O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 44 de 62

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O Queijo e os Vermes

45. Figuras de retórica

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O próprio aspecto das páginas escritas por Menocchio, com as letras coladas umas às outras, mal ligadas entre si (segundo um tratado contemporâneo de caligra a, assim fariam “os transmontanos, as mulheres e os velhos”), mostra claramente que o autor não tinha muita familiaridade com a escrita. Impressão bem diferente causa o traçado uente e nervoso de dom Curzio Cellina, escrivão em Montereale e um dos acusadores de Menocchio no período do segundo processo.

Com certeza Menocchio não frequentara escola alguma de nível superior, e aprender a escrever deve ter lhe custado muito, mesmo sicamente, o que se percebe por alguns sinais que mais parecem talhados na madeira do que traçados sobre o papel. Já com a leitura devia ter familiaridade bem maior. Embora fechado “na prisão escura durante 104 dias”, evidentemente sem livros à disposição, conseguira descobrir na memória frases que foram lentamente e durante muito tempo assimiladas da história de José, lida na Bíblia e no Fioretto . É a essa familiaridade com a página escrita que devemos as características particulares da carta enviada aos inquisidores.

Nela podemos distinguir as seguintes passagens: 1. Menocchio a rma ter sempre vivido como bom cristão, embora reconheça ter violado os mandamentos de Deus e da Igreja; 2. declara que a origem de tal contradição está no “falso espírito” que o levou a crer e a falar no falso — apresentado por ele, porém, como “opinião” e não como verdade; 3. compara-se a José; 4. enumera quatro causas pelas quais Deus quis que ele fosse aprisionado; 5. compara os juízes a Cristo misericordioso; 6. implora o perdão dos juízes; 7. enumera as seis causas dos próprios erros. A essa ordenada estrutura externa corresponde, no plano interno, uma linguagem repleta de simetrias, aliterações, guras retóricas como a anáfora ou a derivação. Basta examinar a primeira frase: “Sou cristão batizado, sempre vivi como cristão, z sempre obras de cristão...”; “sempre vivi [...], z sempre [...], sempre...”; “e sempre, manhã e noite, me colocava sob o sinal da cruz...”. Naturalmente Menocchio fazia retórica sem saber, assim como ignorava que as primeiras quatro “causas” que ele enumerou eram causas nais e as outras seis causas e cientes. Mas a densidade das aliterações e guras retóricas de sua carta não era casual, e sim imposta pela exigência de se expressar numa linguagem capaz de se xar facilmente na memória. Antes de se tornarem sinais numa página, aquelas palavras devem ter sido ruminadas por muito tempo. Todavia, desde o início haviam sido pensadas como palavras escritas. A “fala” de Menocchio — do que podemos conjecturar das transcrições feitas pelos escrivães do Santo Ofício — era diferente, se não por outra razão, porque intricada de metáforas, absolutamente ausentes na carta enviada aos juízes.

A associação (constatada) entre Menocchio e José e a (desejada) entre os juízes e Cristo não são de fato metafóricas. A Escritura fornece uma rede de exempla a que a realidade presente se adapta ou deve se adaptar. Porém, justamente a fórmula do exemplum faz com que a ore, extrapolando as intenções de Menocchio, o conteúdo latente da carta. Menocchio se considera uma espécie de José não só porque é também uma vítima inocente, mas porque é capaz de revelar verdades desconhecidas por todos. Os que, como o pároco de Montereale, o acusaram e o zeram prender, são comparáveis aos irmãos de José, envolvidos pelos imperscrutáveis desígnios de Deus. Mas o protagonista é ele, Menocchio-José. É ele quem perdoa os irmãos malvados, na verdade instrumentos cegos de uma vontade superior. Esse paralelo desmentia antecipadamente as súplicas de misericórdia com que terminava a carta. Até mesmo Menocchio percebeu algo falso: “Não sei se eles são irmãos ou pais espirituais” — acrescentou, tentando restabelecer a relação de reverência lial que era negada, de fato, por suas atitudes. Entretanto, tomou suas precauções, não se sujeitando cegamente aos conselhos do

lho, que através do pároco lhe havia sugerido que prometesse “toda obediência à Santa Igreja”. Embora reconhecesse os próprios erros, se por um lado Menocchio os inseria numa perspectiva de entrega à Providência, por outro explicava-os com motivos que, excetuando-se a alusão ao “falso espírito”, não cediam muito ao ponto de vista dos inquisidores. Esses motivos decerto foram enumerados em ordem decrescente de importância. Há duas remissões a textos, uma implícita e outra explícita: uma passagem das Escrituras (Mateus, 22:36-40), interpretada literalmente, e as Viagens de Mandeville, lidas segundo a chave já examinada. Além disso, há mais duas motivações de caráter interior: a inquietação do “intelecto e da mente” e a tentação do “falso espírito”, o qual, dissera no processo, vive na parte “escura” do coração dos homens. E,

nalizando, há duas circunstâncias externas: sua inimizade com o pároco e a debilidade física muitas vezes invocada para justi car suas violações do jejum preceituado. Então, temos os livros, as reações aos livros (“acreditava em dois mandamentos [...] que me confundiu”), as deduções a partir dos livros, os comportamentos. Nessa lista de motivos, só aparentemente heterogênea, existia uma concatenação indubitável. Apesar do patético apelo nal (“E não levem em conta minha falsidade e ignorância”), Menocchio não renunciava a discutir, a argumentar.