O Queijo e os Vermes
50. Diálogo noturno com o judeu
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Entretanto, o diálogo que Lunardo reproduziu indicava que a aparente reverência de Menocchio aos ritos e sacramentos da Igreja mascarava uma obstinada delidade aos velhos
pensamentos. Mais ou menos no mesmo período, um certo Simon, judeu convertido que vagabundeava pedindo esmolas, chegou a Montereale e foi hospedado por Menocchio. Durante uma noite inteira os dois falaram de questões religiosas. Menocchio disse “coisas importantíssimas sobre a fé”: que os Evangelhos haviam sido escritos pelos padres e frades “porque vivem no ócio” e que Nossa Senhora, antes de se casar com José, “tinha tido duas outras crianças e por isso são José não queria aceitá-la como esposa”. Tratava-se, na essência, dos mesmos temas sobre os quais se pusera a conversar com Lunardo na praça de Udine: a polêmica contra o parasitismo do clero, a recusa do Evangelho, a negação da divindade de Cristo. Além disso, falara naquela noite de um “livro lindíssimo”, que, infelizmente, perdera e que Simon “achou que fosse o Alcorão”.
Talvez tenha sido a recusa dos dogmas centrais do cristianismo — e em primeiro lugar o da Trindade — o que induziu Menocchio, assim como outros heréticos do mesmo período, a procurar o Alcorão. Infelizmente, a informação de Simon não é segura e não sabemos o que de fato Menocchio extraíra daquele “livro lindíssimo”. Com certeza ele sabia que mais cedo ou mais tarde sua heterodoxia seria descoberta: “Ele sabia que morreria por causa disso” — confessou a Simon. Mas não queria fugir porque um compadre seu, Daniele de Biasio, quinze anos antes, responsabilizara-se por ele diante do Santo Ofício: “Senão já teria fugido para Genebra”. E assim decidira continuar em Montereale. Já andava pensando no seu próprio m: “Morrendo, os luteranos o salvarão e virão buscar suas cinzas”.
Sabe-se lá a quais “luteranos” Menocchio se referia. Talvez a um grupo com o qual mantivera relações clandestinas — ou a algum indivíduo que encontrara muitos anos antes e depois nunca mais vira. O véu de martírio em que Menocchio via sua própria morte envolvida leva a pensar que tudo não passava de fantasias senis. Além disso, não lhe sobrara mais nada. Ficara sozinho: a mulher e o lho mais querido estavam mortos. Parecia viver em con ito com os outros lhos: “E se os meus lhos quiserem fazer ao modo deles, que tenham boa sorte” — declarou a Simon com desprezo. Mas a mítica Genebra, a pátria (ele pensava) da liberdade religiosa, estava muito distante; isso e a tenaz solidariedade ao amigo que cara ao seu lado num momento difícil impediram sua fuga. Evidentemente, por outro lado, não podia sufocar a apaixonada curiosidade pelos assuntos da fé. E assim deixava-se car ali, esperando pelos seus