acho que, quando nascemos, já estamos batizados, porque Deus, que abençoa todas as coisas, já nos batizou...”.

O movimento anabatista, depois de ter se alastrado por grande parte da Itália setentrional e central — mas sobretudo no Vêneto —, foi desmantelado na segunda metade do século XVI pela perseguição religiosa e política, seguida da delação de um dos seus chefes. Porém, alguns grupos secretos dispersos sobreviveram clandestinos por algum tempo também no Friuli. Talvez fossem anabatistas, por exemplo, os artesãos de Porcia aprisionados pelo Santo Ofício em 1557, que se reuniam com frequência na casa de um curtidor de peles e de um tecelão de lã para ler a Escritura e falar “da renovação da vida [...], da pureza do Evangelho e da abstenção dos pecados”. Como veremos, é provável que Menocchio, cujas a rmações heterodoxas remontavam, segundo uma testemunha, até mesmo há trinta anos, tivesse entrado justamente em contato com esse grupo.

Todavia, apesar das analogias apontadas, não parece possível de nir Menocchio como um anabatista. O valor positivo que ele formulou a propósito da missa, da eucaristia e também, dentro de certos limites, da con ssão, era inconcebível para um anabatista. Sobretudo um anabatista que via no papa a encarnação do Anticristo, nunca teria dito uma frase como aquela de Menocchio a respeito das indulgências: “[...] acredito que sejam boas, porque, se Deus pôs um homem em seu lugar, que é o papa, e mandou perdoar, isso é bom, porque é como se recebêssemos de Deus, já que são dadas por seu representante”. Tudo isso veio à tona durante o primeiro interrogatório, transcorrido em Portogruaro (28 de abril): a atitude de Menocchio, con ante, chegando mesmo a ser insolente às vezes, nos leva mais uma vez a abandonar a hipótese de que tais a rmações tivessem sido ditadas pela prudência ou pelo cálculo. Além disso, a heterogeneidade dos textos indicados por Menocchio como “fontes” de suas ideias religiosas é o que se pode imaginar de mais distante dos preconceitos rígidos e sectários dos anabatistas. Para estes a única fonte de verdade era a Escritura — ou até o Evangelho, como a rmou, por exemplo, o tecelão de lã que che ava o grupo de Porcia citado acima: “[...] de maneira que não existe nada mais para acreditar além da Escritura, e em parte alguma, além do Evangelho, se encontram coisas sãs”. Para Menocchio, entretanto, a inspiração poderia vir de livros os mais variados: tanto do Fioretto della Bibbia como do Decameron . Concluindo, entre as posições de Menocchio e as dos anabatistas existiam analogias indiscutíveis, embora inseridas em contextos claramente diversos.

Mas, se o anabatismo é insu ciente para explicar o caso de Menocchio, não seria melhor nos curvarmos diante de uma de nição mais genérica? Parece que Menocchio a rmava manter contatos com grupos “luteranos” (termo que designava então uma área de heterodoxia muito ampla): por que não nos contentarmos com o vago parentesco, já notado anteriormente, entre as atitudes de Menocchio e a Reforma?

Na realidade nem mesmo isso parece possível. Entre o inquisidor e Menocchio, a uma certa altura, houve um diálogo signi cativo. O primeiro perguntou: “O que o senhor entende por justi cação?”. Menocchio, sempre pronto a expor suas opiniões, desta vez não entendeu. O frade precisou explicar-lhe quid sit iusti catio e Menocchio negou, como já vimos, que Cristo tivesse morrido para salvar os homens, já que, “se alguém tem pecados, é preciso que faça penitência”. No que diz respeito à predestinação, fez o mesmo discurso. Menocchio ignorava o signi cado dessa palavra e só depois do esclarecimento do inquisidor respondeu: “Eu não acredito que Deus tenha predestinado alguém à vida eterna”. Justi cação e predestinação, os dois temas sobre os quais a discussão religiosa na Itália se acirrara no período da Reforma, não queriam dizer literalmente nada para o moleiro friulano — ainda que, como veremos, ele os tenha encontrado pelo menos uma vez no decorrer de suas leituras.

Isso é mais signi cativo ainda se pensarmos que o interesse por esses temas, na Itália, não cara circunscrito às classes mais altas da sociedade.

 

Carregador, criada e mercenário

fazem do livre-arbítrio anatomia,

fazem torta da predestinação,

 

escreveu, em meados do século XVI , o poeta satírico Pietro Nelli, isto é, messer Andrea da Bergamo. Alguns anos antes, artesãos de couro de Nápoles discutiam apaixonadamente as epístolas de são Paulo sobre a doutrina da justi cação. O eco dos debates acerca da importância da fé e das obras para a salvação transparece mesmo em contextos inesperados, como nas súplicas de uma prostituta dirigidas às autoridades milanesas. Trata-se de exemplos escolhidos ao acaso, que poderiam facilmente se multiplicar. Mas eles têm um elemento em comum: dizem respeito todos, ou quase todos, à cidade. É um indício, entre muitos outros, da profunda separação que já havia muito tempo se veri cara na Itália entre cidade e campo. A conquista religiosa do campo italiano, que os anabatistas teriam talvez tentado se não houvessem sido alijados, quase de imediato, pela repressão política e religiosa, foi efetuada alguns decênios depois, de forma bem diversa, pelas ordens religiosas da Contrarreforma, os jesuítas, em primeiro lugar.

Isso não quer dizer que durante o século XVI o campo italiano

ignorasse por inteiro formas de inquietação religiosa. Porém, por trás do tênue véu que aparentemente ecoava temas e termos das discussões contemporâneas, percebe-se a presença maciça de tradições diversas, muito mais antigas. Qual a relação entre uma cosmogonia como a de Menocchio — o queijo primordial do qual nascem vermes que são os anjos — e a Reforma? Como remeter à Reforma a rmações como as atribuídas a Menocchio por seus conterrâneos: “Tudo o que se vê é Deus e nós somos deuses”; “O céu, a terra, o mar, o ar, o abismo e o inferno, tudo é Deus”? É melhor imputá-las, por enquanto, a um substrato de crenças camponesas, velho de muitos séculos, mas nunca totalmente extinto. A Reforma, rompendo a crosta da unidade religiosa, tinha feito vir à tona, de forma indireta, tal substrato; a Contrarreforma, na tentativa de recompor a unidade, trouxera-o à luz, para expulsá-lo.

Seguindo essa hipótese, as a rmações de tom radical feitas por Menocchio não serão explicadas se remetidas ao anabatismo, ou, pior ainda, a um genérico “luteranismo”. Antes, devemos nos perguntar se elas não fazem parte de um ramo autônomo de radicalismo camponês que o tumulto da Reforma contribuíra para que emergisse, mas que era muito mais antigo do que a Reforma.

 

* Vésperas sicilianas: nome da revolta começada em Palermo (e que se estenderia por boa parte da ilha) em 1282 contra o domínio dos franceses, ligados na-quele momento às pretenses teocráticas do Papado. Tornou-se assim símbolo de um movimento contra o poder estabelecido, político e eclesiástico. (N. R. T.)

** Lista de fogos: levantamento das casas (do latim focus , “lareira”, daí fuoco em italiano e feu em francês) possíveis de serem tributadas num certo local, urbano ou rural. (N. R. T.)

*** En teuse: do grego emphuteuein , “plantar”, designa um tipo de contrato pelo qual o proprietário de um imóvel atribui a outrem o domínio útil sobre ele mediante o pagamento de uma pensão anual xa, em moeda e/ou espécie. Transfere-se também ao locatário direitos de cessão e de hipoteca. (N. R. T.)

 

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