O Queijo e os Vermes
11. “Opiniões... saíram da minha própria cabeça”
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“Vocês querem que eu ensine a estrada verdadeira? Tente fazer o bem, trilhar o caminho dos meus antecessores e seguir o que a Santa Madre Igreja ordena”: foram essas palavras, como recordamos, que Menocchio a rmava (quase com certeza, mentindo) ter dito aos seus conterrâneos. Na verdade, Menocchio ensinara justamente o contrário, a se afastar da fé dos antepassados, a recusar as doutrinas que o pároco pregava do púlpito. Manter tal posição divergente por um período tão longo (talvez por quase trinta anos), primeiro numa pequena aldeia, Montereale, depois diante do tribunal do Santo Ofício, requer uma energia moral e intelectual que não é exagero de nir como extraordinária. A descon ança dos parentes e amigos, as reprovações do pároco, as ameaças dos inquisidores, nada conseguira abalar a segurança de Menocchio. Mas o que é que o tornava tão seguro? Em nome do que falava?
Na primeira declaração do processo, ele atribuiu suas opiniões a uma inspiração diabólica: “Aquelas palavras que eu disse antes eu dizia por tentação [...] era o espírito maligno que me fazia acreditar naquelas coisas”. Mas, no nal do primeiro
interrogatório, sua atitude era menos reticente: “O que eu disse, ou por inspiração de Deus ou do demônio [...]”. Quinze dias mais tarde apresentou outra alternativa: “O diabo ou outra coisa qualquer me tentava”. Depois de pouco tempo precisou o que seria a tal “coisa” que o atormentava: “As minhas opiniões saíram da minha própria cabeça”. E não saiu mais dessa posição durante todo o primeiro processo. Mesmo quando resolveu pedir perdão aos juízes, atribuiu os erros cometidos à sua “cabeça sutil”.
Menocchio, portanto, não se vangloriava de revelações ou iluminações particulares; ao contrário, em seus discursos colocava em primeiro plano seu próprio raciocínio. Só isso já era su ciente para distingui-lo dos profetas visionários, pregadores ambulantes que entre o m do século XIV e o início do XV tinham
proclamado estranhos vaticínios pelas praças das cidades italianas. Ainda em 1550, um ex-beneditino, Giorgio Siculo, tentara relatar aos padres reunidos em Trento, no concílio, as verdades que o Cristo lhe revelara, aparecendo “em pessoa”. Contudo, naquelas alturas, o concílio de Trento já estava fechado havia vinte anos; a hierarquia se pronunciara: a longa fase de incerteza sobre aquilo em que os éis poderiam e deveriam acreditar fora encerrada. E, ainda assim, aquele moleiro, perdido entre as colinas do Friuli, continuava a ruminar “coisas maiores”, contrapondo seus pontos de vista religiosos aos decretos da Igreja: “Eu acho [...] segundo o que eu penso e acredito...”.
Junto com o raciocínio estavam os livros. O caso do Sogno dil Caravia não é isolado. “Tendo por várias vezes me confessado com um padre de Barcis”, declarou durante o primeiro interrogatório, “eu lhe perguntei: ‘É possível que Cristo tenha sido concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria?’, contando-lhe que eu acreditava que fosse assim, mas que às vezes o demônio me tentava.” A atribuição das próprias dúvidas à tentação demoníaca re etia a atitude relativamente cautelosa de Menocchio no início do processo. E de fato, logo depois, expôs a dupla fundamentação do seu pensamento: “A base deste meu pensamento estava no fato de tantos homens terem vindo ao mundo e nenhum ter nascido de mulher virgem; e, como eu tinha lido que a gloriosa Virgem se casara com são José, achava que Jesus Cristo fosse seu lho; além disso, li histórias em que são José chamava Nosso Senhor Jesus Cristo de lhinho. Li isso num livro que se chamava Il Fioretto della Bibbia ”. Este foi um exemplo escolhido ao acaso. Mais de uma vez Menocchio indicou este ou aquele livro como fonte (não exclusiva, no caso) das suas “opiniões”. Mas o que é que Menocchio leu?