O Queijo e os Vermes
18. O pai de Cristo
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A menção à passagem do Legendario foi quase incidental. Muito mais importante é a citação do Fioretto della Bibbia . Como nos recordamos, no primeiro interrogatório, Menocchio a rmara não crer na concepção imaculada de Maria pelo Espírito Santo, mesmo porque “tantos homens vieram ao mundo e nenhum deles nasceu de mulher virgem” e também porque, tendo lido num livro intitulado Fioretto della Bibbia que “são José chamava Nosso Senhor Jesus Cristo de lhinho”, inferira que Cristo era
lho de são José. Ora, no capítulo CLXVI do Fioretto della Bibbia , “Como Jesus foi mandado para a escola”, lê-se que Jesus amaldiçoou o professor que lhe dera um tapa e o fulminou com um só golpe. Diante da ira dos vizinhos, José disse: “Controle-se, meu lho, você não vê o ódio de toda essa gente contra nós?”. “Meu lho”: mas na mesma página, no capítulo imediatamente anterior, “Como Jesus, brincando com outras crianças, ressuscitou um menino que havia morrido”, Menocchio poderia ter lido esta resposta de Maria a uma mulher que lhe perguntara se Jesus era seu lho: “Sim, ele é meu lho; seu pai é o Deus único”.
A leitura de Menocchio era, evidentemente, parcial e arbitrária — quase uma mera procura de con rmação para ideias e convicções já estabelecidas de maneira sólida. Nesse caso, a certeza de que “Cristo era um homem nascido como todos nós”. Irracional era acreditar que Cristo tivesse nascido de uma virgem, que houvesse morrido na cruz: “Se era Deus eterno, não podia se deixar prender e ser cruci cado”.
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O uso que Menocchio faz de passagens como as do Legendario e do Fioretto , extraídas de evangelhos apócrifos, não deve nos surpreender. Diante do contraste entre a concisa simplicidade da palavra de Deus — “quatro palavras” — e a desmesurada proliferação da Escritura, a própria noção de apócrifo caía por terra. Evangelhos apócrifos e evangelhos canônicos eram colocados no mesmo nível e considerados textos meramente humanos. Por outro lado, ao contrário do que se poderia esperar pelos testemunhos dos habitantes de Montereale (“Está sempre discutindo com um e com outro, possui a Bíblia em vulgar, e imagina que a base de seus argumentos esteja ali”), durante os interrogatórios Menocchio fez pouquíssimas alusões diretas à Escritura. Dir-se-ia até que as reelaborações paraescriturais do tipo do Fioretto della Bibbia lhe fossem mais familiares que a própria Bíblia em língua vulgar. Assim, em 8 de março, respondendo a uma pergunta não muito precisa do vigário-geral, Menocchio exclamou: “Acho que amar o próximo é um preceito mais importante do que amar a Deus”. Essa a rmação também se apoiava num texto. De fato, logo depois Menocchio acrescentou: “[...] porque eu li na Historia del Giudicio que, quando chegar o dia do Juízo, [Deus] dirá a um anjo: ‘Você é mau, nunca fez o bem para mim’; e o anjo responde: ‘Senhor, nunca o vi para fazer-lhe o bem’. ‘Eu tinha fome, e não me deu o que comer, eu tinha sede e não me deu o que beber, estava nu e não me vestiu, quando estava na prisão, não vinha me visitar.’ E por isso eu achava que Deus fosse o próximo, porque disse ‘Eu era aquele pobre’”.
Eis a passagem correspondente da Historia del Giudicio :
Ó vós que abençoados por meu pai
fostes, vinde minha glória possuir :
eu de sede e de fome padeci,
vós me destes de beber e de comer,
na prisão eu sofri grande tormento
e fostes vós quem sempre veio ver-me;
estive enfermo e visitado fui,
e, morto, vós me destes sepultura.
E estando todos cheios de alegria,
virão a Jesus Cristo perguntar :
“Quando, Senhor, de fome padecendo,
te demos de comer e de beber?
e quando enfermo foste visitado
e, morto, te viemos sepultar?
quando foi que em prisão te visitamos,
e quando te trouxemos vestimenta?”
Cristo responderá de rosto ledo :
“Aquele pobre que de porta em porta
morto de fome, a ito e derrotado
por meu amor vinha pedir esmola,
não foi por vós expulso nem xingado,
mas comeu e bebeu do que era vosso,
aquele a quem destes por amor de Deus,
aquele pobre, sabei agora, era eu”.
Da esquerda então hão de querer falar
mas Deus os calará com grão furor
dizendo: “Pecadores de maus feitos,
queimai no inferno em sempiterno ardor.
Não me destes de beber nem de comer
nem bem zestes por amor de mim.
Ide, malditos, para o fogo eterno,
onde tereis tormento sempiterno”.
Responderá aquela gente a ita :
“Quando, Senhor, foi que jamais te vimos
morto de fome, a ito e sofredor,
quando em prisão passaste tantas penas?”
Então responderá Cristo glorioso :
“Quando ao pobre expulsáveis com desprezo,
sem do mísero ter qualquer piedade,
nem lhe fazer nenhuma caridade”.
Como se pode notar, essas toscas oitavas reproduzem de maneira prosaica uma passagem do Evangelho de Mateus (25:41-46). Contudo, Menocchio se referiu a essa passagem e não ao texto evangélico. E aqui também a menção à página impressa — em substância, exata, excetuando-se a curiosa alteração que atribui aos anjos os protestos dos danados — resulta numa reelaboração. Porém, se nos casos anteriores a ênfase advinha principalmente de omissões, neste o procedimento é mais complexo. Menocchio dá um passo à frente — na aparência um passo mínimo, mas na verdade enorme — em relação ao texto: se Deus é o próximo “porque disse ‘Eu era aquele pobre’”, é mais importante amar ao próximo do que amar a Deus. Era uma dedução que intensi cava num sentido radical a insistência numa religiosidade prática, efetiva, comum a quase todos os grupos heréticos italianos da época. O bispo anabatista Benedetto d’Asolo também ensinava a fé em “um só Deus, um só Jesus Cristo, nosso senhor mediador” e a caridade com o próximo, porque “no dia do Juízo [...] não nos perguntarão outra coisa senão se demos de comer aos famintos, de beber aos sedentos, se vestimos os sem-roupas, visitamos os enfermos, demos pouso para os que passavam [...], sendo esses os fundamentos da caridade”. Todavia, a atitude de Menocchio em relação a esse tipo de prédica — se é que, como é provável, tenha chegado aos seus ouvidos — não era apenas receptiva. Uma tendência, claramente detectável, em reduzir a religião à moralidade a ora com frequência em seus discursos. Com uma argumentação incrível, em geral repleta de imagens concretas, Menocchio explicou ao inquisidor que blasfemar não é pecado “porque faz mal só a si próprio e não ao próximo, da mesma forma que, se eu tenho uma manta e decido desmanchá-la, faço mal só a mim mesmo e não aos outros, e acredito que quem não faz mal ao próximo, não comete pecado. Somos todos lhos de Deus e, se não nos zermos mal uns aos outros, como, por exemplo, se um pai tem muitos lhos e um deles diz ‘maldito seja meu pai’, o pai o perdoa, mas, se quebra a cabeça de um outro, o pai não pode perdoar. Ele tem que pagar por isso. E assim eu disse que blasfemar não é pecado porque não faz mal a ninguém”. Portanto, quem não faz mal ao próximo, não comete pecado: a relação com Deus se torna irrelevante diante da relação com o próximo. E, se Deus é o próximo, por que então Deus?
Na verdade, Menocchio não deu esse último passo, que o teria levado a a rmar um ideal de justa convivência humana, totalmente isento de conotações religiosas. Para ele, o amor ao próximo permanecia como um preceito religioso, ou melhor, o verdadeiro coração da religião. Em geral, suas atitudes eram oscilantes (por essa razão, no caso dele, deve-se falar apenas de uma tendencial redução da religião à moralidade). Costumava dizer aos seus concidadãos (segundo declarou a testemunha Bartolomeo di Andrea): “Eu ensino vocês a não fazer o mal, não roubar o que é dos outros e isso é o bem que se pode fazer”.
Entretanto, no interrogatório da tarde de 1 o de maio, ao
inquisidor que lhe pedira para precisar quais seriam as “obras de Deus” graças às quais se vai para o paraíso, Menocchio — que na verdade só falara de “boas obras” — respondeu: “Amá-lo [Deus], adorá-lo, santi cá-lo, reverenciá-lo e agradecer-lhe; e é preciso que se seja caridoso, misericordioso, pací co, amoroso, honrado, obediente aos superiores, que se perdoem as injúrias e se cumpram as promessas. Fazendo isso, se vai para o céu e isso basta para chegarmos lá”. Nesse caso, os deveres para com o próximo eram postos lado a lado com os deveres para com Deus, sem que fosse negada a superioridade dos primeiros em relação aos segundos. Mas a lista das “más obras” que veio a seguir — “roubar, assassinar, cometer usura, crueldades, desonra, vitupério e homicídio: estas são sete obras que desagradam a Deus, causam danos ao mundo e agradam ao demônio” — versava unicamente sobre as relações entre os homens, sobre a capacidade do homem de prejudicar o próximo. A religião simpli cada de Menocchio (“Fazendo isso, se vai para o céu e isso basta para chegarmos lá”) não podia ser aceita pelo inquisidor: “Quais são os mandamentos de Deus?”. “Acho”, respondeu Menocchio, “que são aqueles que eu acabei de citar.” “Evocar o nome de Deus, santi car as festas não são preceitos de Deus?” “Isso eu não sei.”
Na verdade, era justamente a insistência exclusiva na mensagem evangélica em sua forma mais simples e nua que permitia deduções extremas como as formuladas por Menocchio. Esse risco tinha sido pressentido com excepcional clareza, quase cinquenta anos antes, por um dos textos mais signi cativos do evangelismo italiano — um opúsculo anônimo publicado em Veneza sob o título Alcune ragioni del perdonare . O autor, Tullio Crispoldi, elaborando uma série de prédicas do bispo de Verona, Gian Matteo Giberti, do qual era el colaborador, se esforçava em demonstrar, com argumentos de todos os tipos, que o sumo da religião cristã consistia na “lei do perdão”, em perdoar o próximo para ser perdoado por Deus. A certa altura, porém, não se escondia que a “lei do perdão” podia ser interpretada de maneira exclusivamente humana, colocando, portanto, “em perigo” o culto a Deus: “O perdoar é um remédio tão grande e poderoso que Deus, ao fazer essa lei, pôs em perigo toda a fé que a ele se deve e até mesmo parece uma lei feita pelos homens, em nome de todos os homens, através da qual se diz abertamente que Deus não considera as injúrias que lhe fazemos, ainda que sejam tantas, desde que entre nós nos amemos e perdoemos. E de fato, se essa lei não desse a quem perdoa a graça de sair dos pecados e de ser homem de bem, poderia julgar-se que essa lei não fosse lei de Deus para governar os homens, e sim, unicamente, lei dos homens que, para viver em paz, não se preocupam com delitos ou pecados que são cometidos em segredo, de acordo ou de modo que não disturbem a paz e o viver no mundo. Mas, vendo que quem pela honra de Deus perdoa obtém o que deseja de Deus e que é de Deus o favorito, tornando-se apto só para as obras boas, fugindo das ruins, as pessoas con rmam e reconhecem a bondade de Deus conosco”.
Portanto, apenas a intervenção sobrenatural da graça divina impede que se assuma o núcleo da mensagem de Cristo (a “lei do perdão”) como um vínculo puramente humano, político. A eventualidade dessa interpretação mundana da religião está bem presente para o autor do opúsculo. Ele conhece (e em parte é in uenciado por ela) sua versão mais coerente, a de Maquiavel — e não a do Maquiavel disfarçado por uma tradição simpli cadora na teorização da religio instrumentum regni , mas o Maquiavel dos Discorsi , que reconhece na religião, acima de tudo, um poderoso elemento de coesão política. No entanto, o objetivo polêmico da passagem que citamos parece ser outro: não tanto julgar levianamente a religião de fora, e sim corroer os fundamentos de dentro . O temor expresso por Crispoldi de que a “lei do perdão” possa ser entendida como “uma lei feita pelos homens, em nome de todos os homens, através da qual se diz abertamente que Deus não considera as injúrias que lhe fazemos, ainda que sejam tantas, desde que entre nós nos amemos e perdoemos”, quase que refaz as palavras de Menocchio ao inquisidor, textualmente: “[...] acredito que quem não faz mal ao próximo, não comete pecado. Somos todos lhos de Deus e, se não nos zermos mal uns aos outros, como, por exemplo, se um pai tem muitos lhos e um deles diz ‘maldito seja meu pai’, o pai o perdoa, mas, se quebra a cabeça de um outro, o pai não pode perdoar. Ele tem que pagar por isso”.