Para Entender O Capital: Livros II e III
A “Peculiaridade” do Capital Fixo
Diz Marx no início do capítulo 8:
uma parte do capital constante conserva a forma de uso
determinada em que entra no processo de produção, diante dos produtos para cuja criação ele contribui. Ele executa, portanto, as mesmas funções, durante um período mais curto ou mais longo, em processos de trabalho que se repetem constantemente. Assim ocorre, por exemplo, com os edifícios de trabalho, as máquinas etc.
A palavra que Marx usa repetidas vezes para descrer a circulação do
capital fixo é peculiar. “A peculiaridade dessa parte do capital constante – dos meios de trabalho propriamente ditos – é, portanto, a seguinte [...]”, diz ele no início do segundo parágrafo e, na sequência, lemos: “a circulação da parte do capital aqui considerada é uma circulação peculiar”. Mas o que há exatamente de peculiar nisso e por que essa peculiaridade é importante?
“Antes de tudo, ela não circula em sua forma de uso, mas é apenas seu
valor que circula e, mesmo assim, gradualmente, de modo fragmentado, à medida que vai sendo transferido ao produto, que circula como mercadoria”. Uma parte do valor permanece fixada à máquina ou à fábrica enquanto ela continua a funcionar, e o capital fixo permanece distinto e separado das mercadorias que ajuda a produzir. “Por meio dessa peculiaridade, essa parte do capital constante assume a forma de capital fixo. Ao contrário, todas as outras partes que integram o capital desembolsado no processo de produção constituem capital circulante ou líquido”.
A materialidade do capital fixo não é incorporada na mercadoria, mas seu
valor sim. Desse modo, o capital fixo não circula em sua forma de valor material, mas ideal (socialmente determinada). O capital fixo (maquinaria, por exemplo) funciona materialmente como um meio de trabalho, em oposição aos objetos do trabalho (as matérias-primas e outros meios de produção), que são transformados em mercadorias para serem vendidos no mercado. O capital fixo compartilha esse caráter de ser meios de trabalho com outros inputs auxiliares de capital constante na produção. A energia – carvão para as máquinas a vapor ou gás para a iluminação – também não entra no valor de uso material da mercadoria produzida. Seu valor é adicionado à mercadoria à medida que seu ser físico é consumido na produção. No caso do capital fixo, no entanto, esse consumo dura muitos ciclos de rotação e, no caso de inputs de energia, eles são “integralmente consumidos no produto para cuja criação contribuem”. É por essa razão que o capítulo sobre o tempo de rotação do capital é tão crucial. O capital fixo é “fixo” em relação ao tempo de rotação, e o tempo de rotação varia bastante de um setor industrial para outro.