O Queijo e os Vermes
36. Dois espíritos, sete almas, quatro elementos
“Eu acredito que nosso espírito, que é a alma, retorna a Deus, que foi de onde ele veio.”
Como era teimoso esse camponês! Munido de toda sua paciência, de toda sua dialética, o vigário-geral Giambattista Maro, doutor in utroque iure , conclamou-o novamente a re etir e a dizer a verdade.
“Eu disse” — respondeu então Menocchio — “que todas as coisas do mundo são Deus e acredito que as nossas almas retornem às coisas do mundo, como bem agradar a Deus.” Calou-se por alguns momentos. “São, as tais almas, como os anjinhos que estão dependurados ao redor de Deus, o qual mantém perto de si os de maior mérito, e os que zeram o mal manda-os dispersos pelo mundo.”
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E assim o interrogatório concluía com mais uma das contradições de Menocchio. Depois de ter repetido uma a rmação que, na falta de um termo melhor, poderíamos de nir como panteísta (“todas as coisas do mundo são Deus”) — a rmação que obviamente negava a possibilidade de qualquer sobrevivência individual (“acredito [...] que as nossas almas retornem às coisas do mundo...”) —, Menocchio decerto fora tomado por uma dúvida. O medo ou a incerteza o deixara mudo por um momento. Em seguida, do fundo da sua memória, projetara-se uma representação vista em alguma igreja, talvez numa capela no campo: Deus circundado por um coro de anjos. Era isso que o vigário-geral queria?
Mas o vigário-geral estava pedindo algo bem diferente de uma fugaz alusão a uma imagem tradicional do paraíso — ainda mais acompanhada de um resto de crença popular de origem pré-cristã nas almas dos mortos que vão “dispersas pelo mundo”. No interrogatório seguinte, pôs Menocchio na parede, enumerando suas negações anteriores da imortalidade da alma: “Mas fale a verdade e com mais clareza do que no interrogatório precedente”. A essa altura, Menocchio se saiu com uma a rmação inesperada, que contradizia as que zera nos dois primeiros interrogatórios. Admitiu ter falado sobre a imortalidade das almas com alguns amigos (Giuliano Stefanut, Melchiorre Gerbas, Francesco Fasseta), mas esclareceu: “Foram estas as palavras que eu disse: morto o corpo, morre a alma, mas o espírito continua”.