Para Entender O Capital: Livros II e III

David Harvey · Capítulo 32 de 61

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Para Entender O Capital: Livros II e III

Sobre o Capítulo 18 do Livro III: A Rotação do Capital Comercial

Sobre o Capítulo 18 do Livro III: A Rotação do Capital

Comercial

 

“O comerciante compra, transformando seu dinheiro em mercadorias, e

então vende, transformando as mesmas mercadorias de novo em dinheiro, e assim por diante, em repetição constante.” Em resumo, o comerciante realiza duas metamorfoses, D-M e M-D, mas conduz essas operações unicamente na esfera da circulação. Segue-se então que a velocidade da rotação é, para o capitalista comercial, da essência: “Assim como o mesmo xelim que circula dez vezes compra dez vezes seu valor em mercadorias, o mesmo capital monetário pertencente ao comerciante [...] realiza um capital-mercadoria total de dez vezes o seu valor”. A única diferença é que “o mesmo capital monetário, independentemente das peças monetárias que o compõem, compra e vende repetidamente capital na quantidade de seu valor e, por conseguinte, retorna repetidamente ao mesmo possuidor como D + ΔD”.

Há, no entanto, limites e barreiras a esse processo de rotação:

Agora o capital comercial certamente facilita a rotação do

capital produtivo; mas ele só o faz na medida em que abrevia o tempo de circulação deste último. Ele não tem nenhum efeito direto sobre o tempo de produção, que também forma uma barreira ao tempo de rotação do capital industrial. Esse é o primeiro limite à rotação do capital comercial. Em segundo lugar, no entanto [...] essa rotação é decisivamente restrita pela velocidade e pelo volume do consumo individual total.

As implicações desse último ponto são ignoradas no que se segue,

presumivelmente porque o consumo, para Marx, é uma “singularidade” e, como ele afirma nos Grundrisse, encontra-se fora do âmbito da economia política (não consigo pensar em nenhuma outra razão). Historicamente, porém, o papel do capitalista comercial tem sido, em grande medida, estimular os desejos do consumidor, atrair o público para as mercadorias que o capitalista industrial tem a oferecer e, tanto quanto possível, assegurar que consumidores potenciais tenham o dinheiro (usualmente o crédito) necessário para absorver rapidamente o produto e manter a dinâmica do consumo em expansão, num ritmo consistente com a infinita acumulação buscada pelo capital industrial. Contudo, Marx caracteriza essa barreira do tempo de rotação do consumidor como “decisiva”. Fico surpreso que ele não tenha explorado mais esse ponto.

Parte disso é mencionada nas passagens seguintes. Mas as questões são

técnicas, em grande medida, e provêm da autonomia do capital comercial no interior da esfera da circulação. “Dada a tremenda elasticidade do processo de reprodução, que pode ser sempre estendido além de qualquer barreira dada, [o capitalista comercial] não encontra nenhuma barreira na própria produção, ou encontra apenas uma barreira elástica.” Além disso, “dado o moderno sistema de crédito, [o capital comercial] tem à sua disposição uma grande parte do capital monetário total da sociedade, de modo que pode repetir suas compras antes de ter vendido definitivamente o que já comprou”. Assim, em virtude de sua autonomia, ele se estende constantemente para além daquilo que o mercado suportará, de modo a conduzir “esse processo para além de suas próprias barreiras” (isto é, para além da “restrição decisiva” imposta pela capacidade dos consumidores de utilizar o produto):

Apesar da autonomia por ele adquirida, o movimento do capital

comercial nunca é mais do que o movimento do capital industrial no interior da esfera da circulação. Mas em virtude dessa autonomia, seu movimento é, dentro de certos limites, independente do processo de reprodução e de suas barreiras. [...] Essa dependência interna, juntamente com a autonomia externa, leva o capital comercial a um ponto em que sua conexão interna é restabelecida à força por meio de uma crise.

A linguagem aqui é muito importante. O capital comercial é autônomo e

pode levar o sistema inteiro muito além de seus limites (especialmente com a ajuda do crédito). Mas há uma conexão interna com as leis de valor e a produção e realização de mais-valor, e é essa conexão que é reafirmada em crises comerciais (e financeiras). Essa é a tese geral com a qual Marx trabalha. Veremos que ela estará muito presente nos capítulos subsequentes, que tratam da circulação do capital portador de juros. Aqui já podemos ver por que crises no interior do capitalismo aparecem tão frequentemente como crises comerciais e financeiras.

Nos parágrafos seguintes, Marx apresenta alguns fatos para sustentar essa

ideia. Afirma, por exemplo, que as crises comerciais costumam ter origem no comércio atacadista e no setor bancário, e não no comércio varejista (não estou certo de que isso seja uma verdade empírica). O pleno emprego tanto do capital quanto do trabalho leva a uma hiperexpansão, que pode:

seguir tranquilamente seu curso durante um tempo, estimulada

pela demanda prospectiva, de maneira que nesses ramos os negócios dos comerciantes e dos industriais avançam a todo vapor. A crise se apresenta tão logo os refluxos dos comerciantes que vendem para o exterior (ou cujos estoques também se acumularam no interior) se tornam tão lentos e escassos que os bancos exigem o pagamento, ou as letras emitidas contra as mercadorias vencem antes que ocorra a revenda. E assim temos a catástrofe, que põe um fim súbito à aparente prosperidade.

Isso leva ao problema de por que os banqueiros de repente demandam

pagamentos (o que examinaremos posteriormente).

Mas creio que está claro o que acontece no texto: estamos naquele

terreno em que a formação e o papel das crises comerciais e financeiras são provisoriamente abordados num contexto em que há uma relação complicada entre a autonomia do capital do comerciante (capital comercial e monetário) e certa conexão interna com a produção e a realização de valor e mais-valor.

Uma das maneiras pelas quais a conexão interna é afirmada é a

equalização da taxa de lucro, que, no entanto, é sensível aos diferentes tempos de rotação do capital industrial e comercial. A rotação do capital comercial “pode mediar as rotações de diversos capitais industriais” simultânea ou sucessivamente. A rotação do capital industrial, por outro lado, é estabelecida pela periodicidade da produção e reprodução, na qual o tempo de circulação também “cria um limite [...] que pode ter um efeito mais ou menos constringente sobre a formação de valor e mais-valor mediante seu efeito sobre a escala do processo de produção [...] e, portanto, sobre a formação da taxa geral de lucro”. Reduzir o tempo de rotação do capital industrial pela redução do tempo de circulação pode aumentar a taxa de lucro. O capital comercial recebe (em teoria) a taxa geral de lucro, não importando seu tempo de rotação. Assim, se o capital comercial não pode aumentar sua própria taxa de lucro pela aceleração de seu tempo de rotação, ele pode afetar a taxa geral de lucro porque menos capital comercial é requerido para que a realização se complete. “A grandeza absoluta do capital comercial requerido é inversamente proporcional à velocidade de sua rotação.” Além disso, “circunstâncias que abreviam a rotação média do capital comercial, como, por exemplo, o desenvolvimento dos meios de transporte, reduzem na mesma proporção a grandeza absoluta desse capital comercial e, com isso, aumentam a taxa geral de lucro”.

Há, diz Marx, um “duplo efeito” em ação. A rotação mais rápida reduz a

quantidade de capital comercial requerida, ao passo que a expansão geral da escala e a diversidade da mercadorização aumenta a demanda por capital comercial para lidar com a massa crescente de mercadorias que é produzida. O resultado é “que não apenas cresce a massa do capital comercial, mas o mesmo ocorre com aquela do capital investido na circulação, por exemplo, em remessa, ferrovias, telégrafos etc.”. Marx também concede que grande parte do “capital em semi-funcionamento também cresce [...] com a maior facilidade de entrada no comércio varejista, com a especulação e com um excedente de capital inativo”. O papel do capital excedente em O capital sempre me intrigou. Ele está presente como uma questão, mas raramente é destacado como um problema fundamental (registre-se que eu disse isso anteriormente).

Marx conclui o capítulo com algumas observações acerbas sobre como

concepções e crenças fetichistas podem muito facilmente ser construídas com base no complexo entrelaçamento das atividades comerciais e produtivas: “Todas as visões superficiais e distorcidas do processo de reprodução são derivadas da consideração do capital comercial e das noções que seus movimentos específicos suscitam na cabeça dos agentes da circulação”. Ele chega até mesmo a sugerir que “na cabeça dos agentes da produção e da circulação capitalista surgem necessariamente ideias sobre as leis de produção completamente distintas da realidade, de modo que as ideias de um comerciante, de um corretor da Bolsa ou de um banqueiro são necessariamente invertidas”. Mesmo a concorrência, diz ele, “tem necessariamente na mente deles um papel completamente invertido”.

Do ponto de vista do capital comercial, portanto, a própria

rotação parece determinar o preço. Por outro lado, se a velocidade da rotação do capital industrial, na medida em que capacita um

dado capital a explorar mais ou menos trabalho, tem um efeito determinante e delimitador sobre a massa do lucro e, por conseguinte, sobre a taxa geral de lucro, o capital comercial defronta-se com a taxa de lucro como algo externo a ele, e essa conexão interna da taxa com a formação de mais-valor é inteiramente obliterada.

Isso se revela um problema genérico quando entramos no reino da

distribuição, e voltaremos a encontrar esse fenômeno quando tratarmos da circulação do capital portador de juros. Todo traço de conexão com a produção de mais-valor é obliterado na superfície da sociedade, e essa é a fonte de todo tipo de crença fetichista.

O poder desse mundo de aparência é redobrado pelo fato de que os

capitalistas comerciais podem certamente ganhar um lucro extra na concorrência, acelerando a rotação em relação à média social. “Nesse caso, ele pode obter um lucro extra, do mesmo modo como os capitalistas industriais obtêm lucros extras se produzem em condições mais favoráveis do que a média” (é isso que a teoria do mais-valor relativo no Livro I apresenta). Além disso, “se as próprias condições que lhe possibilitam uma rotação mais rápida podem ser compradas – por exemplo, o local onde ele realiza suas vendas –, ele pode pagar uma renda extra por isso, isto é, uma parte de seu lucro excedente converte-se em renda fundiária”. Isso nos conduz às relações entre o capital comercial e a renda da terra, e ao modo como essa relação se estrutura em ambientes urbanos (basta olhar para as lojas da Madison Avenue ou da Oxford Street para entender o que Marx está dizendo).

O capítulo 19 é um capítulo de transição para a seção V, que trata do

capital monetário e financeiro e do sistema de crédito. Ele analisa em grande parte os “movimentos puramente técnicos que o dinheiro efetua no processo de circulação do capital industrial”, mas vai além, esclarecendo que “esses movimentos, tendo adquirido autonomia como função de um capital particular que os executa, e somente a eles, como suas operações específicas, transformam esse capital em capital dedicado ao intercâmbio de dinheiro”. Como resultado:

uma parte determinada do capital global se separa deste último e

se autonomiza na forma de capital monetário, cuja função

capitalista consiste exclusivamente em efetuar esse tipo de operação para toda a classe de capitalistas industriais e comerciais. [...] Uma vez mais, portanto, os movimentos desse capital monetário são simples movimentos de uma parte agora independente do capital industrial no curso de seu processo de reprodução.

A linguagem da “autonomia” e “independência” dessa forma de capital é

extremamente importante e tem todo tipo de implicação para a análise a seguir. Contudo, como as teses mais importantes desse capítulo são elaboradas posteriormente no contexto dos estudos de Marx sobre o capital monetário e as finanças, não vou considerá-las em detalhes neste ponto da exposição.