O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 22 de 62

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O Queijo e os Vermes

21. Pigmeus e canibais

Esse quadro da corrupção da cristandade, escrito duzentos anos antes, foi provavelmente lido por Menocchio como um texto contemporâneo e atualíssimo. A avidez dos padres e frades, os privilégios, as prevaricações dos muitos que se diziam seguidores de Cristo estavam debaixo dos seus olhos a cada dia. Nas palavras do sultão, Menocchio pôde encontrar mais uma con rmação e uma legitimação da sua crítica aguda à Igreja e não, com certeza, um motivo de perturbação. Esse deve ser procurado em outro lugar.

 

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“O povo desta terra tem diversas leis; alguns adoram o sol, alguns as árvores, alguns as serpentes e outros a primeira coisa que encontram pela manhã; alguns simulacros, outros ídolos... ”: era o que a rmava Mandeville, quase no início da segunda parte de suas viagens, falando de Chana, uma ilhota próxima da Índia. Aqui encontramos uma referência — repetida, a seguir, muitas vezes — às “diversas leis”, à variedade das crenças e dos costumes religiosos que tanto “confundira” Menocchio. Através dos contos de Mandeville, de suas descrições, na maior parte fantásticas, de terras longínquas, o universo mental de Menocchio se dilatava extraordinariamente. Não mais Montereale, Pordenone e no máximo Veneza, lugares da sua existência de moleiro — mas sim Índia, Catai, ilhas povoadas por canibais, pigmeus, homens com cabeças de cão. E justamente sobre os pigmeus Mandeville escrevera uma página que alcançaria grande sucesso: “É um povo de pequena estatura, cerca de três palmos, homens e mulheres belos e graciosos por causa do tamanho. Casam-se com a idade de seis meses e com dois ou três anos já têm lhos; em geral, não vivem mais que seis ou sete anos e os que chegam a sete são considerados velhíssimos. Esses pigmeus são os mais habilidosos e os melhores mestres no trabalho com a seda, ou algodão e qualquer outra coisa que exista no mundo. Com frequência fazem guerra contra os pássaros do lugar e muitas vezes são mortos e comidos por eles. Essa pequena gente não trabalha na terra, nem tem vinhas, mas existia gente grande como nós que trabalham a terra para eles. Eles [os pigmeus] [...] desprezam-nos assim como nós os desprezaríamos se vivêssemos junto com eles...”

No desprezo dos pigmeus pela “gente grande como nós” concentra-se a estranha sensação provocada em Menocchio por esse livro. A diversidade das crenças e dos costumes registrados por Mandeville levou-o a se interrogar sobre o fundamento de suas próprias crenças, de seu comportamento. Aquelas ilhas, em grande parte imaginárias, lhe deram um ponto de apoio a partir do qual passou a olhar o mundo em que nascera e crescera. “Tantas raças, e [...] tão diversas leis”, “muitas ilhas, cada uma vivendo à sua maneira”, “muitos e diversos tipos de nações, uns acreditando de um modo, outros de outro” — durante o processo, Menocchio insistiu nesse ponto, retornando sempre a ele. Na mesma época, um nobre de Périgord, Michel de Montaigne, sofria um choque relativista análogo lendo os relatórios sobre os indígenas do Novo Mundo.

Mas Menocchio não era Montaigne, era só um moleiro autodidata. Sua vida transcorrera quase exclusivamente entre os muros da aldeia de Montereale. Não sabia grego nem latim (no máximo alguns fragmentos de orações); lera poucos livros, em geral por acaso. Desses, mastigara, triturara cada palavra. Ele os ruminava durante anos; durante anos palavras e frases fermentaram em sua cabeça. Um exemplo esclarecerá os mecanismos dessa longa e cansativa reelaboração. No capítulo CXLVIII das Viagens de Mandeville, intitulado “Da ilha de Dundina onde se comem uns aos outros quando não podem escapar, e do poder do seu rei, o qual é senhor de 54 outras ilhas, e dos muitos tipos de homens que vivem nessas ilhas”, Menocchio encontrara esta página:

“Nesta ilha existe gente de natureza diversa, o pai come o lho, o lho o pai, o marido a mulher e a mulher o marido. Quando o pai ou a mãe, ou então algum dos seus amigos está doente, imediatamente o lho, ou outra pessoa, procura o padre da sua religião para pedir-lhe que consulte o ídolo deles; este, por ter o diabo por trás, lhe diz que aquele não morrerá desta vez e ensina a eles o modo de curá-lo. Assim o lho retorna, conta ao pai e faz o que o ídolo lhe ensinara até que ele sare. O mesmo fazem os maridos pelas mulheres, os amigos um pelo outro. E, se o ídolo disser que é caso de morte, o padre acompanha o lho e a mulher, ou então o amigo doente, e lhe metem um pano na boca para as xiá-lo, e assim, sufocando-o, matam-no cortando, em seguida, seu corpo em pedaços; todos os amigos aparecem para rezar e comer daquele corpo morto. Reúnem quantos pífaros possam ter e assim comem em grande festa e com grande solenidade. Quando acabam de comer, recolhem os ossos e os enterram cantando com grande festa e muita música. Os amigos e parentes que não participam dessa festa são recriminados e sentem muita vergonha e dor, porque não são mais considerados amigos. Dizem que comem a carne para liberar o amigo do sofrimento; se a carne é muito magra, os amigos dizem que foi um pecado deixá-lo de nhar e sofrer tanto sem razão; se a carne é gorda, dizem que está bem e que logo mais estará no paraíso, e que não teve sofrimentos...”

Essa descrição de canibalismo ritual atingiu Menocchio profundamente (como atingira Leonardo, que dela extraiu o motivo para investir contra a maldade dos homens). Isso emerge com clareza no interrogatório de 22 de fevereiro. O vigário-geral perguntou pela enésima vez: “Diga-me quais eram seus companheiros de ideias”. Menocchio respondeu: “Senhor, nunca encontrei ninguém com estas opiniões; as minhas opiniões saíram da minha própria cabeça. É verdade que li um livro que foi emprestado pelo nosso capelão, messer Andrea da Maren, que hoje vive em Monte Real, intitulado Il cavallier Zuanne de Mandavilla ; acredito que fosse francês, impresso em língua italiana vulgar. Ele me emprestou há uns cinco ou seis anos, mas eu já o devolvi há dois anos. Esse livro tratava da viagem para Jerusalém e de algumas divergências entre gregos e o papa; tratava também do grande Khan, da cidade da Babilônia, do Preste João, de Jerusalém e de muitas ilhas, cada uma vivendo à sua maneira. O cavaleiro esteve com o sultão, que o interrogou sobre os padres, cardeais, papas e clérigos; dizia que Jerusalém era dos cristãos e que, pelo mau governo destes e do papa, Deus a retirou deles. Falava ainda de um lugar que quando alguém morria...”. Nesse ponto o inquisidor interrompeu impacientemente Menocchio para perguntar-lhe “se esse livro não falava do caos”. E Menocchio respondeu: “Não, senhor, mas sobre isso eu li no Fioretto della Bibbia , mas as outras coisas que eu disse sobre o caos eu tirei da minha própria cabeça”. Logo em seguida, retomou o discurso interrompido: “Esse mesmo livro do cavaleiro Mandavilla dizia também que, quando os homens estavam doentes, próximos da morte, procuravam o padre, e o tal padre consultava um ídolo que lhe dizia se o doente devia morrer ou não; caso sim, o padre o sufocava e junto com outros o comia; se o sabor era bom, não tinha pecados; se era ruim, tinha muitos pecados e tinham feito muito mal em deixá-lo viver tanto. E dali tirei minha opinião de que, morto o corpo, a alma também morre, já que existem muitos e diversos tipos de nações, uns acreditando de um modo, outros de outro”.

Mais uma vez a ardente memória de Menocchio fundira, transpusera, modelara palavras e frases. O morto de carne muito magra transformara-se, sem mais, em ruim (de ser comido); o de carne gorda, bom (de ser comido). A ambiguidade gastronômico-moral desses termos ( bom , ruim ) atraíra a referência aos pecados, deslocando-a do matador para o morto. Portanto, quem era bom (de ser comido) não tinha pecados; quem era ruim (de ser comido) estava cheio de pecados. Nesse ponto precipitara-se a dedução de Menocchio: não existe o além, não existem penas ou recompensas futuras, o paraíso e o inferno são desta terra, a alma é mortal. Como sempre, Menocchio deformava agressivamente (de maneira completamente involuntária, é claro) o texto. A torrente de perguntas que Menocchio colocava aos livros ia muito além da página escrita. Mas, nesse caso, a função do texto não era em absoluto secundária: “ E dali tirei minha opinião de que, morto o corpo, a alma também morre, já que existem muitos e diversos tipos de nações , uns acreditando de um modo, outros de outro ”.