O Queijo e os Vermes
2. A aldeia
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Não é fácil entender pelos autos do processo qual era a reação dos conterrâneos de Menocchio às suas palavras. É claro que ninguém estava disposto a admitir ter escutado com aprovação os discursos de um suspeito de heresia. Pelo contrário, alguns se preocuparam em comentar com o vigário-geral que conduzia o inquérito a própria reação indignada. “Menocchio, pelo amor de Deus, não vai falando essas coisas por aí!” — teria exclamado, segundo ele mesmo a rmou, Domenico Melchiori. Giuliano Stefanut testemunha: “Eu lhe disse várias vezes, especialmente uma, indo para Grizzo, que eu gostava dele, mas não podia suportar seu jeito de falar das coisas da fé, que sempre discutiria com ele e que, se cem vezes me matasse e depois eu voltasse a viver, continuaria a me deixar matar pela fé”. O padre Andrea Bionima havia até mesmo feito uma ameaça velada: “Cale a boca, Domenego, não diga essas coisas, porque um dia você se arrepende”. Outra testemunha, Giovanni Povoledo, dirigindo-se ao vigário-geral, arriscou uma de nição, embora genérica: “Tem má fama e tem opiniões erradas, como aquelas da seita de Lutero”. Entretanto, esse coro de vozes não deve nos enganar. Quase todos os interrogados declararam conhecer Menocchio havia muito tempo: uns, havia trinta, quarenta anos; outros, 25; outros, ainda, vinte. Um deles, Daniele Fasseta, disse conhecê-lo “desde moleque, com o nariz sujo, já que éramos da mesma paróquia”. Aparentemente algumas a rmações de Menocchio remontavam não apenas há poucos dias, mas há “muitos anos”, até mesmo há trinta anos. Durante todo esse tempo ninguém o denunciara na cidade, embora seus discursos fossem conhecidos por todos. As pessoas repetiam as palavras dele, algumas com curiosidade, outras balançando a cabeça. Nos testemunhos recolhidos pelo vigário-geral não se percebe o que se chamaria de verdadeira hostilidade em relação a Menocchio; no máximo,
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desaprovação. É verdade que entre aqueles existiam parentes, como Francesco Fasseta ou Bartolomeo di Andrea, primo de sua mulher, que o de niram como “homem de bem”. O próprio Giuliano Stefanut, que havia enfrentado Menocchio, dizendo-se pronto “a morrer pela fé”, acrescentou: “Eu gosto dele”. [Esse moleiro, que já tinha sido magistrado da aldeia e administrador da paróquia, decerto não vivia à margem da comunidade de Montereale. Muitos anos depois, quando do segundo processo, uma testemunha declarou: “Eu o vejo conversando com muita gente e acho que é amigo de todo mundo”. E, apesar disso, a certa altura dispararam uma denúncia contra ele que abriu caminho para o inquérito.
Os lhos de Menocchio, como veremos, identi caram de imediato o pároco de Montereale, dom Odorico Vorai, como o anônimo delator. Não estavam enganados. Entre os dois existia uma velha diferença: já fazia quatro anos que Menocchio ia se confessar em outra cidade. O testemunho de Vorai, que fechou a fase informativa do processo, foi particularmente evasivo: “Não posso me lembrar bem do que ele disse. Tenho memória fraca e estava com outras coisas na cabeça”. Aparentemente ninguém melhor do que uma pessoa na posição dele para dar informações ao Santo Ofício sobre o assunto, contudo o vigário-geral não insistiu. Não era preciso: fora o próprio Vorai, instigado por outro padre, dom Ottavio Montereale, pertencente a uma família senhorial do lugar, que transmitira as evidências circunstanciais em que o vigário-geral se baseou para interrogar as testemunhas.
A hostilidade do clero local pode ser facilmente explicada. Como já vimos, Menocchio não reconhecia, na hierarquia eclesiástica, nenhuma autoridade especial nas questões de fé. “Que papa, prelado, padres, qual o quê! E dizia essas palavras com desprezo, dizia que não acreditava neles” — comentou Domenico Melchiori. De tanto discutir e argumentar pelas ruas e tavernas da cidade, Menocchio deve ter acabado por se contrapor à autoridade do pároco. Mas o que é que realmente Menocchio dizia?
Só para termos uma ideia, não só blasfemava “desmesuradamente”, como sustentava que blasfemar não é pecado (segundo uma testemunha, teria dito que blasfemar contra os santos não é pecado, mas contra Deus é), acrescentando com sarcasmo: “Cada um faz o seu dever; tem quem ara, quem cava e eu faço o meu, blasfemar”. Em seguida fazia estranhas a rmações que os conterrâneos relatavam de maneira fragmentada, desconexa, ao vigário-geral. Por exemplo: “O ar é Deus [...] a terra, nossa mãe”; “Quem é que vocês pensam que seja Deus? Deus não é nada além de um pequeno sopro e tudo mais que o homem imagina”; “Tudo o que se vê é Deus e nós somos deuses”; “O céu, a terra, o mar, o ar, o abismo e o inferno, tudo é Deus”; “O que é que vocês pensam, que Jesus Cristo nasceu da Virgem Maria? Não é possível que ela tenha dado à luz e tenha continuado virgem. Pode muito bem ser que ele tenha sido um homem qualquer de bem, ou lho de algum homem de bem”. E se dizia ainda que possuía livros proibidos, em particular a Bíblia em vulgar: “Está sempre discutindo com um ou com outro, possui a Bíblia em vulgar, e imagina que a base de seus argumentos esteja ali, e continua obstinadamente insistindo neles”.
Os testemunhos se acumulavam; Menocchio pressentia que alguma coisa estava sendo preparada contra ele. Foi então falar com o vigário de Polcenigo, Giovanni Daniele Melchiori, seu amigo desde a infância. Este o incentivou a se apresentar espontaneamente ao Santo Ofício, ou ao menos a obedecer de imediato a uma eventual convocação. Avisou a Menocchio: “Diga o que eles estão querendo saber, não fale demais e muito menos se meta a contar coisas; responda só o que for perguntado”. Alessandro Policreto, um ex-advogado que Menocchio encontrara por acaso na casa de um amigo comerciante de madeira, também o aconselhara a se apresentar aos juízes e a admitir sua culpa, mas, ao mesmo tempo, aconselhou-o a declarar que nunca acreditara em suas próprias a rmações heréticas. E assim Menocchio foi a Maniago, atendendo à convocação do tribunal eclesiástico. Mas no dia seguinte, 4 de fevereiro, dado o andamento do inquérito, o inquisidor em pessoa — o frade franciscano Felice da Montefalco — ordenou que o prendessem e “levassem algemado” para os cárceres do Santo Ofício de Concórdia. Em 7 de fevereiro de 1584 Menocchio foi submetido a um primeiro interrogatório.