O Queijo e os Vermes
40. Um novo “modo de viver”
“É como estar numa festa.” O paraíso camponês de Menocchio, mais do que o além cristão, lembrava o paraíso maometano sobre o qual lera descrições brilhantes nas páginas de Mandeville: “[...] paraíso é um lugar delicado, onde se encontram todas as frutas de todas as estações, rios sempre cheios de leite, mel, vinho e água doce. E [...] lá existem casas belas e nobres segundo o mérito de cada um, adornadas por pedras preciosas, ouro e prata. Todos terão suas donzelas, usufruirão delas e cada vez serão mais bonitas...”. Mas, aos inquisidores que lhe perguntaram: “Acredita que exista o paraíso terrestre?”, respondeu com amargo sarcasmo: “Eu acredito que o paraíso terrestre esteja onde existam gentis-homens que possuem muitos bens e vivem sem se cansar”.
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Além de fantasiar sobre o paraíso, Menocchio desejava um “mundo novo”: “Meu espírito era elevado”, dissera ao inquisidor, “e desejava que existisse um mundo novo e um novo modo de viver, pois a Igreja não vai bem e não deveria ter tanta pompa”. O que Menocchio queria dizer com essas palavras?
Nas sociedades baseadas na tradição oral, a memória da comunidade tende involuntariamente a mascarar e a reabsorver as mudanças. À relativa plasticidade da vida material corresponde uma acentuada imobilidade da imagem do passado. As coisas sempre foram assim; o mundo é o que é. Apenas nos períodos de aguda transformação social emerge a imagem, em geral mítica, de um passado diverso e melhor — um modelo de perfeição, diante do qual o presente aparece como declínio, degeneração. “Quando Adão cavava e Eva tecia, quem era nobre?” A luta para transformar a ordem social torna-se então uma tentativa consciente de retorno àquele mítico passado.
Menocchio também contrapunha a Igreja rica e corrupta que conhecia à Igreja primitiva, pobre e pura: “Gostaria que [a Igreja] fosse governada com amor como quando foi instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo [...] há as missas pomposas, [mas] o Senhor Jesus Cristo não quer pompas”. Todavia, diferentemente da maior parte dos seus companheiros, a capacidade de ler lhe possibilitara apropriar-se de uma imagem de passado que ultrapassava essa sumária contraposição. O Fioretto della Bibbia , em parte, mas sobretudo o Supplementum supplementi delle croniche , de Foresti, traziam uma narração analítica das vicissitudes humanas desde a criação do mundo até o presente, misturando história sacra e história profana, mitologia e teologia, descrições de batalhas e de países, listas de príncipes e lósofos, hereges e artistas. Não temos testemunhos explícitos das reações de Menocchio a essas leituras. Com certeza não o deixaram “confuso” como as viagens de Mandeville. A crise do etnocentrismo passava, no século XVI (e assim seria por muito tempo ainda), pela geogra a, mesmo sendo fantástica, e não pela história. Apesar disso, uma pista quase imperceptível talvez nos permita detectar o ânimo com o qual Menocchio lia a crônica de Foresti.
O Supplementum foi diversas vezes reimpresso e traduzido em idioma vulgar, tanto antes como depois da morte do seu autor (1520). O exemplar que passou pelas mãos de Menocchio deve ter sido uma tradução posterior, atualizada por algum desconhecido, que nela incluiu fatos ocorridos até o seu próprio tempo. Leu as páginas dedicadas ao cisma de “Martinho, conhecido como Lutero, frade da ordem dos ermitãos de santo Agostinho”, organizadas por um editor anônimo — decerto um confrade de Foresti e como ele ermitão. O tom daquelas páginas era particularmente benévolo, embora no nal se transformasse numa clara condenação. “[...] O motivo pelo qual [Lutero] caiu em tal iniquidade”, escreveu o anônimo, “parece ser o sumo pontí ce (embora in rei veritate não seja verdade), mas na verdade foram alguns homens malignos que, debaixo de pretensa santidade, zeram coisas novas e excessivas.” Esses homens eram os franciscanos aos quais primeiro Júlio II e depois Leão X con aram a pregação das indulgências. “E como a ignorância é a mãe de todos os erros, e o hábito da riqueza in amara os ânimos de tais frades pela posse de dinheiro, estes caíram em insânia e se tornaram causa de grande escândalo devido às loucuras que pronunciavam pregando as indulgências. Em outra parte da Cristandade, na Alemanha, eles se expandiram muito e, quando diziam alguma loucura e alguns homens queriam repreendê-los (homens de consciência e doutrina justas), imediatamente os declaravam excomungados. Entre eles estava Martinho Lutero, o qual era de fato um homem culto e instruído...”. A origem do cisma para o tal anônimo estava nas “loucuras” da ordem rival que, diante da justa reação de Lutero, o excomungou. “Depois disso, o tal Martinho Lutero, que era de sangue muito nobre e tinha grande reputação com todos, começou a pregar publicamente contra as indulgências, dizendo que eram falsas e injustas. Em pouco tempo tinha revirado tudo pelo avesso. E, como a maior parte das riquezas estava nas mãos dos clérigos e havendo muito rancor entre os estados espiritual e temporal, ele facilmente encontrou seguidores e começou o cisma na Igreja Católica. Vendo que havia obtido amplo apoio, separou-se por completo da Igreja romana e criou uma nova seita e um novo modo de viver com suas muitas e diversas opiniões e fantasias. E isso foi o que aconteceu a um grande número de países que se rebelaram contra a Igreja Católica e não lhe devem mais obediência em coisa alguma...”
“Criou uma nova seita e um novo modo de viver”; “Desejava que existisse um mundo novo e um novo modo de viver, pois a Igreja não vai bem e não deveria ter tanta pompa”. No momento em que a aspiração a uma reforma religiosa (sobre a alusão ao “mundo novo” falaremos adiante) se revelava, ditada por seu “espírito elevado”, Menocchio talvez estivesse, conscientemente ou não, reproduzindo a representação de Lutero dada pela crônica de Foresti. Não repetia, é evidente, as ideias religiosas — nas quais, aliás, a crônica não se detinha, limitando-se a condenar o “novo tipo de doutrina” proposto por Lutero. Mas acima de tudo não podia contentar-se com a conclusão reticente e, poder-se-ia dizer, ambígua do anônimo: “E desse modo cegara a plebe ignorante; e os que tinham conhecimento e doutrina, ouvindo falar das más ações do estado eclesiástico, aderiram, sem considerar que esta conclusão não é verdadeira: se os clérigos e eclesiásticos levam uma vida degradada, a Igreja romana não é boa; porque, apesar de eles levarem uma vida degradada, a Igreja romana é boa e perfeita; e, ainda que os cristãos levem uma vida degradada, a fé cristã é boa e perfeita”. As “leis e os mandamentos da Igreja” pareciam a Menocchio, assim como para Caravia, “mercadorias” para engordar os padres: para ele, renovação moral do clero e modi cação profunda da doutrina andavam juntas. Através de um veículo imprevisto, as crônicas de Foresti, Lutero lhe fora apresentado como o protótipo do rebelde religioso — aquele que soubera unir “o povo ignorante e os que têm conhecimento e doutrina” contra a hierarquia eclesiástica, explorando o “rancor” do “estado temporal” contra esta última “por estar a maior parte das riquezas nas mãos dos clérigos”. “Tudo pertence à Igreja e aos padres” — Menocchio exclamara, dirigindo-se aos inquisidores. Quem sabe havia re etido também nas semelhanças entre a situação friulana e a dos territórios localizados além dos Alpes, onde a Reforma fora vitoriosa.