O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 29 de 62

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O Queijo e os Vermes

29. As palavras do Fioretto

Menocchio era conscientemente orgulhoso da originalidade de suas ideias e, por isso, desejava expô-las às mais altas autoridades civis e religiosas. Ao mesmo tempo, porém, sentia necessidade de dominar a cultura dos seus adversários. Compreendia que a escritura e a capacidade de dominar e transmitir a cultura escrita eram fontes de poder. Não se limitou, portanto, a denunciar a “traição dos pobres” pelo uso de uma língua burocrática (e sacerdotal) como o latim. O horizonte de sua polêmica era mais amplo. “O que é que você pensa, os inquisidores não querem que nós saibamos o que eles sabem” — exclamou muitos anos depois da ocorrência dos fatos que estamos contando, dirigindo-se a um conterrâneo, Daniel Jacomel. Entre “nós” e “eles” a contraposição era clara. “Eles” eram os “superiores”, os poderosos — não só os situados no vértice da hierarquia eclesiástica. “Nós”, os camponeses. É quase certo que Daniel era analfabeto (durante o segundo processo, citou algumas palavras de Menocchio, todavia não assinou o depoimento). Menocchio, ao contrário, sabia ler e escrever, mas nem por isso pensava que a longa luta que iniciara com as autoridades dissesse respeito só a ele. O desejo de “procurar coisas maiores”, que confessara de maneira vaga doze anos antes perante o inquisidor de Portogruaro, continuava a parecer-lhe não só legítimo, como potencialmente ao alcance de todos. Ilegítima, ou melhor, absurda devia lhe parecer, ao contrário, a pretensão dos clérigos em manter o monopólio de um conhecimento que podia ser comprado por “dois soldos” nas banquinhas de livreiros em Veneza. A ideia da cultura como privilégio fora gravemente ferida (com certeza não eliminada) pela invenção da imprensa.

 

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Justamente nas páginas do tal Fioretto della Bibbia comprado em Veneza por “dois soldos” Menocchio encontrara os termos eruditos que des lavam em suas con ssões ao lado de palavras empregadas no dia a dia. Assim, no interrogatório de 12 de maio, encontramos “criança no ventre da mãe”, “rebanho”, “carpinteiro”, “banco”, “trabalhador”, “queijo”, “vermes”, mas também “imperfeito”, “perfeito”, “substância”, “matéria”, “vontade, intelecto e memória”. A primeira parte do Fioretto , em especial, caracteriza-se, à primeira vista, por uma mistura análoga de léxico humilde e so sticado. Tomemos o capítulo III, “Como Deus não pode querer o mal e muito menos recebê-lo”: “Deus não pode querer o mal nem recebê-lo, porque ordenou esses elementos de forma que um não interferisse no outro e assim estarão enquanto o mundo durar. Alguns dizem que o mundo durará eternamente, dando como razão que, quando um corpo morre, a carne e os ossos voltam àquela matéria da qual foram criados [...]. Podemos ver facilmente a função da natureza, como ela concilia as coisas discordantes de modo que todas as diversidades são reduzidas à unidade, e as combina em cada corpo, em cada substância: e combina também em plantas e sementes. Pela combinação do homem e da mulher, engendra as criaturas segundo o curso natural. Júpiter gera outras criaturas e, através de Júpiter, outras criaturas são geradas de acordo com a ordem da natureza. Entretanto, pode-se ver que a natureza está sujeita a Deus...”.

“Matéria”, “natureza”, “unidade”, “elementos”, “substância”; a origem do mal; a in uência dos astros; a relação entre criador e criatura. Exemplos como esses poderiam ser facilmente encontrados. Alguns conceitos cruciais e alguns dos temas mais discutidos na tradição cultural da Antiguidade e da Idade Média chegaram até Menocchio através de um pobre e desordenado compêndio, o Fioretto della Bibbia . É difícil supervalorizar sua importância. Antes de mais nada, deu a Menocchio instrumentos linguísticos e conceituais para que ele elaborasse e exprimisse sua visão de mundo. Além disso, com um método expositivo à maneira dos escolásticos — enunciação e subsequente refutação de opiniões errôneas —, contribuiu certamente para desencadear sua voraz curiosidade intelectual. O patrimônio doutrinal que o pároco de Montereale apresentava como um edifício compacto e inatacável revelava-se sujeito às interpretações mais contrastantes no Fioretto . No capítulo XXVI, por exemplo, “Como Deus inspira as almas nos corpos”, Menocchio teve a oportunidade de ler: “Muitos lósofos foram enganados e incorreram em grandes erros sobre a criação das almas. Alguns disseram que as almas são feitas eternamente. Outros dizem que todas as almas são uma e que os elementos são cinco, os quatro citados acima e ainda um outro, chamado orbis , e dizem que desse orbis Deus fez a alma de Adão e todas as outras. E por isso dizem que o mundo não acabará jamais, porque, quando o homem morre, retorna aos seus elementos. Outros dizem que as almas são aqueles espíritos malignos que caem e entram então nos corpos humanos e, se um morre, entram em outro corpo, e tanto fazem até que eles se salvam: dizem que, no m do mundo, todos esses se salvarão.

Outros dizem que o mundo não vai acabar e no início do 34 o

milênio uma nova vida irá começar e cada alma retornará ao seu corpo. Tudo isso são erros e quem os disse são pagãos, heréticos, cismáticos, inimigos da verdade e da fé, desconhecedores das coisas divinas. Respondendo aos primeiros que dizem...”. Mas Menocchio não se deixava intimidar pelos ataques do Fioretto . E sobre essa questão não hesitou em se manifestar. O exemplo dos “muitos lósofos”, em vez de fazê-lo submeter-se à interpretação da autoridade, levava-o a “procurar coisas maiores”, a seguir a linha do seu próprio pensamento.

Assim, uma massa de elementos compostos — antigos e não tão antigos — convergiu para uma construção nova. Sobre um muro via-se um fragmento quase irreconhecível de um capitel ou o per l semidestruído de um arco pontiagudo: mas o esboço do edifício era seu, de Menocchio. Com inconsciente desenvoltura servia-se de vestígios de pensamentos alheios como de pedras e tijolos. Porém, os instrumentos linguísticos e conceituais com os quais tomou contato não eram neutros nem inocentes. Aqui está a origem da maior parte das contradições, incertezas e incongruências de seus discursos. Empregando uma terminologia embebida de cristianismo, neoplatonismo e