O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 43 de 62

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O Queijo e os Vermes

44. Carta aos juízes

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“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Eu, Domenego Scandela, cognominado Menocchio de Montereale, sou cristão batizado, sempre vivi como cristão, z sempre obras de cristão, sempre fui obediente aos meus superiores e aos meus pais espirituais tanto quanto eu podia, e sempre, manhã e noite, me colocava sob o sinal da cruz, dizendo ‘em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo’; eu dizia o pai-nosso e a ave-maria e acredito que sejam, uma, oração do Senhor, e, outra, da Nossa Senhora, embora seja verdade que pensei, acreditei e disse, como aparece nas minhas con ssões, coisas contra os mandamentos de Deus e da Santa Igreja. Eu disse isso por vontade do falso espírito, o qual me cegara o intelecto, a memória e a vontade, fazendo-me pensar, acreditar e falar no falso e não na verdade e assim eu confesso ter pensado, acreditado, dito o falso e não a verdade, e assim dei a minha opinião, mas não disse que ela é a verdade. Vou dar como exemplo quatro palavras sobre José, lho de Jacó: ele falou com seu pai e irmãos sobre certos sonhos seus que signi cavam que eles deveriam adorá-lo; os irmãos se puseram a brigar com ele e queriam matá-lo, mas Deus não quis, e então o venderam a uns mercadores do Egito; lá foi para a prisão por causa de uns erros, e depois o rei faraó teve um sonho em que parecia ver sete vacas gordas e sete vacas magras e ninguém sabia interpretar tal sonho. Disseram-lhe que havia um jovem na prisão que saberia interpretá-lo, e assim ele foi retirado da prisão e levado diante do rei; ele lhe disse que as vacas gordas signi cavam sete anos de abundância e as magras sete anos de carestia. E assim o rei lhe deu fé e o fez príncipe e governador de todo o reino do Egito. Veio a abundância e José se proveu de grão para mais de vinte anos; depois veio a carestia, e não se trocava grão por dinheiro, o que ocorria também em Canaã. Jacó sabia que no Egito vendia-se grão; mandou dez dos seus lhos com seus animais para o Egito. Eles foram reconhecidos pelo irmão, que, com a permissão do rei, mandou alimentar o pai e toda a família com o que tinha de melhor. E assim viveram juntos no Egito, mas os irmãos se arrependiam de tê-lo vendido, e José, vendo-os assim, lhes disse: ‘Não foi culpa de vocês, mas vontade de Deus para que eu provesse à nossa necessidade, e quem alegres porque eu os perdoo de todo o coração’. E eu, por ter falado com meus irmãos e pais espirituais, fui por eles acusado e vendido ao grande pai inquisidor, e ele fez com que me trouxessem a este Santo Ofício, e me puseram na prisão. Mas eu não acho que seja culpa deles, e sim vontade de Deus. Não sei se eles são irmãos ou pais espirituais, mas eu os perdoo para que assim Deus me perdoe da mesma maneira. Deus quis que eu fosse conduzido a este Santo Ofício por quatro razões: primeiro, para que eu confessasse meus erros; segundo, para que eu zesse penitência por meus pecados; terceiro, para me livrar do falso espírito; quarto, para dar exemplo a meus lhos e a todos os meus irmãos espirituais para que não incorressem nesses erros. Entretanto, se eu pensei, acreditei, falei e fui contra os mandamentos de Deus e da Santa Igreja, estou doente e a ito, arrependido e infeliz e digo mea colpa mea masima colpa , e peço perdão e misericórdia, pela remissão dos meus pecados, à Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, e também à gloriosa Virgem Maria, a todos os santos e santas do paraíso e à sua santíssima, reverendíssima e ilustríssima justiça que me perdoe e tenha misericórdia. Eu peço em nome da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não se declare a minha sentença com ira e injustiça, mas com amor, caridade e misericórdia. Os senhores sabem que Nosso Senhor Jesus Cristo foi misericordioso e perdoou e perdoará sempre: perdoou Maria Madalena, que foi pecadora, perdoou são Pedro, que o negou, perdoou o ladrão, que tinha roubado, perdoou os judeus, que o cruci caram, perdoou são Tomé, que duvidou do que viu e quis tocar. Dessa forma eu acredito rmemente que ele me perdoará e terá misericórdia de mim. Fiz penitência na prisão escura durante 104 dias, para vergonha, ruína e desespero da minha casa e de meus lhos, mas eu peço aos senhores, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua mãe gloriosa, a Virgem Maria, que a transformem em caridade e misericórdia; não queiram ser a causa da separação da minha companheira e dos lhos que Deus me deu para minha alegria e consolação. Eu prometo assim não incorrer mais naqueles erros, ser obediente a todos os meus superiores e pais espirituais em tudo o que eles me ordenarem e a nada mais. Espero sua santíssima, reverendíssima e ilustríssima sentença como ensinamento do viver como cristão, e assim poder ensinar meus lhos a serem verdadeiros cristãos. Foram estas as causas dos meus erros: primeira, eu acreditava em dois mandamentos, amar a Deus e amar ao próximo, e acreditava que isto bastasse; segunda, por ter lido o livro do Mandavilla, sobre tantas espécies de raças e diversas leis, que me confundiu; terceira, meu intelecto e memória me faziam saber o que não era necessário; quarta, o falso espírito estava sempre me rondando para que eu pensasse o falso e não a verdade; quinta, a discordância que existia entre mim e o nosso pároco; sexta, eu trabalhava muito, cava fraco e assim não podia cumprir todos os mandamentos de Deus e da Santa Igreja. Faço minha defesa na esperança do perdão e da misericórdia, sem ira ou injustiça, e assim peço a Nosso Senhor Jesus Cristo e aos senhores misericórdia, perdão, sem ira ou injustiça. E não levem em conta minha falsidade e ignorância.”