O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 17 de 62

Páginas do PDF

O Queijo e os Vermes

15. Beco sem saída?

Além disso, trata-se de uma lista parcial. Isso explica o predomínio de textos religiosos — seis entre onze, mais da metade, portanto. Era óbvio que, no decorrer dos dois processos aos quais foi submetido, Menocchio zesse referências sobretudo a esse tipo de leitura para justi car as próprias ideias. É provável que uma lista completa dos livros que possuía ou lera nos teria dado um panorama mais variado, incluindo, por exemplo, alguns daqueles “livros de batalha” que comparara provocativamente à Escritura — o Libro che tratta di bataglia , chiamato oravante (M. Sessa, Veneza, 1506) ou um outro parecido. Mesmo assim esse punhado de títulos, um conjunto fragmentado e parcial, nos permite algumas considerações. Ao lado da Escritura, encontramos livros de piedade, reelaborações da Escritura em verso e prosa, vida de santos, um almanaque, um poema semissatírico, um livro de viagens, uma crônica, uma antologia de contos (o Decameron ), todos em língua vulgar (como já foi dito, Menocchio não sabia muito mais de latim do que aprendera ajudando a missa), escritos dois ou três séculos antes, muito difundidos e consumidos por pessoas de várias classes sociais. O Foresti e o Mandeville, por exemplo, faziam parte da biblioteca de um outro “homem desconhecedor das letras”, quer dizer, desconhecedor do latim, ainda que muito diferente: Leonardo da Vinci. E a Historia del Giudicio gura entre os livros de um famoso naturalista, Ulisse Aldovandi (que por sua vez tivera problemas com a Inquisição em virtude de suas relações, quando jovem, com grupos heréticos). É evidente que o Alcorão se sobressai nessa lista (caso Menocchio de fato o tivesse lido), porém essa é uma exceção que será considerada à parte. Os outros são títulos bastante óbvios, aparentemente incapazes de nos dar indicações sobre o modo como Menocchio chegou a formular o que um conhecido seu de niu como “opiniões fantásticas”.

 

15

Mais uma vez, temos a impressão de estar num beco sem saída. Antes, diante da extravagante cosmogonia de Menocchio, nos perguntamos por um momento, como já o zera o vigário-geral, se não se tratava do discurso de um louco. Descartada essa hipótese, o exame de sua eclesiologia sugeriu uma outra: talvez Menocchio fosse anabatista. Abandonada também essa possibilidade, defrontamos com a informação de que Menocchio se julgava um mártir “luterano”: daí o problema de suas relações com a Reforma. Entretanto, a proposta de inserir as ideias e crenças de Menocchio num veio profundo de radicalismo camponês trazido à luz pela Reforma (mas independente dela) parece ter sido ostensivamente contradita pela lista de leituras que reconstruímos com base nos documentos processuais. Até que ponto poderemos considerar representativa uma gura tão pouco comum, um moleiro do século XVI que sabia ler e escrever? E, além disso, representativa do quê? Com certeza, não de um veio de cultura camponesa, já que o próprio Menocchio apontava uma série de livros impressos como fonte de suas ideias. De tanto nos debatermos contra os muros desse labirinto, retornamos ao ponto de partida.

Ou quase. Vimos quais livros Menocchio lia. Mas como os lia?

Confrontando, uma por uma, as passagens dos livros por ele citados com as conclusões às quais chegava (ou até mesmo com o seu modo de referi-las aos juízes), nos vemos às voltas, invariavelmente, com lacunas e deformações, às vezes profundas. Qualquer tentativa de considerar esses livros “fontes” no sentido mecânico do termo cai ante a agressiva originalidade da leitura de Menocchio. Mais do que o texto, portanto, parece-nos importante a chave de sua leitura, a rede que Menocchio de maneira inconsciente interpunha entre ele e a página impressa — um ltro que fazia enfatizar certas passagens enquanto ocultava outras, que exagerava o signi cado de uma palavra, isolando-a do contexto, que agia sobre a memória de Menocchio deformando a sua leitura. Essa rede, essa chave de leitura, remete continuamente a uma cultura diversa da registrada na página impressa: uma cultura oral.

Isso não quer dizer que o livro para Menocchio fosse incidental, um pretexto. Ele mesmo declarou, como veremos, que pelo menos um livro o inquietara profundamente, levando-o, com suas a rmações inesperadas, a ter pensamentos novos. Foi o choque entre a página impressa e a cultura oral, da qual era depositário, que induziu Menocchio a formular — para si mesmo em primeiro lugar, depois aos seus concidadãos e, por m, aos juízes — as “opiniões [...] [que] saíram da sua própria cabeça”.