Para Entender O Capital: Livros II e III

David Harvey · Capítulo 21 de 61

Páginas do PDF

Para Entender O Capital: Livros II e III

A Produção do Espaço

 

Há um detalhe particular na argumentação de Marx ao qual dou grande

importância (embora talvez imerecida), em razão do meu interesse pela urbanização. Quando Marx considera de que forma a reposição do capital fixo incorporado na terra poderia se converter em expansão, ele faz a seguinte observação:

[Tudo] depende, em grande parte, do espaço disponível. Em

alguns edifícios, é possível erguer andares adicionais; em outros, faz-se necessária a expansão da superfície, isto é, a ampliação do terreno. Na produção capitalista ocorrem, por um lado, muito desperdício de recursos e, por outro, uma grande quantidade de expansões contraproducentes desse tipo (prejudicando, em parte, a força de trabalho) na ampliação gradual das indústrias, porque nada se realiza de acordo com um planejamento social, mas conforme as circunstâncias, meios etc. infinitamente distintos com os quais opera o capitalista individual. Isso provoca um grande desperdício de forças produtivas.

Esse reinvestimento fragmentado do fundo monetário de reserva

(isto é, da parte do capital fixo reconvertida em dinheiro) é mais fácil na agricultura. Um campo de produção de uma dada área é, aqui, capaz da maior absorção gradual de capital. O mesmo se aplica a áreas onde há reprodução natural, como na criação de gado.

Em minha obra, apelo com frequência para a necessidade da absorção de

capital por meio da produção do espaço (com ênfase considerável no fato de que essa produção pode ter um caráter especulador e desperdiçador, como, por exemplo, no caso da suburbanização capitalista). E eis que Marx fala dos aspectos espaciais da absorção do capital – que com frequência são desperdiçadores, devido à concorrência capitalista e ao fracasso do planejamento social. Não cito essa passagem para sugerir que Marx era um brilhante precursor de tudo que foi escrito desde então sobre questões espaciais, nem para sugerir que essa passagem legitima a tradição marxista da teorização da produção do espaço nas obras de Henri Lefebvre e de geógrafos radicais em tempos mais recentes. Ao contrário, o que pretendo demonstrar é que se estamos – e creio que seja este o caso – interessados em integrar as teorias da produção do espaço na teoria geral de Marx sobre a acumulação do capital, isso deve ser feito essencialmente por meio da extensão sistemática do material, reunido tanto aqui quanto nos Grundrisse, sobre a formação e a circulação do capital fixo, em particular daquela parte do capital fixo incorporada na terra. Os processos que Marx descreve aqui, por exemplo, não se restringem à agricultura. Eles são tão relevantes para explicar a construção de condomínios residenciais com a finalidade de absorver capital excedente quanto para explicar a produção de repolhos. As crises na produção do espaço, cujas consequências podemos ver ao nosso redor, derivam, em última instância, das contradições entre a fixidez e o movimento tão claramente identificadas por Marx.