Para Entender O Capital: Livros II e III
O Capítulo 13 do Livro II: O Tempo de Produção
Os processos de produção costumam envolver interrupções na produção,
independentemente “da duração do processo de trabalho”. Marx dá uma série de exemplos, como o vinho que tem de passar por um processo de maturação, a cerâmica que precisa secar, os processos químicos que consomem tempo, como o branqueamento, e, é claro, em muitas áreas da produção agrícola, há longos períodos sem nenhuma aplicação de trabalho (sobretudo na silvicultura, em que uma árvore pode levar até um século para se desenvolver plenamente).
Todos os anos, passo alguns meses no interior da Argentina, e sempre a
certa altura de janeiro aparece uma máquina enorme, com um caminhão e três trabalhadores, para colher vinte hectares de trigo em um dia. No dia seguinte, aparece outra máquina, com três pessoas, para plantar vinte hectares de soja em um dia. Dois meses depois, outra máquina vem pulverizar as sementes de soja com inseticida e, três meses depois, aparece uma máquina para colher os grãos de soja; alguns meses mais tarde, outra máquina fertiliza a terra e outra vem plantar o trigo. O capital fixo envolvido é considerável, mas o input e os períodos de trabalho são muito breves quando comparados com o tempo de produção. “Em todos esses casos, durante grande parte do tempo de produção agrega-se trabalho adicional apenas ocasionalmente”.
Obviamente, há um grande incentivo para reduzir os tempos de produção
a um grau fisicamente possível. Marx cita os ganhos obtidos na história da
produção de ferro “desde a descoberta da puddling [pudlagem]16, por volta de 1780, até o moderno processo de Bessemer e os mais recentes procedimentos introduzidos desde então”. Se “o tempo de produção diminuiu enormemente, [...] o investimento de capital fixo aumentou na mesma medida”, o que mostra mais uma vez uma contradição potencial entre diminuição e aumento da velocidade.
A agricultura é, como seria de esperar, a esfera em que é mais difícil
reduzir os tempos de produção, e isso tem implicações para o capital e, mais ainda, para o trabalho. Marx cita longamente Kirchhof, que enfatiza os diversos impactos dessas distinções sobre o capital e o trabalho. Para esse autor, a sazonalidade das possibilidades de trabalho na agricultura é um grande problema. Na Rússia, por exemplo, o trabalho agrícola é possível apenas em 130 a 150 dias no ano, o que acarretaria sérios problemas, não fosse a produção organizada nas aldeias, como “tecelões, curtidores, sapateiros, serralheiros, cuteleiros etc.”. A “unificação da agricultura com a indústria subsidiária rural” foi uma maneira eficiente de lidar com essa estrutura naturalmente sazonal de funcionamento.
Como a produção capitalista veio mais tarde a consumar a cisão
entre manufatura e agricultura, o trabalhador agrícola torna-se cada vez mais dependente de uma ocupação acessória, meramente ocasional, o que faz piorar sua situação. Para o capital, como veremos mais adiante, todas as diferenças se compensam na rotação. Mas não para o trabalhador.
O problema do trabalho sazonal na agricultura não desaparece. Nos
Estados Unidos, trabalhadores migrantes vão em bandos das regiões agrícolas da Costa Leste até as da Costa Oeste para trabalhar na colheita de lavouras sazonais, como frutas e vegetais, vivendo na maioria das vezes em condições precárias e expostos a uma vasta gama de pesticidas. Terminada a temporada de colheitas, eles retornam ao México ou ao Caribe.
Embora Marx reconheça que há muitas indústrias em que não existe o
problema da sazonalidade ou dos longos hiatos entre os períodos de trabalho e os tempos de produção (exceto em condições e crise), há diversas formas de investimentos que são afetadas por esse problema. O resultado é que, “no curso dos vários períodos do ano”, temos “a mais extrema desigualdade no desembolso de capital circulante”. O capital fixo desembolsado não é usado num período do ano, e assim sua circulação é interrompida, o que provoca “certa depreciação”. O caso mais interessante é o da silvicultura, em que o tempo de produção e o tempo de trabalho são tão distintos que:
tornam a silvicultura um ramo de negócios desfavorável à
empresa privada e, portanto, capitalista [...]. O desenvolvimento da civilização e da indústria em geral mostrou-se sempre tão enérgico na destruição de florestas que tudo o que esse mesmo desenvolvimento tem feito para a conservação e a produção de árvores é absolutamente insignificante.
Se isso era verdade à época de Marx, hoje é um problema ainda maior, à
medida que a derrubada das florestas tropicais avança rapidamente em toda a América Latina, bem como no sudeste da Ásia e na África – mas agora com impactos documentados sobre o aquecimento global e a perda de biodiversidade, além da perda das próprias florestas.
Concluindo o capítulo, Marx retoma a questão tratada no capítulo 6 sobre
a formação de estoques e reservas como um custo de circulação, mas vista agora como um problema de temporalidade. Em todo sistema de produção, “uma quantidade maior ou menor de capital produtivo potencial, isto é, de meios de produção destinados à produção [...] precisam existir em estoque, numa quantidade maior ou menor, ou [...] para serem introduzidos pouco a pouco no processo de produção”. De que tamanho deve ser esse estoque? Isso depende, diz Marx, “da maior ou menor dificuldade de sua renovação, da relativa proximidade dos mercados onde eles podem ser adquiridos, do desenvolvimento dos meios de transporte e de comunicação etc.”. Mas ele também é sensível às condições mutáveis da “esfera da circulação”. Embora Marx não diga que condições seriam essas, o exemplo mais óbvio de que dispomos seriam os chamados sistemas de produção “just-in-time” e suas variantes, introduzidos pela primeira vez na indústria japonesa no fim dos anos 1970. Agendamentos otimizados de entregas, facilitados por um sistema articulado de informação (depois computadorizado) e por um sistema confiável de transporte, reduziram ao mínimo a necessidade de ter à mão estoques de insumos e liberaram para uso um enorme volume de capital “morto” ou “imobilizado”. Esses sistemas se difundiram rapidamente por todas as esferas da atividade econômica capitalista.
Os “casos muito diferentes” em que se pode configurar a relação entre
tempos de trabalho e tempos de produção, como observa Marx ao final, em parte deriva da própria natureza do processo de produção e em parte reflete as condições mutáveis da esfera da circulação (como a facilidade de acesso a ofertas e mercados). É a essa última parte do problema que nos dedicaremos agora.