O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 37 de 62

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O Queijo e os Vermes

38. Contradições

No processo contra Menocchio, não se menciona uma palavra sobre a distinção entre “alma” mortal e “espírito” imortal, apesar de ser esse o pressuposto da tese do sono das almas até o dia do Juízo por ele defendida. Essa distinção deve ter chegado a Menocchio através dos discursos do vigário de Polcenigo.

 

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“Eu acredito que o nosso espírito, que é a alma, retorna a Deus, de onde ele veio” — dissera Menocchio em 16 de fevereiro (segundo interrogatório). “Morto o corpo, morre a alma, mas o espírito continua” — tinha se corrigido em 22 de fevereiro (terceiro interrogatório). Na manhã de 1 o de maio (sexto

interrogatório), parecia retornar à tese original: “Alma e espírito são a mesma coisa”.

Fora interrogado sobre Cristo: “O lho, o que ele era: homem, anjo ou o Deus verdadeiro?”. “Um homem”, respondera Menocchio, “mas nele estava o espírito.” E em seguida: “A alma de Cristo ou era um daqueles anjos antigos ou então foi feita de novo pelo Espírito Santo com os quatro elementos, ou da natureza mesmo. Não se podem fazer bem as coisas se não são em três, e assim como Deus havia dado o saber, o querer e o poder ao Espírito Santo, deu também a Cristo, para que pudessem se consolar juntos [...]. Quando dois não concordam numa opinião, existe um terceiro; quando dois dos três concordam, o terceiro os segue: e então o Pai deu querer, saber e poder a Cristo para que ele também julgasse...”.

A manhã estava acabando; dentro de pouco tempo o interrogatório seria interrompido para o almoço e transferido para a tarde do mesmo dia. Menocchio falava, falava, misturava provérbios com referências do Fioretto della Bibbia , embebedava-se com as palavras. Passara parte do inverno e da primavera na prisão. Era de esperar que aguardasse com impaciência a aproximação do m do processo, que já durava quase três meses. Mas ser interrogado e ouvido com tanta atenção por frades tão cultos (havia até um escrivão que transcrevia suas respostas) devia ser quase inebriante para quem até aquele momento tivera um público composto quase exclusivamente de camponeses e artesãos semianalfabetos. Não eram papas, reis, príncipes, diante dos quais sonhara falar, mas já era alguma coisa. Menocchio repetia o que já havia dito, acrescentava, omitia, contradizia-se. Cristo era “homem como nós, nascido de um homem e de uma mulher como nós [...], mas é bem verdade que Deus mandara o Espírito Santo escolhê-lo como seu lho [...]. Como Deus o elegeu profeta e lhe deu a grande sabedoria e a inspiração do Espírito Santo, acredito que tenha feito milagres [...]. Acredito que tenha o espírito como o nosso, porque alma e espírito são a mesma coisa”. Mas o que signi cava dizer que alma e espírito são a mesma coisa? “O senhor disse anteriormente”, o inquisidor interrompeu, “que, morto o corpo, morre a alma: mas eu pergunto se a alma de Cristo morreria se ele morresse.” Menocchio tergiversou, enumerou as sete almas dadas por Deus ao homem: intelecto, memória... Durante o interrogatório da tarde os inquisidores insistiram: o intelecto, a memória, a vontade de Cristo perecem com a morte do corpo dele? “Sim, senhores, porque lá em cima sua utilização não é necessária.” Portanto, Menocchio abandonara a tese da sobrevivência do espírito, identi cando-o com a alma destinada a perecer com o corpo? Não, porque pouco depois, falando sobre o dia do Juízo, a rmou que “os lugares estavam repletos de espíritos celestes, mas serão preenchidos por espíritos terrenos selecionados entre os melhores e mais inteligentes”, e entre eles o de Cristo, “porque o espírito do seu lho é terreno”. E agora?