O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 30 de 62

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O Queijo e os Vermes

30. A função das metáforas

loso a escolástica, Menocchio procurava exprimir o materialismo elementar, instintivo, de gerações e gerações de camponeses.

 

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Para fazer jorrar o sangue vivo dos pensamentos de Menocchio é preciso romper a crosta formada por essa terminologia. O que Menocchio queria realmente dizer quando falava de Deus, da santíssima majestade de Deus, do espírito de Deus, do Espírito Santo, da alma?

Vamos partir do elemento mais evidente na linguagem de Menocchio: sua densidade metafórica. As palavras da experiência cotidiana já citadas — “criança no ventre da mãe”, “rebanhos”, “queijo” e outras — são introduzidas por metáforas. Ora, as imagens que brilham no Fioretto della Bibbia têm um claro e exclusivo objetivo: ser didáticas — ilustram com exemplos de fácil compreensão os argumentos que se deseja transmitir ao leitor. A função das metáforas nos discursos de Menocchio é outra; em certo sentido, inversa. Num universo linguístico e mental como o seu, fortemente marcado por uma delidade absoluta às palavras, mesmo as metáforas devem ser tomadas com rigor ao pé da letra. O conteúdo destas, jamais casual, faz transparecer a linha do verdadeiro e não explicitado discurso de Menocchio.

 

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Comecemos por Deus. Para Menocchio, ele é acima de tudo um pai. O jogo das metáforas restitui, assim, ao epíteto tradicional e tão desgastado um sentido novo. Deus é um pai para os homens: “Todos somos lhos de Deus, da mesma natureza que a do que foi cruci cado”. Todos: cristãos, heréticos, turcos, judeus — “tem a mesma consideração por todos, e de algum modo todos se salvarão”. Queiram ou não queiram, continuam sempre lhos do pai: “Chama todos, turcos, judeus, cristãos, heréticos, assim como um pai que possui muitos lhos e chama todos da mesma maneira; embora alguns não queiram, pertencem ao pai”. No seu amor, o pai nem se importa que os

lhos blasfemem contra ele: blasfemar “faz mal só a si próprio e não ao próximo, da mesma forma que, se eu tenho uma manta e decido desmanchá-la, faço mal só a mim mesmo e não aos outros, e acredito que quem não faz mal ao próximo, não comete pecado. Somos todos lhos de Deus e, se não zermos mal uns aos outros, como, por exemplo, se um pai tem muitos lhos e um deles diz ‘Maldito seja meu pai’, o pai o perdoa, mas, se quebra a cabeça de um outro, o pai não pode perdoar. Ele tem que pagar por isso. E assim eu disse que blasfemar não é pecado porque não faz mal a ninguém”.

Tudo isso está ligado, como vimos, à a rmação segundo a qual é menos importante amar a Deus do que amar ao próximo — próximo que deve ser também entendido da maneira mais literal possível. Deus é um pai amoroso mas distante da vida de seus

lhos.

Todavia, além de pai, Deus parece ser para Menocchio a própria imagem da autoridade. Por mais de uma vez fala numa “santíssima majestade”, ora distinta de Deus, ora identi cada com o “espírito de Deus” ou com o próprio Deus. Além disso, Deus é comparado a um “grande capitão”, que “enviou como embaixador junto aos homens seu lho”. Ou, então, a um homem de bem: no paraíso “quem irá sentar naqueles lugares, verá todas as coisas e é parecido com o homem de bem que põe todas as suas coisas para serem vistas”. O “Senhor Deus” é acima de tudo, e literalmente, um senhor: “Eu disse que, se Jesus Cristo era Deus eterno, não podia se deixar prender e ser cruci cado; eu não estava certo sobre esse ponto, mas duvidava como disse, porque me parecia estranho que um senhor se deixasse prender assim. Eu suspeitava que, tendo sido cruci cado, não tivesse sido Deus...”.

Um senhor. Porém, a principal característica dos senhores é não trabalhar, porque têm quem trabalhe por eles. É esse o caso de Deus: “Quanto às indulgências, acredito que sejam boas, porque, se Deus pôs um homem em seu lugar, que é o papa, e mandou perdoar, isto é bom, porque é como se recebêssemos de Deus, já que são dadas por seu representante”. Contudo, o papa não é o único agente de Deus: o Espírito Santo também “é como se fosse um feitor de Deus; esse Espírito Santo elegeu depois quatro capitães, quer dizer, agentes entre os anjos criados...”. Os homens foram feitos “pelo Espírito Santo segundo a vontade de Deus e de seus ministros; e, como um feitor que participa da obra dos ministros, o Espírito Santo também pôs sua mão”.

Deus é, portanto, não só um pai, mas um patrão — um proprietário de terras que não suja suas mãos trabalhando e con a as incumbências cansativas aos seus feitores. Estes também só “põem a mão” excepcionalmente: o Espírito Santo, por exemplo, fez a terra, as árvores, os animais, os homens, os peixes e todas as outras criaturas “através dos anjos, que trabalhavam para ele”. É verdade que Menocchio não exclui (respondendo a uma pergunta dos inquisidores nesse sentido) a possibilidade de que Deus tivesse feito o mundo sem a ajuda dos anjos: “Assim como alguém que constrói uma casa usa trabalhadores e ajudantes, mas se diz que fez tudo sozinho, Deus, na criação do mundo, usou os anjos, mas se diz que foi Deus quem o fez. E, da mesma forma que aquele construtor poderia ter feito sua casa sozinho, mas levaria mais tempo, Deus poderia ter construído o mundo sozinho, mas em muito mais tempo”. Deus tem o “poder”: “Quando existe o querer, é preciso que exista o poder para fazer alguma coisa. Por exemplo, o carpinteiro, se quiser fazer um banco, precisa de instrumentos para poder fazê-lo e, se não tiver a madeira, sua vontade é inútil. O mesmo dizemos sobre Deus; além do querer, é preciso o poder”. Mas esse poder consistia no “operar através de trabalhadores”.

Essas metáforas recorrentes são com certeza uma resposta à necessidade de tornar mais próximas e compreensíveis as guras centrais da religião, traduzindo-as em termos da experiência cotidiana. Menocchio, que declarara aos inquisidores que suas pro ssões, além da de moleiro, eram as de “carpinteiro, marceneiro, pedreiro”, comparou Deus a um carpinteiro, a um pedreiro. Mas, da efervescência das metáforas, emerge um conteúdo mais profundo. A “criação do mundo” é mais uma vez, literalmente, uma ação material — “Eu acredito que não se possa fazer nada sem matéria e Deus também não poderia ter feito coisa alguma sem matéria” —, um trabalho manual. Todavia, Deus é um senhor e os senhores não usam as mãos para trabalhar. “Esse Deus fez, criou, produziu alguma criatura?” — perguntaram os inquisidores. “Ele providenciou que fosse dada a vontade para que todas as coisas fossem feitas” — respondeu Menocchio. Mesmo quando comparado a um carpinteiro ou pedreiro, Deus possui sempre “feitores” ou “trabalhadores” a seu serviço. Uma única vez, arrebatado pelo seu discurso cheio de entusiasmo contra a adoração das imagens, Menocchio falou do “Deus único que fez o céu e a terra”. Na verdade, para ele, Deus não fez nada, da mesma forma que seu capataz, o Espírito Santo, nada fez também. Quem pôs mãos à obra na “criação do mundo” foram os “feitores”, os “trabalhadores” — os anjos. E os anjos, quem os tinha feito? A natureza: “Foram produzidos pela natureza, a partir da mais perfeita substância do mundo, assim como os vermes nascem do queijo...”.

“As primeiras criaturas que foram criadas no mundo foram os anjos”, Menocchio pudera ler no Fioretto della Bibbia , “e, porque foram criados da mais nobre matéria que existia, pecaram por soberba e foram privados dos seus lugares.” Mas lera também: “Vejam, porém, que a natureza é submissa a Deus, assim como o martelo e a bigorna ao ferreiro que fabrica o que quer, uma espada, uma faca ou outras coisas, e, embora use martelo e bigorna, não é o martelo que faz, mas o ferreiro”. Isso, todavia, não podia aceitar. Sua visão teimosamente materialista não admitia a presença de um Deus criador. De um Deus, sim — mas era um Deus distante, como um patrão que deixa suas terras nas mãos dos “feitores” e dos “trabalhadores”.

Um Deus distante ou então (o que dá no mesmo) muito próximo, diluído nos elementos, idêntico ao mundo. “Eu acredito que o mundo todo, isto é, ar, terra e todas as belezas deste mundo são Deus [...]: porque se diz que o homem é formado à imagem e semelhança de Deus, e no homem existe ar, fogo, terra e água, e disso segue que ar, terra, fogo e água são Deus.”