O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 55 de 62

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O Queijo e os Vermes

56. Segunda sentença

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Após um novo interrogatório (19 de julho) perguntaram a Menocchio se queria um advogado. Respondeu: “Eu não quero outra defesa a não ser a misericórdia; todavia, se pudesse ter um advogado, eu o teria, mas sou pobre”. Durante o primeiro processo, Ziannuto lutara muito em favor do pai, procurara-lhe um advogado; porém, Ziannuto estava morto e os outros lhos não mexeram um dedo. Foi-lhe designado um advogado, Agostinho Pisensi, que em 22 de julho apresentou aos juízes uma longa defesa “do pobre coitado Dominici Scandella”. Nela a rmava que os testemunhos recolhidos eram de segunda mão, contraditórios e de cientes pela clara animosidade; isso demonstrava nitidamente a “pura simplicidade e ignorância” do acusado, para o qual se pedia absolvição.

Em 2 de agosto a congregação do Santo Ofício se reuniu: Menocchio foi declarado, por unanimidade, um “relapso”, um reincidente. O processo terminara. Decidiu-se, no entanto, submeter o réu a tortura, para arrancar-lhe o nome dos cúmplices. Isso aconteceu em 5 de agosto; no dia anterior, a casa de Menocchio fora revistada e, na presença de testemunhas, haviam sido abertas todas as caixas e con scados “todos os livros e escritos”. De que escritos se tratava, infelizmente não sabemos.

 

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Pediram-lhe que confessasse o nome de seus cúmplices, se não quisesse ser torturado. Respondeu: “Senhor, não me lembro de ter discutido com ninguém”. Tiraram sua roupa e observaram — como era prescrito pelos regulamentos do Santo O cio — se era apto para a tortura. Enquanto isso, continuavam a interrogá-lo. Respondeu: “Discuti com tantos que agora não me lembro”. Então foi amarrado e novamente lhe perguntaram a verdade sobre seus cúmplices. Mais uma vez respondeu: “Não me lembro”. Levaram-no para a câmara de tortura, repetindo sempre a mesma pergunta. “Pensei muito”, disse, “tentando me lembrar com quem eu tinha discutido, mas nunca consegui me lembrar.” Foi preparado para a tortura com cordas: “Ó Senhor Jesus Cristo, misericórdia, Jesus, misericórdia, eu não me lembro de ter discutido com ninguém, eu poderia até morrer por ter seguidores ou companheiros, mas eu li por conta própria, ó Jesus, misericórdia”. Deram-lhe o primeiro puxão: “Ó Jesus, Jesus, coitado de mim, coitado de mim”. “Com quem você discutiu?” — perguntaram-lhe. Respondeu: “Jesus, Jesus, não sei de nada”. Incitaram-no a dizer a verdade: “Eu a direi de boa vontade; me deixem sozinho para eu pensar”.

Fizeram-no descer. Pensou por um momento e depois disse: “Não me lembro de ter discutido com ninguém, nem sei de alguém que tenha a mesma opinião e não tenho certeza de nada”. Ordenaram que lhe fosse dado outro puxão. Enquanto o levantavam, gritou: “Ai de mim, ai de mim, mártir, Senhor Jesus Cristo”. Em seguida: “Senhor, deixem-me em paz que direi qualquer coisa”. Posto outra vez no chão, disse: “Discuti com o senhor Zuan Francesco Montereale, dizendo-lhe que não se sabia qual era a melhor fé”. (No dia seguinte, explicou: “O citado senhor Gio. Francesco me recuperou das minhas loucuras”.) Não conseguiram nada mais dele. Foi então desamarrado e levado novamente para a prisão. O escrivão observou que a tortura fora aplicada “com moderação”. Durara meia hora.

Pode-se imaginar o estado de ânimo dos juízes pela monótona repetição da pergunta. Talvez fosse o mesmo — mistura de tédio e desgosto — que o núncio Alberto Bolognetti testemunhara naquela época, falando do Santo Ofício e lamentando “o aborrecimento, para quem não é um modelo de paciência, de ter de ouvir as fraquezas de muitos, especialmente durante a tortura, em que deve ser anotada palavra por palavra”. O silêncio obstinado do velho moleiro devia lhes parecer incompreensível.

Assim, nem mesmo a dor física fora capaz de abater Menocchio. Não dera os nomes — ou melhor, dera um só, o do senhor de Montereale, o que parecia ter sido feito intencionalmente para dissuadir os juízes de uma investigação mais aprofundada. Sem dúvida tinha alguma coisa para esconder, mas, quando dizia “ter lido por conta própria”, decerto não estava muito longe da verdade.