Para Entender O Capital: Livros II e III
A Acumulação no Setor I
No setor I há dois tipos de capitalistas: os que estão entesourando
(designados como A, A’, A’’...) e os que estão no processo de gastar a poupança que fizeram para comprar novamente capital constante e variável (designados como B, B’, B’’...). Essas duas categorias “se confrontam, uns como compradores, os outros como vendedores”, e suas atividades compensam parcialmente uma à outra. Enquanto um capitalista retira dinheiro da circulação para entesourar, o outro lança de volta no mercado um poder de compra extra. Com sorte, as atividades dos entesouradores e dos gastadores se compensarão mutuamente. Mas, mesmo que isso ocorra:
Esses numerosos pontos nos quais o dinheiro é retirado da
circulação e acumulado em numerosos tesouros individuais, ou em capitais monetários potenciais, parecem ser outros tantos obstáculos à circulação, porquanto imobilizam o dinheiro e o privam por um tempo mais ou menos longo de sua capacidade de circular.
E há sempre o perigo de um desequilíbrio – entesouramento em excesso
e compras insuficientes.
O sistema de crédito oferece uma solução:
Compreende-se o prazer que se sente quando, no interior do
sistema de crédito, todos esses capitais potenciais, graças a sua concentração nas mãos de bancos etc., transformam-se em capital disponível, “loanable capital” [capital que pode ser emprestado], capital monetário, e, mais precisamente, deixam de ser capital
passivo, como música do futuro23, e se tornam capital ativo,
usurante (o verbo usurar aqui no sentido de crescer)24.
É interessante que ele chame esse capital monetário de “usurante”. Como
é praxe em todo o Livro II, no entanto, a “satisfação” potencial que é obtida com a solução baseada no crédito é deixada de lado. É preciso encontrar uma solução fora dele. Somente então seremos capazes de entender a natureza do problema que o sistema de crédito resolve.
Um “equilíbrio real” na produção e realização dos valores (inclusive
maisvalores) requereria um “importe igual de valor das mercadorias reciprocamente intercambiadas”.
[Esse] equilíbrio só existe no caso de o importe de valor das
compras unilaterais coincidir com o importe de valor das vendas unilaterais. O fato de a produção de mercadorias ser a forma geral da produção capitalista implica já o papel que o dinheiro desempenha nesta última, não só como meio de circulação, mas como capital monetário na esfera da circulação [...] [isso] gera certas condições do intercâmbio normal – ou seja, do transcurso normal da reprodução – que são peculiares a esse modo de produção, seja em escala simples, seja em escala ampliada, condições que se convertem em outras tantas condições do transcurso anormal, em possibilidades de crises, já que o próprio equilíbrio, dada a configuração natural-espontânea dessa produção, é algo acidental.
Isso implica que as intervenções de capital monetário, embora
necessárias, são potencialmente desestabilizadoras. Mais uma vez, é o capital monetário que parece estar na raiz do problema.
Os equilíbrios adequados são restaurados mediante crises? Marx não diz.
Isso fica como uma questão importante e em aberto. No desenvolvimento subsequente dos esquemas, ele expõe exatamente o que os equilíbrios teriam de ser para que fosse atingido o equilíbrio (sob certos pressupostos, é claro). Segundo a minha interpretação, Marx está dizendo (embora eu possa estar errado) que esses equilíbrios seriam obtidos, na melhor das hipóteses, por acidente e, na pior, por violentos abalos provocados por crises.
Considerações similares afetam a expansão do capital variável
empregado. A expansão de gastos em capital variável no setor I cria uma maior demanda para os bens de salário produzidos no setor II. A classe trabalhadora do setor I “se confronta com ele [o capitalista IIc] unilateralmente como compradora de mercadorias”, e “com o capitalista I unilateralmente como vendedora [...] de sua força de trabalho”. Assim, ela compra de um setor (II) e vende em outro (I).
Esses pressupostos necessários se condicionam mutuamente,
mas são mediados por um processo muito complicado, que inclui
três processos de circulação, independentes entre si, porém entrelaçados. A própria complexidade do processo oferece outras tantas ocasiões para um transcurso anormal.
Mais uma vez, a indicação é de que crises de algum tipo são altamente
prováveis.
Para formar seu tesouro, os capitalistas têm primeiro de vender a
mercadoria que contém o mais-valor produzido pelo trabalhador. É o trabalhador quem de fato produz o tesouro, o capital monetário potencial. No setor I, encontramos a produção de “meios de produção que criam meios de produção”. Uma expansão da produção de meios de produção que criam meios de produção implica, no entanto, uma diminuição na produção de meios de produção para o setor que produz bens de consumo.
Para que se possa operar a transição da reprodução simples à
reprodução ampliada, a produção no setor I tem, pois, de estar em condições de produzir menos elementos de capital constante para II, mas a mesma quantidade de elementos a mais para I. Essa transição, que nem sempre se realiza sem dificuldade, é facilitada pelo fato de que uma certa quantidade de produtos de I pode servir
como meios de produção em ambos os setores. 25
De fato, é importante notar que muitos produtos – a energia é o exemplo
mais óbvio – podem servir igualmente como meios de produção em qualquer um dos setores. Mas creio que o ponto principal desse argumento teve enormes consequências. Esse ponto sustenta a visão que dominou muito tempo a estratégia socialista de desenvolvimento: a de que é preciso priorizar a expansão do output no setor I, se necessário à custa da produção de bens de consumo. O ponto de partida é: desenvolver a indústria pesada, investir na produção de capital fixo e infraestrutura e restringir o consumo pessoal. Eventualmente, quando a capacidade de produzir meios de produção com meios de produção tiver atingido um determinado ponto, pode-se mudar o foco para as necessidades de consumo das massas. Esse foi o caminho típico dos países comunistas (a União Soviética e a China).
O que Marx diz aqui é coerente com essa visão. O exemplo concreto que
ele dá de um esquema de reprodução ampliada é exatamente desse tipo e confirma esse viés. Digo “viés” porque Marx não prova a necessidade dessa prioridade como uma verdade universal, e, dados certos resultados históricos das aplicações desse tipo de teoria do desenvolvimento em países socialistas (e não socialistas também, já que essa teoria foi aplicada muitas vezes na forma de planos quinquenais, adotados por países democráticos como a Índia), é recomendável voltar e dar mais uma olhada naquilo que Marx presume ser aqui o caso, e o que ele realmente quer dizer.
Mais tarde, no entanto, Marx rejeita a “ideia de que a acumulação se
realiza à custa do consumo”: é uma “ilusão, que contradiz a essência da produção capitalista, na medida em que pressupõe que o objetivo e a mola propulsora desta última é o consumo, e não a subtração de mais-valor e sua capitalização, isto é, acumulação”. Num modo de produção puramente capitalista, em que o objetivo é unicamente a criação e a consolidação de um mais-valor cada vez maior e o aumento da riqueza, dos privilégios e do poder da classe capitalista, a estratégia de concentrar investimento na produção de meios de produção para a produção de meios de produção e ignorar o consumo é perfeitamente lógica. As condições de consumo das massas não têm nenhum interesse direto. O que deve ser questionado, portanto, é que essa prioridade classista de investir no setor I tenha de ser incorporada nas práticas de planejamento socialista.
Marx prossegue:
quanto maior [...] o capital produtivo operante num país
(incluída a força de trabalho incorporada a esse capital, a geradora do mais-produto), quanto mais desenvolvida [...] a força produtiva do trabalho e, com ela, também os meios técnicos para a rápida expansão da produção de meios de produção [...] maior, portanto, [...] a massa do mais-produto, tanto no que se refere a seu valor como no que diz respeito à massa dos valores de uso em que esse valor se representa [...].
Mas a questão de quem se beneficia de toda essa expansão fica nas
sombras. A implicação não declarada seria certamente a de que é a classe capitalista que se beneficia dela.
Marx examina demoradamente as relações entre os A e B no setor I. Os A
realizam repetidamente seu mais-valor por meio da venda, mas agora estão entesourando grande parte do dinheiro que recebem. Os B estão comprando (em parte, dos A) para expandir seu negócio, mas a essa expansão adiciona-se ainda o problema de para quem eles poderão vender, dado que os A não estão comprando. De onde, em suma, provém o dinheiro para realizar o valor de seu produto?
O problema é que o dinheiro é – “como tesouro e como capital monetário
virtual, que só se forma pouco a pouco – absolutamente improdutivo”. Nessa forma, ele “transcorre paralelamente ao processo de produção, porém se encontra à margem deste último. É um peso morto (dead weight) da produção capitalista”. Pode ser útil notar aqui a importância da categoria “capital monetário virtual” (ele significa o mesmo que o “capital potencial” mencionado anteriormente? E qual sua relação com o “capital fictício” do Livro III?). Mas, continua Marx:
[a] avidez por fazer com que esse mais-valor – que se entesoura
como capital monetário – seja utilizável tanto para obter um lucro como uma renda alcança seu objetivo final no sistema de crédito e nos “papéis”. Desse modo, o capital monetário passa a exercer, sob outra forma, uma enorme influência sobre o curso e o impetuoso desenvolvimento do sistema capitalista de produção.
Eis mais uma passagem no Livro II na qual Marx se refere a processos
que ou necessitam ou culminam na criação do sistema de crédito capitalista. Ele também reconhece sua “enorme influência” sobre o curso do desenvolvimento capitalista e presumivelmente, portanto, sobre as leis de movimento do capital. Isso confirma a visão de que um dos objetivos de Marx no Livro II é mostrar a necessidade absoluta da formação de crédito e do desenvolvimento do sistema de crédito.
A vantagem de fazer que uma quantidade cada vez maior de capital
virtual esteja disponível para uso por intermédio do sistema de crédito é que esse dinheiro “é investido mais rapidamente num negócio particular, seja em mãos do mesmo capitalista, seja em outras mãos”. O capital virtual pode até mesmo ser “inteiramente separado do capital originário a fim de ser investido como novo capital monetário num novo negócio independente”. O “capital monetário meramente virtual, acumulado como tesouro, passa a funcionar efetivamente como capital monetário adicional”, o que significa que ele é lançado na circulação para comprar novos meios de produção e novo capital variável. Mas isso ainda não responde à questão de onde provém o dinheiro extra. A resposta de Marx é esta:
O exame da reprodução simples nos mostrou que os capitalistas
I e II, se pretendem converter seu mais-produto, precisam ter em mãos uma certa quantidade de dinheiro. Nesse caso, o dinheiro que só servia para ser gasto como renda em meios de consumo retorna às mãos dos capitalistas no mesmo volume em que o haviam adiantado para a conversão de suas respectivas mercadorias; aqui reaparece o mesmo dinheiro, porém com uma função alterada. Os A e os B (I) fornecem uns aos outros, alternadamente, o dinheiro para a conversão de mais-produto em capital monetário virtual adicional, e lançam alternadamente na circulação, como meio de compra, o novo capital monetário assim constituído.
Com a expansão, é preciso pressupor, em suma, que existe dinheiro
(crédito?) suficiente para acomodar tanto a circulação como o entesouramento, de modo que a expansão da acumulação tem de ser acompanhada de uma expansão da oferta de dinheiro ou, o que resulta no mesmo, de uma expansão da facilidade para usar o dinheiro como meio de pagamento:
Se isso é plenamente válido para a primeira fase da produção
capitalista, em que também o sistema de crédito é acompanhado de uma circulação predominantemente metálica, valerá igualmente para a fase mais desenvolvida do sistema de crédito, na medida em que a base deste último continua a ser a circulação metálica. Por um lado, a produção adicional de metais preciosos, por ser alternadamente abundante e escassa, pode exercer aqui influências perturbadoras sobre os preços das mercadorias, não só durante períodos prolongados, como também em intervalos mais curtos; por outro lado, o inteiro mecanismo de crédito, servindo-se de todo tipo de operações, métodos, procedimentos técnicos, procura constantemente restringir a circulação metálica efetiva a um mínimo relativamente decrescente, com o que também aumentam, na mesma proporção, a artificiosidade de todo o mecanismo e as chances de perturbações em seu transcurso normal.
Em outras palavras, temos de contemplar o cenário de crises comerciais e
financeiras como aquelas que foram tratadas no Livro III. A contínua batalha entre o sistema de crédito e sua base monetária, que no Livro III
ocupou um lugar tão destacado, reaparece aqui26. Diz Marx:
Inicialmente, porém, é importante pressupor, aqui como em toda
parte, a circulação metálica em sua forma mais simples, mais primordial, porque com isso o fluxo e o refluxo, a compensação de saldos, numa palavra, todas os momentos que no sistema de crédito aparecem como processos regulados de maneira consciente apresentam-se como se existissem independentemente do sistema de crédito, e a questão aparece na forma natural-espontânea, em vez de na forma posterior, reflexa.
Não é difícil perceber, considerando o que agora sabemos sobre o papel
dos sistemas de crédito que operam como “capital comum da classe”, que o sistema de crédito, longe de ser a fonte das crises, pode ser um mecanismo primário não só para remover os obstáculos à circulação monetária, mas, de modo mais geral, para evitar e resolver as crises, mesmo que “a artificiosidade de todo o mecanismo” aumente “as chances de perturbações em seu transcurso normal”. Não surpreende, portanto, que nessas passagens Marx se refira frequentemente ao sistema de crédito e bancário. Mas, presumivelmente, seu caráter contraditório (como vimos) o levou a rejeitar qualquer tentativa sistemática de incorporar seus efeitos aqui. Como já consideramos a análise marxiana do sistema de crédito como a “mãe de todas as formas insanas”, podemos nos permitir uma perspectiva mais clara sobre como o crédito nos livra do cadafalso das crises de desproporcionalidade apenas para nos lançar fogueira das crises financeiras e comerciais.
O problema do entesouramento, como você já deve ter percebido, é
citado com frequência ao longo do Livro II. Ele é importante porque surgem desequilíbrios entre oferta e demanda nos setores, em particular no setor que produz meios de produção. Por exemplo, primeiro é preciso adquirir dinheiro suficiente para comprar a maquinaria necessária à mineração de carvão e à produção de aço. Em seguida, é preciso reservar dinheiro para a reposição desses meios de produção, mesmo que ainda estejam em uso. Durante todos esses anos, os produtores de carvão e de aço podem produzir e vender sua mercadoria, mas não recomprar o inteiro equivalente de valor daquilo que estão produzindo. Esse problema é exacerbado pelo fato de que grande parte do capital constante é formada de capital fixo. Isso origina todas aquelas complicações de custos de manutenção, reparos e reposições de capital fixo examinadas no capítulo 3. O resultado é que é altamente improvável que o intercâmbio, mesmo no setor I, seja harmonioso e não sujeito a desequilíbrios e interrupções. Haverá oscilações, flutuações e ondas de investimento, seguidas de fases em que predominam a poupança e o entesouramento.
Embora problemas desse tipo possam ser identificados no setor que
produz bens de consumo (também ele requer capital fixo), a dinâmica interna do setor jamais chega a ser potencialmente perturbadora. A razão é que os salários, que constituem grande parte da demanda de meios de consumo, tendem a ser pagos numa base regular (normalmente semanal), e os trabalhadores, que vivem em geral do pão de cada dia, tendem a gastar imediatamente o que ganham. Eles não entesouram (ou, ao menos, Marx presume que não). Os trabalhadores assalariados que produzem cereal e recebem o valor de sua força de trabalho têm dinheiro suficiente para comprar o leite de que necessitam regularmente. Como os capitalistas só pagam pelo trabalho depois que é realizado, eles não precisam primeiro entesourar dinheiro para empregar mais trabalhadores do mesmo modo que têm de poupar para comprar uma nova máquina. A questão é um pouco diferente quando se trata do consumo da classe capitalista. A demanda de bens de luxo pode flutuar mais violentamente, dependendo das condições econômicas, das expectativas e do nível geral de confiança predominante. Esse problema foi mencionado no capítulo anterior.
Em economias capitalistas avançadas, como a dos Estados Unidos na
nossa época, as expectativas e a confiança do consumidor que faz parte da massa da classe trabalhadora atingiram um nível crítico, e de uma maneira que Marx não considerou (embora dê uma indicação do problema, como veremos). E os trabalhadores poupam tanto voluntária como involuntariamente (fundos de pensão compulsórios).
Para que haja expansão, é preciso não apenas que o dinheiro e os meios
extras de produção estejam disponíveis, mas também que já exista força de trabalho extra à disposição do capitalista. Esse requisito elementar leva a uma análise da circulação no setor II. A demanda de bens de consumo que provém do setor I dependerá do grau de entesouramento. Isso acarreta:
formação de capital monetário adicional virtual na classe I (por
conseguinte, subconsumo do ponto de vista de II); estagnação de estoques de mercadorias na classe II, os quais não podem ser
reconvertidos em capital produtivo (portanto, superprodução relativa em II); capital monetário excedente em I e déficit na reprodução em II.
Note que os contenciosos termos “subconsumo” e “superprodução” são
usados do ponto de vista de um setor em particular. Pressupondo que:
aqui não existem comerciantes, nem agentes de câmbio, nem
banqueiro, nem meros consumidores e classes que não participam de maneira direta na produção de mercadorias, segue-se daí que, para manter em funcionamento o mecanismo da reprodução é igualmente indispensável a formação constante de depósitos de mercadorias, que aqui se encontram em mãos de seus respectivos produtores.
Embora Marx não afirme, os estoques de mercadorias são capital morto
e, portanto, um estorvo à acumulação (com efeito, o entesouramento assume a forma-mercadoria). Se o setor I absorve mais meios de produção, então – mantendo-se constantes as demais circunstâncias – menos estará disponível para a expansão da produção no setor II.
Como Marx afirma na seção seguinte, porém, os capitalistas do setor II
têm a vantagem “de que os trabalhadores [...] empregados [nele] se veem obrigados a comprar-lhes as mercadorias que eles mesmos produziram. A classe II é compradora da força de trabalho e, ao mesmo tempo, vendedora de mercadorias aos possuidores da força de trabalho por ela empregada”. Os capitalistas do setor II podem se beneficiar diretamente, reduzindo os salários reais abaixo de seu valor. Mas eles têm outros meios de recuperar parte do capital variável que desembolsam:
E em todos os países industriais, por exemplo, na Inglaterra e
nos Estados Unidos, encontram-se os dados mais palpáveis acerca de como se pode explorar esse fato, de como o salário normal pode ser nominalmente pago, quando, na verdade, uma parte dele é novamente subtraída, quer dizer, furtada sem a contrapartida de seu equivalente; de como essa operação pode ser realizada, em parte,
por meio do truck system27, em parte, por meio da falsificação (talvez de um modo não detectável pela lei) do meio circulante.
Marx promete retornar a esse tema posteriormente, com a “ajuda de
alguns exemplos pertinentes”.
Por ser uma das poucas referências a essa questão em O capital, essa
passagem merece destaque. A recente desapropriação fraudulenta de milhões de habitações nos Estados Unidos por meio de execuções hipotecárias é um exemplo óbvio da atualidade dessa questão, assim como toda a política baseada naquilo que chamo de “acumulação mediante despossessão” dos últimos quarenta anos.
Mas, como sempre, Marx não faz uma análise mais profunda dessas
questões, porque “estigmas” desse tipo “não podem nos servir de subterfúgio para eliminar dificuldades teóricas”. No modo de produção puramente capitalista, que é o objeto dessa investigação “essencialista”, esses estigmas não têm lugar. Em particular, eles não podem ajudar a resolver a dificuldade do desequilíbrio das relações de oferta e demanda entre os dois setores.
O principal problema no setor II surge de suas relações com o setor I.
Isso contrasta com o problema mais sério da circulação que surge no setor I. Como esse problema central é resolvido?
Os Esquemas para a Reprodução Ampliada
O objetivo principal de Marx é apresentar um modelo das relações
comerciais entre os setores. Ele faz isso pressupondo as condições de “acumulação pela acumulação” estabelecidas no capítulo 22 do Livro I. Após algumas páginas de desenvolvimentos preliminares, ele chega à “Exposição esquemática da acumulação”, que ele considera o modelo mais revelador das relações dinâmicas entre os setores no item III. Não considerarei todos os argumentos preliminares, apenas as linhas gerais da solução a que ele chega. O ponto de partida é o esquema empregado por ele na reprodução simples, que já vimos anteriormente:
I. 4.000c + 1.000v + 1.000m = 6.000
II. 2.000c + 500v + 500m = 3.000
A proporcionalidade adequada no intercâmbio entre os setores em
condições de reprodução simples exige que o setor II compre 2.000c do setor I, em troca de os trabalhadores comprarem e de os capitalistas se engajarem na produção de meios de produção de 1.000v + 1.000m do setor II (ou, algebricamente, c2 = v1 + m1). Note que tanto a taxa de mais-valor (m/v) como as composições de valor do capital (c/v) são idênticas nos dois setores.
Para analisar o caso da reprodução ampliada – e facilitar os cálculos – ele
adota outra base numérica:
I. 4.000c + 1.000v + 1.000m = 6.000
II. 1.500c + 750v + 750m = 3.000
A taxa de mais-valor permanece idêntica, mas a composição de valor foi
alterada, a fim de que a produtividade (a razão c/v, também conhecida como composição de valor do capital) no setor I seja duas vezes maior que a do setor II. É evidente que Marx fez isso para facilitar o cálculo, mas a mudança tem certa importância. O intercâmbio equilibrado necessário para a reprodução simples – c2 = v1 + m1 – perde a validade. Há superprodução de meios de produção e subprodução de meios de consumo.
Mas essa posição é a do início do ano. No fim do ano (pressupondo-se,
como Marx geralmente faz, que os períodos de rotação sejam anuais), os números mudam se uma parte do mais-valor é reinvestida na expansão, em detrimento do consumo pessoal dos capitalistas. Suponhamos que metade do mais-valor do setor I (1.000m) é reinvestida na expansão. Pressupondo-se que a composição de valor do capital permaneça a mesma, os 500m reinvestidos serão usados para comprar um extra de 400c e 100v (o que dá um total de 4.400c + 1.100v) no setor I. Pressupondo-se que a taxa de mais-valor permaneça constante, o mais-valor gerado é agora 1.100m, e o output total nesse setor aumentou de 6.000 para 6.600. Isso forma a base para a acumulação no ano seguinte. E assim transcorrem as coisas, ano a ano, no setor I.
Para o setor II, Marx pressupõe uma taxa de reinvestimento diferente, em
que apenas 150m dos 750m disponíveis são reinvestidos. Dado o valor de composição prevalecente, isso significa uma compra de 100c e 50v acima dos 1.500c e 750c originais. Assim, a compra total é de 1.600c e 800v, o que produz um mais-valor de 800m para um output total de 3.200, em contraste com os 3.000 do início do ano. Isso forma a base para a acumulação no ano seguinte. E assim transcorrem as coisas, ano a ano, no setor II.
O output total dos dois setores ao final do primeiro ano é 9.800, em
comparação com 9.000 no início do ano. Mas perceba que 1.600c comprados do setor I pelo setor II são agora equivalentes a 1.100v + 500m de demanda de bens de consumo proveniente do setor I. Uma harmonia milagrosa é produzida pelo processo de crescimento: o crescimento e a acumulação de capital novo produziram harmonia onde antes havia desequilíbrio! É evidente que, para gerar esse resultado, Marx escolheu cuidadosamente números e condições adequados. Porém, com isso ele prova a possibilidade (mas não a probabilidade) da acumulação harmoniosa de capital, dando a impressão de que esse processo pode continuar para sempre. A Tabela 1 mostra o movimento ano a ano, ao longo de quatro anos. Ela pode prosseguir indefinidamente (mantendo-se iguais as demais circunstâncias).
Em termos algébricos, o reinvestimento no setor I é c1 + Δc1 + v1 + Δv1
+ f1 (onde o último termo representa o consumo residual da classe capitalista após o reinvestimento na expansão) e no setor II é c2 + Δc2 + v2 + Δv2 + f2. Bastaria conseguir essa proporcionalidade e teríamos uma acumulação harmônica do capital para sempre!
Mas isso fornece uma resposta à pergunta feita no fim do capítulo 4 do
Livro II. De onde vem a demanda extra para cobrir a lacuna entre a demanda c + v no início e a oferta c + v + m no fim do dia? Do ponto de vista do capitalista individual, parece tolice dizer que o capitalista deve suprir a demanda extra para absorver o mais-valor. Contudo, quando ela é decomposta individualmente (a relação entre os A e os B no setor I) e entre os setores, vemos que alguns capitalistas estão comprando mais do que produzindo, ao passo que outros estão produzindo mais do que estão comprando, e que deve se estabelecer uma combinação entre consumo produtivo e pessoal para que se chegue a um equilíbrio dinâmico entre a oferta e a demanda agregadas.
A grande questão é o que seria necessário para chegar a essa posição de
equilíbrio. Como deve ser o intercâmbio entre os dois setores para que as proporcionalidades permaneçam corretas, de modo que não haja superprodução em um setor em relação ao outro, que poderia estar em situação de subconsumo? É óbvio que os esquemas não são realistas, e Marx ajustou os números para que eles se adequassem ao exemplo. Mas será que esses esquemas são tão irreais a ponto de não revelar nada da natureza das oposições, tensões e contradições, tampouco das capacidades dinâmicas do modo de produção capitalista? Nesse caso, qual seria a finalidade dos esquemas?
Essas questões cruciais requerem uma avaliação geral. Mas antes de
tratar delas, há uma outra questão levantada nesse capítulo que merece ser comentada.
O Problema (de Novo) do Consumo da Classe
Trabalhadora
Em todo o Livro II de O capital, a questão do consumo dos trabalhadores
é abordada por caminhos frequentemente ignorados no Livro I. Primeiro, o consumo da classe trabalhadora constitui “uma parte proporcionalmente decisiva da circulação total”. Uma das contradições fundamentais do capitalismo reside na incapacidade de realizar valores devido à falta de poder de consumo numa “sociedade cuja grande maioria é sempre pobre e tem de permanecer pobre”. Marx foi longe o suficiente para sugerir que “a razão última para todas as crises reais continua a ser sempre a pobreza e o consumo restrito das massas, em face do impulso da produção capitalista para desenvolver as forças produtivas como se estas fossem limitadas apenas pela capacidade absoluta de consumo da sociedade”.
É nesse contexto que devemos dar certa importância (se em maior ou
menor grau, isso é algo que se pode discutir) à “eventual” inserção de algumas observações nesse capítulo. Trata-se do fato de que “o senhor capitalista, tal como sua imprensa, mostra-se frequentemente insatisfeito com a maneira como a força de trabalho gasta seu dinheiro, e com as mercadorias II nas quais ela mesma realiza esse dinheiro. Quando isso ocorre, ele filosofa, pedanteia e filantropiza”. Marx cita, então, um artigo do jornal The Nation, de 1879 (publicado depois que sua última obra teórica estava concluída), em que o autor se queixava de que “os trabalhadores não têm se mantido à altura do progresso que se registra nas invenções; eles ganharam acesso a uma massa de objetos dos quais não sabem a utilidade e para os quais não constituem, portanto, mercado algum”. “O problema continua a ser o de como elevá-lo como consumidor mediante um método racional e salutar”, e isso não é fácil, “já que toda sua ambição não vai além de uma redução de suas horas de trabalho, e o demagogo o incita a isso, muito mais do que a elevar sua condição mediante o aperfeiçoamento de suas aptidões intelectuais e morais”. Embora seja severo em relação a esse tipo de coisa, Marx também aceita a ideia de que transformar o trabalhador num “consumidor racional” é uma condição necessária para que o consumo dos trabalhadores funcione como uma parte “proporcionalmente decisiva” da circulação de capital. “O que o capitalista entende por consumo racional se mostra claramente lá onde ele é tão transigente que pratica diretamente o comércio dos artigos a serem consumidos pelos seus trabalhadores: no truck system”. Ele também dá como exemplo as fábricas de algodão de Lowell, em Massachusetts, onde as condições de vida e habitação das jovens empregadas são uma bela ilustração do consumidor racional “em toda a sua glória”. Ocorre que Marx começou suas investigações quando os salários na Inglaterra (seu primeiro exemplo) mantinham-se baixos, mas depois de 1860, aproximadamente, há evidências de que os salários estavam aumentando. Muito mais tarde, em 1914, quando a jornada de trabalho de cinco dólares foi introduzida na indústria automobilística, Henry Ford criou um exército de assistentes sociais para ensinar os trabalhadores a consumir de forma moderada e racional. A racionalidade se define, é claro, pela necessidade de os trabalhadores “constituírem um mercado” para qualquer bem de consumo que os capitalistas produzam. Como as singularidades do consumo poderiam ser racionalizadas por um consumo organizado é um desafio que Marx não enfrenta. Mas essa “inserção” abre a porta para tais considerações, ainda que o próprio Marx as rejeite.
Os Pressupostos
Ao avaliar o que está em jogo nesses esquemas, é útil primeiramente
apontar os pressupostos assumidos na análise. Para começar, Marx pressupõe não haver problema algum em atribuir atividades a um ou outro dos setores. Ambiguidades na definição (seria a farinha um meio de produção, quando usada para fazer pão, e este um meio de produção para fazer sanduíches, antes de ser consumido?) e de dualidade de usos e produtos conjuntos são deixadas de lado (ovelhas produzem carne, assim como lã e pele para manufaturas industriais). Há apenas duas classes: capitalistas e trabalhadores (não há banqueiros nem comerciantes e certamente nenhuma classe média, seja como esta for definida). A produtividade do trabalho (a composição de valor, c/v), que na prática está em constante evolução (por meio das mudanças tecnológicas e organizacionais geradas pela busca de mais-valor relativo, como descreve o Livro I), é mantida constante, exceto por uma diferença bastante oportunista na composição de valor entre os dois setores, introduzida nos esquemas com a finalidade de obter um equilíbrio dos números. (Estaria implicado aí que existe uma única via de mudança tecnológica capaz de facilitar o equilíbrio nos esquemas, como foi sugerido por alguns comentadores?) O valor da força de trabalho é fixo, e as taxas de reinvestimento são constantes (com uma exceção). Os reinvestimentos são confinados nos setores, de modo que o capital não pode fluir de um setor para outro (e ocorre uma estranho desvio na taxa de reinvestimento/poupança no segundo ano do exemplo aritmético, que serve para manter tudo em equilíbrio).
O fato de os fundos de investimento não poderem fluir entre os setores
implica que não há nenhum mecanismo para a equalização da taxa de lucro através dos departamentos. Como isso é um aspecto vital da teoria de Marx em relação às taxas decrescentes de lucro no Livro III, há aqui um óbvio problema teórico que requer atenção. As trocas são estabelecidas em termos de valor, sob o pressuposto de que tudo é trocado por seu valor (e não de acordo com os preços de produção, como exposto nos capítulos iniciais do Livro III). Embora as intervenções do capital monetário pareçam muitas vezes perturbar as coisas, os aspectos monetários da circulação não são plenamente integrados na análise. O tempo de rotação é, em todos os casos, de um ano, e o sério problema da formação e circulação de capital fixo é, em sua maior parte, ignorado. Outras formas de apropriação e exploração por meio de renda, juro, lucro sobre capital comercial e impostos ficam em segundo plano.
Por tudo isso, a meu ver é óbvio que os esquemas, tais como são
concebidos, constituem um modelo completamente irreal do funcionamento de uma economia capitalista. Mas o propósito desse tipo de modelo não é necessariamente chegar a uma representação realista (ainda que uma construção bem-sucedida de modelos desse tipo possa lançar as bases para tal representação). Seu propósito é, como Marx diria, destacar as relações fundamentais – a essência – na estrutura interna do modo de produção capitalista e, nesse caso, a reprodução. Sendo assim, o que os esquemas revelam? Dito de modo mais simples: a reprodução da acumulação do capital pelo fluxo contínuo do capital e dos três ciclos do capital monetário, capital-mercadoria e capital produtivo é um negócio enganador e, portanto, propenso a gerar crises, e crises desse tipo (de fluxos de capital fixo e, de modo mais geral, de desproporcionalidades) só podem ser resolvidas à custa de crises ainda mais problemáticas em outros lugares (mais notavelmente, no sistema financeiro). O que estou sugerindo é que, nas análises de Marx, as tendências não se resolvem, mas são apenas deslocadas, e pode ser que eu esteja superpondo indevidamente essa ideia ao que está ocorrendo aqui. Mas penso que uma leitura atenta do texto, em particular se acompanhada de uma leitura detalhada do material do Livro III sobre crédito e finanças, mostra a pertinência dessa interpretação.
Os Esquemas no Capitalismo: O Papel do Dinheiro e
do Crédito
O que acontece quando o sistema de crédito, operando como capital
comum da classe, é chamado a intervir nesses problemas de macro-coordenação dos fluxos de capital numa sociedade capitalista? Por que não podemos imaginar que o sistema de crédito possa exercer de alguma forma um poder de controle e até mesmo racionalizar os fluxos de capital, em vez de deixá-los no estado anárquico que Marx mostra ser o caso sob as determinações cruas do mercado? Acima de tudo, o sistema de crédito desempenha um papel crucial na racionalização dos tempos de rotação e resolve muitos dos problemas gerados pelas diferenças nesses tempos de rotação. Também ajusta a circulação do capital fixo, reduzindo o entesouramento mensal ao simples pagamento mensal. Encontramos um problema similar de coordenação entre diferentes setores – e talvez os sinais transmitidos pelo sistema de crédito, como um sistema de pagamentos periódicos a uma taxa de juros determinada, possam ser usados no macroplanejamento por um aparato estatal ou algo equivalente. Afinal, não é o que se exige das políticas dos bancos centrais, que constituem o pivô do sistema de crédito e são amparadas pelo Estado?
O que isso indica, mais uma vez, é o papel ambivalente do sistema de
crédito. Creio que não se pode chegar a um modelo realista do funcionamento de tudo isso sem integrar o sistema de crédito nessa estrutura. Isso deveria ter sido feito pelas elaborações posteriores, mas ainda hoje é, em sua maior parte, um campo não explorado.
O Significado dos Esquemas e seu Desenvolvimento
Subsequente
O debate subsequente sobre o estatuto e o significado dos esquemas de
reprodução de Marx revelou algumas discordâncias fundamentais quanto à melhor forma de interpretá-los. Enquanto afirmo que Marx, ao apresentar uma versão de equilíbrio harmonioso das relações, visava mostrar quão impossível era essa condição, outros afirmam que, na verdade, seu objetivo era demonstrar a possibilidade de um caminho harmonioso de desenvolvimento, e que os desvios dessa condição harmoniosa, quando corrigidos por pequenas crises aqui e ali, em princípio podem ser controlados.
Rosa Luxemburgo, em A acumulação do capital, pensava que os
esquemas mostravam que “a acumulação, a produção, a realização e a troca fluem livremente, com precisão mecânica, e sem dúvida esse tipo particular de ‘acumulação’ pode prosseguir ad infinitum”. Resistindo bravamente ao que entendia como uma passividade política implícita nos esquemas, ela os acusou de ser fatalmente defeituosos. Marx não teria conseguido responder à sua própria pergunta: “De onde vem a demanda efetiva para pagar o mais-produto?”. Essa é, com efeito, uma pergunta que Marx enfrenta no capítulo 17 e tenta resolver nos capítulos 20 e 21. É, além disso, uma questão central para a teoria econômica keynesiana. Os esquemas de reprodução de Marx parecem ter cumprido um papel secreto no estímulo a certas tensões no pensamento keynesiano, assim como nos modelos macroeconômicos de crescimento econômico desenvolvidos a partir dos anos 1930. Isso levou a uma literatura considerável sobre as relações entre Marx e Keynes, na qual predominam as questões da demanda agregada efetiva e das taxas de reinvestimento, além das vias de mudança tecnológica. Para Keynes, a obtenção de um crescimento harmonioso requer políticas fiscais e monetárias adequadas da parte do Estado (ou de Estados e instituições financeiras como o FMI). Outros economistas da escola keynesiana mostraram que as proporcionalidades corretas somente poderiam ser mantidas pela via única da mudança tecnológica e organizacional (a evolução da razão de produtividade de c/v). No entanto, seria improvável que a via efetiva da mudança tecnológica correspondesse àquela requerida para obter um crescimento equilibrado. Quanto mais a mudança tecnológica se afasta da via capaz de assegurar um crescimento equilibrado, mais severas se tornam as crises de desproporcionalidade.
Como vimos no caso do crédito e do capital monetário e financeiro, Marx
parece não acreditar que esse seja o caminho para evitar crises sérias (em oposição às crises regulatórias para corrigir as desproporcionalidades). Muito provavelmente, é assim que Marx se diferenciaria de Keynes, que acreditava que as crises – e, portanto, as contradições – podiam ser controladas por intervenções estatais. Antes de Marx, houve poucas tentativas – além da de Quesnay, mencionada anteriormente – de construir um modelo macroeconômico dos fluxos pelos quais o capital é reproduzido. Quesnay acreditava que a base de todo capital e de toda riqueza residia na produção agrícola, ao passo que a versão de Marx se concentra na produção industrial e tenta definir os fluxos e equilíbrios necessários entre os dois
setores identificados por ele. A “configuração natural-espontânea” 28 da produção capitalista (e com isso ele entende os capitalistas individuais que operam em seu próprio interesse) significaria, diz ele, que “o próprio equilíbrio [...] é algo acidental” e “certas condições do intercâmbio normal [...], seja em escala simples, seja em escala ampliada”, poderiam muito facilmente converter-se “em outras tantas condições do transcurso anormal, em possibilidades de crises”. Os “pressupostos necessários” para o crescimento equilibrado “se condicionam mutuamente, mas são mediados por um processo muito complicado, que inclui três processos de circulação, independentes entre si, porém entrelaçados. A própria complexidade do processo oferece outras tantas ocasiões para um transcurso anormal”.
Na literatura marxista, essas crises são geralmente denominadas “crises
de desproporcionalidade”. Não está claro quão profundas e amplas elas podem ser, mas uma versão contemporânea desse tipo de argumento pode ser encontrada nas frequentes referências aos “desequilíbrios globais” nos relatórios do FMI e outros documentos. É verdade que isso normalmente se refere, nas condições contemporâneas, a desequilíbrios comerciais entre as economias nacionais (como as dos Estados Unidos e da China), mas também pode ser entendido como uma versão do desenvolvimento desigual e dos desequilíbrios que podem surgir e realmente surgem entre os setores. Essa sobreposição e a extensa obra a que ela deu origem colocam problemas para uma versão geográfica dos potenciais desequilíbrios aqui identificados nas interações dinâmicas entre produção e consumo.
Os esquemas mostram o que o capital precisaria fazer para alcançar um
crescimento harmonioso e equilibrado e criam ao mesmo tempo as condições para que se compreenda a completa impossibilidade de alcançá-lo. Há também algumas contradições potenciais, que permanecem inexploradas. A análise técnica, como é o caso em todo o Livro II, aponta possibilidades de interrupções e deslocamentos. No esquema mais geral das coisas, como aquele apresentado no Livro III, vemos como essas possibilidades são mais plenamente realizadas na prática.
Os esquemas foram aplicados pela primeira vez na União Soviética,
quando um economista polonês chamado Feldman começou a explorar sua utilidade para elaborar planos quinquenais de desenvolvimento econômico. Os esquemas de Marx foram usados depois por economistas como Michał Kalecki (também polonês), além de outros de formação mais diretamente keynesiana, para formular modelos de crescimento macroeconômico e teorias de desenvolvimento econômico no âmbito da ciência econômica burguesa. Evsey Domar, coautor daquilo que ficou conhecido como modelos macroeconômicos Harrod-Domar nos anos 1940, foi enfático ao reconhecer sua dívida com os esquemas de Marx. Todo o campo da construção de modelos de crescimento macroeconômico da ciência econômica burguesa é devedor dessa herança. Economistas convencionais teriam se poupado de muitos problemas – e avançado na direção dos modelos macroeconômicos e de planejamento de políticas públicas cerca de setenta anos antes – se tivessem levado mais a sério os esquemas de Marx.
Essas ideias também foram aproveitadas teoricamente, e com efeitos
devastadores, na obra de Piero Sraffa Produção de mercadorias por meio de mercadorias, cujo título já diz tudo. Há, portanto, uma sobreposição entre os feitos de Marx na criação dos esquemas de reprodução e o desenvolvimento da economia burguesa, da economia normativa e do planejamento socialista.
A estrutura das relações que Marx revela parece ter de fato um
significado universal, que ultrapassa as relações históricas específicas de um modo de produção capitalista. Suas qualidades capitalistas específicas parecem residir no papel distintivo do fluxo de capital monetário como um grande coordenador das relações entre setores e departamentos de produção e consumo. Mas e se os esquemas fossem construídos em termos de valor de uso físico (em vez de valor ou valor de troca)? Eles poderiam ser usados no planejamento de relações físicas entre diferentes setores da economia, sem referência à acumulação do capital? Marx afirma claramente que o processo de circulação “pode ter lugar sobre a base de uma produção não-capitalista”.
A exploração altamente sofisticada da matemática do “modelo” de Marx
por economistas matemáticos – tanto marxistas como não marxistas – certamente desenvolveu os insights de Marx, mas de uma maneira não dialética. Contudo, dado o modo como Marx apresenta o material, é muito difícil cogitar qualquer outra via de desenvolvimento. E, sendo essa a via predominante, até onde alguém deve ir quando apresenta pela primeira vez esse material a um público relativamente novato, expondo desenvolvimentos que exigem familiaridade com técnicas matemáticas altamente sofisticadas? O melhor que posso fazer nessas circunstâncias (especialmente porque meu próprio domínio das técnicas matemáticas é mínimo) é indicar algumas referências úteis para os que se sentem inclinados a trilhar essa via matemática.
Há, em linhas gerais, duas escolas de desenvolvimento dos esquemas que
se baseiam no pensamento econômico elaborado por Marx. Por exemplo, Michio Morishima os transforma em esquemas da teoria neoclássica do equilíbrio e emprega técnicas matemáticas altamente sofisticadas para mostrar o que eles realmente implicam em termos de trajetória de crescimento econômico. Os resultados são interessantes. Quando se deixa de lado o pressuposto de que a acumulação ocorre separadamente em cada setor, os exemplos numéricos de Marx mostram “oscilações explosivas [...] em torno da via de crescimento equilibrado, se o setor II, produzindo salários e bens de luxo, é maior na composição de valor do capital (ou tem maior intensidade de capital) que o setor I”. Quando “a composição de valor do capital é mais alta no setor I que no setor II, o resultado é uma divergência monotônica em relação a uma via de crescimento equilibrado”. Exercícios desse tipo são fascinantes. porque ilustram como é difícil calcular, mesmo com modelos bastante simples, uma via de crescimento equilibrado.
Outra escola de pensamento, amplamente keynesiana, também empregou
a matemática para mostrar que tudo depende da criação de uma tecnologia capaz de equilibrar as trocas físicas e de valor entre os setores simultaneamente, e que as taxas de reinvestimento e emprego devem caminhar juntas numa faixa mais estritamente definida. Mais uma vez, a implicação é que o crescimento equilibrado é extremamente improvável, e é absolutamente correta a intuição de Marx de que ele só poderia ser alcançado “por acidente”.
A conclusão a que Marx chega em outro lugar – a de que as crises são
violentas restaurações das condições de equilíbrio para um crescimento equilibrado, que no máximo pode ser momentâneo, mas jamais permanente – mostra-se inteiramente plausível, se não absolutamente justificável. O corolário é a difícil questão de como articular essas relações dinâmicas mediante um planejamento social consciente e de que forma projetá-las para satisfazer as necessidades de um modo de produção não capitalista.
A Possibilidade de um Planejamento Socialista
Racional
Diversas vezes no decorrer desses capítulos (e em outras partes), Marx se
refere ao problema da alocação racional do trabalho entre diferentes setores da divisão do trabalho no interior da sociedade. Ele sugere que a alocação racional deve ser realizada por meios sociais criados para esse fim. Isso contrasta com a anarquia das alocações a que se chegou pelos fluxos de dinheiro e pelos processos do mercado, e com a irracionalidade das crises que daí resultam. Ganha certa substância a visão de que o crescimento equilibrado seria possível, em princípio, pela aplicação dos esquemas de reprodução. Por isso, foram invocados como ferramentas úteis para o planejamento racional da produção e do consumo sob o socialismo e o comunismo. Numa “sociedade comunista”, diz Marx:
a sociedade tem de calcular antecipadamente a quantidade de
trabalho, meios de produção e meios de subsistência que ela pode empregar sem quaisquer prejuízos em ramos da indústria que – por exemplo, a construção de ferrovias – por um período prolongado, de um ano ou mais, não fornecem nem meios de produção, nem meios de subsistência, nem qualquer efeito útil, mas retiram trabalho, meios de produção e meios de subsistência da produção total anual.
Ele também afirma, no capítulo 49 do Livro III (escrito antes dos
principais estudos teóricos dos anos 1870, mas no qual os esquemas de reprodução fazem uma breve aparição), que “mesmo depois que o modo de produção capitalista é abolido, embora a produção social permaneça, continua a prevalecer a determinação do valor no sentido de que a regulação do tempo de trabalho e a distribuição do trabalho social entre os vários grupos de produção tornam-se mais essenciais que nunca, assim como sua contabilidade”. A implicação é que Marx pensava que os esquemas tinham um papel importante no desenvolvimento do planejamento socialista racional. Da forma como são, os esquemas de reprodução não contribuem em nada para a solução desses problemas. Mas mostram, em princípio, quantos meios de produção novos seriam necessários para expandir a produção, tanto de meios de produção como de bens de salário, e estabelecer um crescimento equilibrado numa sociedade racionalmente regulada. Em toda sociedade alternativa, coordenações desse tipo teriam de ser socialmente organizadas, dada a insistência de Marx de que o papel do capital monetário nessas coordenações é demasiadamente problemático e teria de ser abolido. Em outras palavras, os esquemas teriam de ser reescritos puramente em termos físicos e de valor de uso (como os que foram criados mais tarde por Leontief), em vez de guiados pelo fluxo monetário e por considerações de lucratividade.
Ao longo de O capital, Marx também citou com frequência a exploradora
relação de classe capital-trabalho na produção como um problema fundamental, a ser enfrentado e substituído por “trabalhadores associados” que organizassem livremente a produção sobre uma base coletiva. Essa é a concepção da “alternativa” no plano do empreendimento individual. Mas essa alternativa, como Marx reconhece no Livro III, é limitada, porque, afinal, apenas reproduziria os problemas das empresas capitalistas (e até levaria a uma auto-exploração crônica), a menos que tentasse controlar simultaneamente todos os três ciclos do capital e os submetesse ao controle social.
Marx parece querer dizer que a alternativa anticapitalista de controle da
produção pelos trabalhadores associados tem de ser complementada, ou até substituída, por meios sociais que coordenem a alocação do trabalho entre as várias divisões inter-relacionadas do trabalho na sociedade. A distinção examinada aqui entre a produção de meios de produção e a produção de meios de consumo é apenas uma variante disso. Mas ela certamente continuaria a ser tão importante no comunismo como é no capitalismo. Essa parte do projeto anticapitalista é muito mais difícil de conceituar e organizar, ainda que seja absolutamente fundamental para definir a possibilidade de uma alternativa anticapitalista. Marx evita qualquer consideração adicional ou mais profunda sobre o assunto.
É correto dizer que, na presente conjuntura, os aspectos do projeto
anticapitalista relacionados ao “trabalhador associado” têm mais peso do que o problema da alocação racional do trabalho na sociedade como um todo. Isso acontece, em parte, porque esse último problema está associado à dominação e à repressão do Estado comunista, ou mesmo social-democrata – que hoje são instituições em que ninguém está propenso a confiar (a meu ver, com toda a razão) – e, em parte, porque de modo geral a experiência do planejamento comunista e social-democrata não foi benigna (embora não seja correto considerá-la totalmente malsucedida). Mas, como diz Marx em outro contexto, não podemos permitir que estigmas desse tipo sirvam de “subterfúgios para eliminar dificuldades teóricas”.
Infelizmente, o que ocorre é que a esquerda contemporânea é propensa
demais a evitar essas dificuldades teóricas. Numa sociedade socialista complexa, há coordenações que precisam ser estabelecidas para evitar a superprodução, a falta de abastecimento e os gargalos nos fluxos físicos necessários para reproduzir a vida cotidiana com um nível aceitável de bem-estar material e com uma relação aceitável – se não muito mais benigna – com a situação ambiental. Como fazer isso sem a coordenação dos fluxos monetários e da busca do lucro em mercados que não são controlados? Essa é a grande questão que não pode ser evitada. E como fazer isso sem criar algo como um aparato estatal? Eis um enorme desafio.
O que pode dar errado é ilustrado apenas por uma faceta dos esquemas de
Marx, o que – irrefletidamente e sem nenhuma justificação – tornou-se uma prática normal. No exemplo aritmético de Marx, toda a expansão é movida por mudanças no setor I. Disso deriva a visão, já mencionada, de que o planejamento econômico e desenvolvimentista deveria concentrar investimentos na produção de bens de capital e meios de produção, e só mais tarde cuidar da produção de bens de consumo. O modelo socialista de desenvolvimento adotou essa convenção ao pé da letra. Governos pós-coloniais, como o de Gana, também foi vítima desse pensamento nos anos 1960, e até hoje não se recuperou plenamente de seus efeitos.
Não há absolutamente nenhuma razão para que o setor II dependa do
setor I. Essa ideia surgiu em consequência de uma escolha arbitrária de Marx e do caráter desigual das relações entre os dois setores que surgiu do impacto de um grau maior de entesouramento no setor I em relação ao setor II. O desafio da transição socialista seria, é claro, eliminar essa diferença. Com isso, seria plenamente possível inverter a relação e pôr o setor I a serviço do setor II. Sob relações sociais capitalistas isso seria impossível, como disse Marx, porque o objetivo do capital é acumular capital, e não satisfazer as necessidades físicas e de consumo das massas. Num mundo socialista/comunista, porém, o objetivo seria exatamente o inverso.