O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 19 de 62

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O Queijo e os Vermes

17. O funeral de Nossa Senhora

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No nal do interrogatório de 28 de abril, depois de ter expresso sem nenhuma restrição suas acusações contra a Igreja, os padres, os sacramentos e as cerimônias eclesiásticas, respondendo a uma pergunta do inquisidor, Menocchio declarou: “Eu acredito que a imperatriz neste mundo seja mais importante que Nossa Senhora, mas lá Nossa Senhora é maior, porque de lá nós somos invisíveis”. A pergunta do inquisidor nascera de um episódio narrado por uma testemunha e con rmado, sem hesitação, por Menocchio: “Sim, senhor, é verdade que eu disse, enquanto a imperatriz passava, que ela era mais importante que Nossa Senhora, mas eu estava me referindo a este mundo; e naquele livro da Nossa Senhora lhe foram prestadas e feitas muitas honras; quando a levavam para ser sepultada, alguém quis desonrá-la, tentando tirá-la dos ombros dos apóstolos, e esse teve as mãos grudadas nela. Tudo isso está no livro da vida de Nossa Senhora”.

A que texto Menocchio estaria aludindo? A expressão “livro da Nossa Senhora” poderia nos levar a pensar mais uma vez no Rosario della gloriosa Vergine Maria , mas a citação não corresponde. A passagem se acha, todavia, num outro livro lido por Menocchio, o Legendario delle vite de tutti li santi , de Jacopo da Varagine, no capítulo intitulado “De l’assumptione de la beata Vergine Maria”, uma reelaboração de “um certo livrinho [...] apócrifo, consagrado ao beato João Evangelista”. Segue a descrição das exéquias de Maria feita por Varagine: “Anjos e apóstolos seguiram cantando e enchendo a terra toda com as maravilhas da vida de Maria. Todos os que foram acordados por tão doce melodia saíram das cidades perguntando, curiosos, o que era aquilo, quando alguém lhes explicou: ‘Os discípulos levam Maria, que está morta, e cantam ao seu redor essa melodia que vocês estão ouvindo’. Então correram todos para pegar as armas, incitando os outros, dizendo: ‘Venham, vamos matar os discípulos e consumir com fogo o corpo do qual nasceu aquele sedutor’. Vendo o que acontecia, o príncipe dos sacerdotes, atônito e cheio de ira, exclamou, desdenhoso: ‘Eis o tabernáculo daquele que nos conturbou e à nossa geração; [vejam] agora as glórias que ela recebe!’. E, dizendo isso, pôs as mãos sobre o leito tentando derrubar no chão tanto a cama como o corpo. Porém, ao colocar as mãos sobre o leito, elas secaram imediatamente e continuaram grudadas; torturado por grande sofrimento, se lamentava aos gritos, e o resto do povo foi cegado pelos anjos que estavam nas nuvens. Então, o príncipe dos sacerdotes gritou: ‘Eu lhe peço, ó são Pedro, não me abandone neste tormento, eu lhe peço que inter ra junto ao Senhor; você deve se lembrar de quando eu o livrei das acusações da criada’. Pedro lhe respondeu: ‘Nós fomos perturbados nas exéquias de Nossa Senhora e neste momento não podemos nos ocupar de você. Mas, se você acredita no Senhor Jesus Cristo e naquela da qual ele nasceu, eu espero que você receba de pronto a recompensa da saúde’. Ele respondeu: ‘Eu acredito que o Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro lho de Deus e que essa é sua santíssima mãe’. Logo suas mãos se soltaram do caixão, mas a secura permanecia em seus braços e a grande dor não passara. Pedro lhe disse então: ‘Beija o leito e diga: eu creio em Deus Jesus Cristo, que foi carregado no ventre por ela, que continuou virgem depois do parto’. Tendo feito isso, lhe foi restituída a saúde...”.

A afronta feita pelo chefe dos sacerdotes ao cadáver de Maria se resolve, para o autor do Legendario , com a descrição de uma cura milagrosa e, por m, com a exaltação da Virgem Maria, mãe de Cristo. Mas a Menocchio, evidentemente, a narração do milagre não interessa, e menos ainda a rea rmação da virgindade de Maria, a qual negou repetidas vezes. O que ele retém é apenas o gesto do chefe dos sacerdotes, a “desonra” feita a Maria durante seu enterro, testemunho da sua condição miserável. O ltro da memória de Menocchio transforma a narração de Varagine em seu contrário.