O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 56 de 62

Páginas do PDF

O Queijo e os Vermes

58. Scolio

58

Com seu silêncio, Menocchio pretendia frisar para os juízes, até o último instante, que seus pensamentos haviam surgido no isolamento, em contato exclusivo com os livros. Contudo, nós já vimos que ele projetava sobre a página impressa elementos tirados da tradição oral.

É essa tradição, profundamente radicada nos campos europeus, que explica a persistência tenaz de uma religião camponesa, intolerante quanto aos dogmas e cerimônias, ligada aos ciclos da natureza, fundamentalmente pré-cristã. Em muitos casos tratava-se de matéria realmente estranha ao cristianismo, como com os guardas de rebanhos dos campos de Eboli, que, em meados do século XVII, pareciam aos consternados jesuítas “homens, que de homens só têm a forma, não muito diferentes em capacidade e pensamento dos animais de que cuidavam; totalmente ignorantes não só das orações ou outros mistérios próprios da Santa Fé, mas do próprio conhecimento de Deus”. Porém, mesmo em situações de menor isolamento geográ co e cultural é possível descobrir indícios de uma religião camponesa, que assimilara e remodelara elementos estranhos — a começar pelos do cristianismo. O velho camponês inglês que pensava em Deus como “um bom velho”, em Cristo como “um belo jovem”, na alma como “um grande osso cravado no corpo”, e no além como “um lindo campo verde” para onde se iria caso se se comportasse bem, decerto não ignorava os dogmas do cristianismo: simplesmente os traduzia em imagens que correspondiam à sua realidade, às suas aspirações e fantasias.

Nas con ssões de Menocchio assistimos a um processo semelhante. Naturalmente, seu caso é muito mais complexo, porque envolve a mediação da escrita e o esfacelamento de grande parte da religião tradicional, derrubada pelos golpes das tendências mais radicais da Reforma. Mas o procedimento é o mesmo; não se trata de um caso excepcional.

Cerca de vinte anos antes do processo contra Menocchio, um desconhecido camponês de Lucca, que se escondia sob o pseudônimo de Scolio, falou de suas próprias visões num longo poema de argumento religioso e moral, entremeado por re exos da poesia de Dante, que permaneceu inédito: o Settennario . O tema central é insistentemente reiterado: as várias religiões têm um núcleo comum, constituído pelos dez mandamentos. Aparecendo sobre uma nuvem de ouro, Deus explica a Scolio:

 

... vários profetas enviei

e diversos, porque diversos eram

os a que meus profetas destinavam-se;

eu lhes dei outrossim diversa lei

pois diversos costumes encontrei :

o médico varia as purgações

conforme às naturais constituições.

Envia o imperador três capitães

um à África, outro à Ásia, outro à Europa :

aos Judeus cabe, e aos Turcos, e aos Cristãos,

receber uma cópia da sua lei;

segundo os vários como estranhos usos,

a cada qual confere uma lei própria,

embora a todos dê dez mandamentos,

os mesmos, que comentam variamente.

Mas há um só Deus e uma fé somente...

 

Entre os “capitães” enviados pelo “imperador”, está também Maomé, “reputado pelos criminosos como sendo entre os malvados o melhor: / embora fosse profeta e grande guerreiro de Deus”, colocado no nal de uma lista que compreende Moisés, Elias, Davi, Salomão, Cristo, Josué, Abraão e Noé. Turcos e cristãos devem acabar com as lutas e chegar à conciliação:

Turco, tu, e tu, Cristão, por meu decreto

não andareis mais como antigamente :

pois o Turco irá dar um passo à frente

e tu, Cristão, darás um passo retro.

 

Isso é possível porque os dez mandamentos constituem a base não só das três grandes religiões mediterrâneas (note-se a tradição da lenda dos três anéis), mas também das religiões passadas e das que ainda virão: a quarta, não especi cada; a quinta, que “Deus nos deu nos nossos dias” e que é representada pela profecia de Scolio, e as duas futuras, que completam o fatídico número sete.

O conteúdo religioso da profecia de Scolio é, como podemos ver, muito simples. Basta respeitar os dez mandamentos, os “grandes preceitos da natureza”. Os dogmas, começando pelo da Trindade, são negados:

 

Não se adore nem creia que um Deus só

não tenha companheiro, amigo ou lho :

é lho seu e servo e amigo quem

seus preceitos cumpre e ao dito atém-se.

Não adoreis outrem, ou Esp’ito Santo :

Sou Deus e Deus está em toda parte.

 

Os únicos sacramentos mencionados são o batismo e a eucaristia. O primeiro é reservado aos adultos:

 

Circuncise-se em todo oitavo dia

e se batize após trinta anos, isto

como Deus e os profetas ordenaram

e como são João batizou ao Cristo.

 

A eucaristia é substancialmente desvalorizada: “E se eu lhes disse”, a rma Cristo,

 

que o pão abençoado

era o meu corpo e era o meu sangue o vinho,

vo-lo disse porque me era dileto,

porque era um cibo e um sacrifício pio

mas não vo-lo ordenei como decreto

e sim porque a Deus lembram pão e vinho.

Em nada importam vossos argumentos

e sim cumprir com os dez mandamentos.

 

Não se trata somente de inquietação pelas discussões teológicas sobre a presença real; pela boca de Cristo, Scolio chega a negar qualquer valor sacramental ao batismo e à eucaristia:

 

O meu batismo com o sacrifício,

a minha morte e a comunhão e a hóstia

mandamentos não são mas um ofício

a ser feito às vezes em minha memória.

 

O que conta, visando à salvação, mais uma vez é apenas a observação literal dos dez mandamentos, “sem glosa ou comentário algum”, sem interpretações ditadas por “silogismo ou lógica extravagante”. As cerimônias religiosas são inúteis; o culto deve ser muito simples:

 

Que não haja colunas nem guras

nem música nem órgãos, instrumentos,

nem campanários, sinos ou pinturas,

nem relevos nem frisos, ornamentos :

sejam todas as coisas simples, puras

e só se escutem os dez mandamentos...

 

A palavra de Deus é muito simples e ele quis que Scolio escrevesse seu livro numa língua que não fosse “inchada, escura, culta e afetada/ mas larga e plana”.

Apesar das a nidades (provavelmente independentes das ligações diretas e, em todo caso, não documentadas) com as doutrinas dos anabatistas, as a rmações de Scolio parecem partir muito mais daquela corrente subterrânea de radicalismo camponês. Para Scolio o papa não é o Anticristo (mesmo estando sua gura, como veremos, destinada a desaparecer no futuro); o exercício da autoridade não é, como para os anabatistas, intrinsecamente intolerável. É bem verdade que os detentores do poder devem governar paternalmente:

 

Se o Senhor meu te fez seu intendente

e te incumbiu da administração,

se te fez duque, papa, imperador,

se deu-te humanidade e discrição,

se te deu graça, empenho, honra, vigor,

hás de ser nosso pai e defensor,

o que tens não é teu, é doutros, meu;

salvo a tua honradez, tudo é de Deus.

 

A sociedade sonhada por Scolio é pia e austera, como nas utopias camponesas: livre das pro ssões inúteis (“Não existam lojas ou artes manuais / senão as mais importantes e principais;/ estime-se como vaidade toda sabedoria de médicos e vivam sem doutores”), baseada em agricultores e guerreiros, governada por um único soberano, que é o próprio Scolio.

 

[...] que o jogo e as putas, com o botequim,

o bêbado e o bufão, tenham um m

e quem faça o mister de lavrador

prime no que útil e louvável for;

que todo quanto pela fé combata

receba louvação e boa paga;

soberba, crápula, arrogância, pompa,

superstição, vanglória — ndem todas.

Interditem-se almoços, ceias fartas

onde a ebriez e a crápula fazem praça;

que aromas, banhos, danças, jogos, sons,

vestir, calçar sejam pobres e poucos;

que um só monarca reine, homem carnal,

sobre o espiritual e temporal,

que um homem seja o só rei e senhor,

e haja um só rebanho e um único pastor.

 

Nessa sociedade futura, as injustiças desaparecerão: a “idade do ouro” retornará. A lei “breve, clara e comum” estará

 

em mão de todos

porque, por tal razão, dará bons frutos;

posta em vulgar, para que a entendam bem,

fugindo ao mal e perseguindo o bem.

 

Um igualitarismo rígido abolirá as disparidades econômicas:

 

Homem ou mulher, basta-lhe ter boca

para já merecer com que viver.

Que não logre ninguém ter mais do que

o honesto pra viver e se vestir,

comendo melhor ou melhor vestindo-se,

pois quem quer mandar tem de obedecer.

É ímpio, desumano que desfrutes

enquanto um outro, ou eu, por ti sofremos.

Deus nos fez ricos, nunca nos fez servos :

por que desejas que te sirva e ceve?

Nato em cidade, em vila ou em castelo,

seja de baixa ou superior linhagem,

diferença não haja entre este e aquele :

que ninguém tenha a mínima vantagem.

 

Mas essa sociedade sóbria e pia é só uma das faces — a face terrena — da utopia camponesa de Scolio. A outra, a ultraterrena, é bem diferente: “Só é lícito no céu, não neste mundo,/ viver em abundância e feliz”. O além que é revelado a Scolio numa de suas primeiras visões é realmente um reino de abundância e prazer:

 

Deus me levou no sábado seguinte

a um monte de onde vê-se o mundo inteiro;

que paraíso, que lugar tão belo!

Muro de gelo e fogo circundavam

belos jardins, belíssimos palácios,

vergéis, orestas, prados, rios, lagos;

iguarias do céu, preciosos vinhos

havia ali e almoços, ceias, ganhos;

em ouro, seda e linho os aposentos;

donzelas escolhidas, pajens, leitos,

árvores, relvas, bichos, isso tudo

dez vezes por dia renovava os frutos.

 

Percebe-se aqui um eco do paraíso do Alcorão — associado ao sonho camponês da opulência material, que é expresso logo em seguida através de elementos que relembram um mito já encontrado. O Deus que aparece para Scolio é uma divindade andrógina, uma donnhoma , com “as mãos abertas, os dedos erguidos”. De cada dedo, simbolizando um dos dez mandamentos, brota um rio no qual beberão os seres viventes:

 

De mel suave é cheio o rio primeiro,

de duro e uido açúcar o segundo,

ambrosia tinha o terceiro, e o quarto

néctar, maná o quinto, o sexto pão :

tão branco e leve não se viu no mundo,

faz até morto reviver jocundo.

Bem disse, e com verdade, um homem pio

que na cara do pão Deus se gura.

De águas preciosas é composto o sétimo,

o oitavo de manteiga branca e fresca,

o nono de perdizes saborosas,

gordas, do próprio paraíso vindas;

de leite o décimo, com ricas pedras

é feito o leito deles a que aspiro,

as ribas de ouro, lírios, violetas,